Luanda - Depois de dez anos fora de Angola, o antigo responsável máximo das telecomunicações da UNITA, Félix Miranda, regressou há cerca de sete meses. Em entrevista ao Chelapress, entre várias revelações, disse que através das telecomunicações a UNITA conseguia saber o que José Eduardo dos Santos comia, bem como que, devido a este controlo a UNITA não apanhou dos Santos por alguns segundos nos anos oitenta. 

 

Chelapress: Depois de alguns anos ligados à UNITA, foi para a França. De regresso, apresentou o projecto de criação de um partido político. Nesta altura, algumas vozes acusaram-no de ser o rosto de um projecto que visa pura e simplesmente enfraquecer a UNITA. Até que ponto isto é verdade?


Félix Miranda: Antes de mais, obrigado pela oportunidade. Tenho a dizer que, de facto, estive praticamente dez anos fora do País, mas já estou aqui há cerca de sete meses o que me permite compreender melhor a Angola de hoje e fazer uma comparação com a de ontem. Tive o privilégio de me capacitar, sobretudo no campo da psico-sociologia com pendor para a psicanálise, e isto permite-me compreender o homem segundo o seu temperamento e o homem como cidadão ou ser social, inserido na própria sociedade. É isto que me fez compreender a urgente necessidade de eu, a partir de uma visão política militar, dar o meu contributo. É preciso sublinhar que estou nesta luta desde 1974. Estava a estudar, deixei os estudos e fui para a formação política ou militar. Regressei e continuei o combate e a estudar. Aprendi, no sentido prático, participei em várias actividades políticas, sobretudo em França onde tenho acompanhado a de vários partidos políticos. França é um país evoluído, não tem qualquer semelhança com Angola, mas eu, como angolano, pude apanhar o que é bom e trazer para Angola. Eis a razão de ter fundado o JDD que significa Justiça, Democracia e Desenvolvimento; e depois vêm os três As (AAA) que é Angolano, Angola e Avante.


CP: E porquê JDD?

FM: Justiça, Democracia e Desenvolvimento porque pensamos que, tal como nos outros países, Angola sem justiça não poderá ter desenvolvimento, porque precisamos fazer cumprir as diversas leis. Sem justiça não vale a pena falar, por exemplo, em democracia. E sem democracia não há desenvolvimento porque estaremos perante uma ditadura. Não é verdade, e eu provo isso no meu quotidiano, que a JDD seja um cogumelo que saiu da mata e depois poderá ser pisado... e nem viemos para ofuscar ninguém. A única verdade é que não podemos continuar condescendentes, a dizer sim senhor, cegamente, a cumprir, a estar agarrado a um partido que não arranca, no nosso entender, só porque temos que ser fanáticos. O fanatismo já passou! Antigamente, éramos crianças e entrávamos para estes movimentos com base na emoção, mas ao longo dos tempos entendemos os ideais destes partidos e vemos que, sim senhor, estavam correctos, mas a metodologia e a aplicação destas linhas é que estão erradas. Eis a razão, repito, da criação da JDD e do apelo feito à juventude no sentido de ela não cair nos erros cometidos no passado; que ela própria se interrogue e encontre os caminhos adequados para atingir os seus objectivos.


CP: Esta aprendizagem que disse ter adquirido, não poderia pô-la em prática inserido num dos partidos existentes, a UNITA, por exemplo, de onde saiu?

FM: Infelizmente, estes partidos estão blindados, são caixas fortes, são mais velhos e etc, etc. As nossas ideias perder-se-iam e eu não quero que as minhas se percam, mas sim que encontrem um terreno fértil... São como uma pequena semente que deve dar uma árvore que irá reproduzir outras. Eu poderia, sim senhor, juntar-me à UNITA, mesmo ao MPLA ou à FNLA porque sou angolano e estes partidos representam a voz e a consciência de Angola. Mas não me revejo ali, porque não tenho espaço e eu preciso de espaço para, da minha forma, poder contribuir, esclarecendo a juventude.                      


CP: Disse que estes partidos estão estancados. Mas sabemos que desempenhou funções de destaque na UNITA que, acredito, o ajudariam a fazer passar as suas ideias, apesar de não pertencer ao grupo dos mais velhos?

FM: Sou mais velho, não pela idade porque ainda não atingi os cinquenta (estou quase, faltam alguns meses). Sou mais velho pela experiência. Tenho uma experiência que muito pouca gente tem agora e muitos dos que pensam ser mais velhos também não a têm porque tiveram uma vida rosada. Mas eu tive uma vida arrojada, de desafio, aventuras – muitas não compatíveis com a minha idade, porque tive sempre na consciência que o esforço que praticava naquele presente poderia ser benéfico no futuro, que é o presente de hoje.


CP: Os cargos que ocupou na UNITA aliados a esta experiência não lhe davam margem para chegar e dizer “cheguei e quero fazer isto”?

FM: Por isso é que estou a dizer que sou mais velho em termos de consciência e experiência, porque compreendi a UNITA, e quem diz UNITA diz MPLA porque eu tenho a visão dos dois. Partilhei a UNITA no seu interior e o MPLA no seu exterior, mas compreendi-os, conferenciei com os homens que fazem a cabeça do próprio MPLA (tive esta possibilidade quando fui adido de imprensa durante as eleições de 92), fiz parte da primeira delegação que chegou a Luanda como adido de imprensa e acompanhei pormenorizadamente as marcas das reuniões da CCPM – como se constituiu desde a primeira agulha, até à construção do tecido que faz a Angola de hoje. E nunca deixei de a acompanhar. É verdade que poderia chegar e apresentar as minhas propostas. Mas não passariam, tanto na UNITA como no MPLA porque o MPLA também está blindado, só há uma voz. Esta coisa da voz de Deus, para nós acabou, porque não podemos ser escravos dos nossos partidos mas sim das nossas ideias e fiéis aos nossos princípios, porque temos objectivos pessoais. Não é ambição, mas sim objectivos que devem ser enriquecidos e válidos para outras pessoas e grupos. Temos de revolucionar a forma de fazer política sem, contudo, deixar de ter uma noção do que queremos para Angola. A nossa forma de fazer política é social, essencialmente. Como é que o homem está a viver? Qual é a sua formação e como está a preparar a sua reforma? São estas as nossas preocupações. Não queremos ficar arreigados à questão da ideologia retrógrada, aquela que põe acima de tudo os princípios, os símbolos e as bandeiras. Nós defendemos que as bandeiras e os símbolos estão ultrapassados; temos de evoluir para a etapa de hoje, saber da boa ou má administração e ponto final. A JDD vem para falar da boa ou má administração do homem, da família, de casa e da sociedade.


CP: Qual é a avaliação que faz do desempenho das forças políticas que concorreram às últimas eleições e para quando teremos a JDD a concorrer?

FM: O objectivo da JDD é, nas próximas legislativas, participar nas eleições. Neste momento, fomos recebidos pela pré-candidata Luisete Araújo e posso adiantar que estamos a apoiar a candidata com garra porque ela abraçou o nosso projecto. É verdade que temos tido muitos debates, há coisas com que ela não está de acordo, mas abraçou-o. Pensamos em 2012, pelo menos, conseguir um terço do horizonte dos deputados na Assembleia Nacional porque temos que fazer ouvir a voz da nova geração, que tem que governar Angola com nova mentalidade, mais humanista e não egoísta, divisionista e discriminatória. Nós dizemos não a tudo isto e vamos partir em mobilização por todo o País no sentido de construir-se uma Angola nova, onde o angolano será presidente dele próprio, da sua família e da sua casa. Sublinho que, em 2012, a JDD estará nesta Assembleia, salvo se se cometerem as falcatruas do passado.


CP: Além do rosto do Félix Miranda quais são os outros rostos da JDD?

FM: Em termos de simpatizantes, a JDD está a crescer muito. Em termos daquilo que compõe a nossa elite de comando, somos cerca de dez. A nossa proclamação oficiosa aconteceu em Outubro, numa conferência de imprensa onde tivemos a possibilidade de colocar o nosso manifesto à apreciação de toda a Nação e da comunidade internacional. O manifesto tem todo o programa e temos dito que o MPLA tem, em muitos aspectos, copiado mal o que constitui o nosso projecto de sociedade. Terá oportunidade de ver, o projecto de sociedade da JDD tem aquilo que um governo deve fazer e o que não deve fazer, quais são as incumbências de um presidente da nação, de um ministro, de um governador provincial, de um administrador municipal e comunal; o que é uma vila habitável e quais são os objectivos que devemos induzir na mentalidade do jovem. Um dos exemplos que o MPLA tem estado a copiar do nosso projecto é a questão dos cinco milhões que entregaram aos municípios. Nós chamamos a cultura das leis para a cultura dos resultados onde defendemos ser necessária a questão da descentralização das administrações, mas está a ser aplicada muito mal. Ninguém saberá justificar como foi gasto este dinheiro. Esta precipitação do governo em mostrar que tinha um projecto para a Nação (e afinal não tinha absolutamente nada) fê-lo gastar muito dinheiro... Reprovamos isso e vamos mostrar onde o governo está errado. Como disse, temos este núcleo de dez pessoas, há outros que estão a colaborar connosco, indivíduos experientes nestas lutas e lides políticas. Só pedimos que nos deixem existir, não nos coloquem uma casca de banana, não nos enviem um camião com o pretexto de que o motorista estava com sono e matou um membro da JDD, porque em África há muito disso.


CP: Estão preparados para possíveis divisões internas do grupo?

CP: O grupo não é possível ser dividido porque cada elemento do grupo é uma nação. Antes da JDD surgir surgiu o projecto, e para destruir o grupo, primeiro tem de ser destruído o projecto e este é indestrutível. O programa da JDD não é as pessoas, mas sim o projecto. O César Silveira, que me está a entrevistar, pode pegar naquele projecto e ser o presidente da JDD. O condutor do programa de acção política, social e económica da JDD para Angola, aquilo que quero em termos de crescimento é o PNB e de desenvolvimento é o PIB (são duas coisas diferentes que as pessoas, inclusive economistas, muitas vezes confundem). Nós queremos pugnar, não só para o PNB, mas também para um verdadeiro PIB para que cada um, no final de cada mês, tenha no banco pelo menos quinze mil para poder desfrutar de verdadeira paz social.


CP: Há quanto tempo nasceu este projecto?

CP: Este projecto tem muitos anos, existe desde 1997. Primeiro lancei um livro, uma mini-autobiografia, onde falei um pouco das minhas memórias políticas e de guerra; do que aprendi com Jonas Savimbi e também com Eduardo dos Santos; dos vários comandantes do MPLA, da UNITA e de algumas memórias da FNLA e da sociedade em geral. Eu tinha como objectivo puxar pela juventude, mas depois notei que, após 2002, quando a UNITA ressurgiu nas cidades, ressurgiu como UNITA não só penalizada mas vítima de si mesma. Eu interroguei-me: como é que a UNITA aceita isso? Não foi a UNITA que começou com a guerra... As autoridades portuguesas, que conduziram o País até 1975, provaram isso. Não foi a UNITA que mais matou, mas o MPLA, fruto da sua capacidade monstruosa de dramatização demoníaca. Conseguiu fazer com que a UNITA passasse a ser o demónio de todos os demónios e a UNITA entrou com este estatuto e não conseguiu levantar a cabeça. Eu não me sinto penalizado nem culpado, faço parte do grupo de todos os angolanos, do MPLA, da FNLA e da UNITA que provocaram esta guerra que foi inútil porque foi contra nós mesmos. A guerra útil foi a que fizemos contra os portugueses, mas como houve ambição, houve esta guerra. A História tem que ser refeita e contada. Vocês, juventude, que não foram os protagonistas da história, deveriam aproveitar-nos, nós que fomos os protagonistas, para vos contar como ela foi feita. Eu não sou um leitor nem um estudioso da História, sou protagonista, sou um peão do xadrez que fez a Angola de hoje. Por isso digo que sou um angolano e ninguém me vem ensinar como é que devo andar nas ruas de Angola, porque palmilhei Angola de Cabinda ao Cunene e do mar ao leste, fui até ao marco onde o português chegou, na voz do rio Zaire, e compreendi como é que o português lá chegou. Apercebi-me que não há nenhum marco em Angola que tenha o nome de um angolano. Não há pontes, prédios, hospitais, não há nada com nome de um angolano. Tudo é ou português, ou cubano e, agora, é o chinês que está a fazer. Por isso, recentemente, em conversa com a senhora Luisete Araújo, ela concluiu que Angola não pertence aos angolanos e eu abraço as ideias de Luisete Araújo e de todos os verdadeiros patriotas e nacionalistas. É por isso que abracei o projecto do Folha8, com a pretensão de dar um contributo a alguém que eu penso que é nacionalista como o senhor Willim Tonet. Não é por dinheiro nem por prestígio porque não preciso disso. Aliás, eu faço parte de uma família revolucionária. Sou primo-irmão do senhor Manuel Miranda, que recebeu Eduardo dos Santos no Congo e foi um dos braços direitos de Holden Roberto. Sou familiar directo do Matias Mingueis, que é um co-fundador do MPLA. Sou neto do Vakulukuta que é do Cunene e andou na UNITA. Sou primo-irmão de Wilson dos Santos que foi o primeiro representante da UNITA, em 1975, aqui em Luanda.


CP: E o Félix Miranda, porque optou pela UNITA e porquê tão cedo?

FM: É uma boa questão. Porquê a UNITA!? Porque a UNITA surgiu como um movimento que saiu de entre o camponês, o pobre e a classe média porque, logo de início, compreendemos que o MPLA não era um movimento essencialmente para os angolanos. Isso é verdade, por isso a UNITA tinha cerca de 75% do apoio da populaça de Angola a partir de Luanda e o Savimbi provou isso quando veio para Luanda. Eu estive em Luanda nesta altura. O MPLA já veio elitista, um partido dos homens de colarinho branco, homens bonitos. Quando lancei o livro na Universidade Lusófona de Portugal, perguntámos ao Rosa Countinho o porquê da forma de descolonização de Angola, e ele respondeu: “nós entregámos Angola ao MPLA porque era o único movimento que tinha homens civilizados, que comiam com garfo e faca”. Estava lá a Fátima Roque e outras pessoas que estão aqui em Angola, o Zé Pedro que é professor da universidade. Se lhe perguntar ele irá responder a mesma coisa. São factos da História. A UNITA surgiu como um movimento que vinha das matas mas se identificava com os pobres, via-se que eram indivíduos que sofreram. Diziam que a UNITA era produto da PIDE É mentira. Produto da PIDE e não tinha dinheiro, não tinha armamento, não tinha fardamento, estavam todos desorganizados, punham uma meia castanha e outra branca; punham umas calças à civil e uma camisa militar... Foi assim que UNITA surgiu nas cidades... Conversámos também com os nossos pais e concluímos que “estes, afinal, são os indivíduos que lutaram por Angola e vieram para libertar Angola”. Quando o Lúcio Lara foi para Benguela não teve tanto apoio como teve Savimbi quando passou por Benguela e Lobito; mas quando o MPLA accionou a sua máquina de propaganda a dizer que o Savimbi era produto da PIDE, as coisas começaram a mudar. Mas, mesmo até 1975, a UNITA ainda tinha um grande apoio ao nível nacional. Eis a razão de termos integrado a UNITA. Depois, o meu primo Wilson dos Santos estava a estudar em Portugal e tinha já simpatizado com os ideias da UNITA. Veio para Benguela e foi um elemento que substanciou a nossa visão da UNITA. Então, em 1974, alistei-me na UNITA, fui até às bases centrais da UNITA, até Lunguebungo, que muito poucos que hoje reivindicam a UNITA conhecem. Aí, onde só para atravessar o rio morria muita gente por fome e afogamentos. Alistei-me na UNITA mas houve sempre camaradagem com o MPLA porque, pessoalmente, nunca tive o MPLA como inimigo, mas como adversário político, com ideias diferentes. Mas hoje nem um nem outro, porque sou adulto, a experiência ao longo dos tempos permitiu-me traçar uma linha que, independentemente de tudo isso, é a ideal para convencer a juventude.


CP: Disse que a UNITA era uma força dos pobres. Fez parte de muitas batalhas... afinal como é que a UNITA se aguentava?

FM: Por causa disso mesmo, o pobre contenta-se com a pobreza. Infelizmente, talvez seja isso mesmo que está a penalizar o angolano. O africano, sobretudo negro, contenta-se muito com a pobreza, conforma-se com tudo, nunca luta para criar o melhor, e quando os outros conseguem criar o melhor, nasce a inveja. Jonas Savimbi sublinhava que o maior problema em Angola era esse, a inveja. A UNITA teve esta capacidade de auto-suficiência porque se contentava com pouco, mas depois vieram os apoios da África do Sul, da América, tivemos algum tempo apoio de Marrocos... de Portugal muito pouco, não deu nada à UNITA, talvez apoio diplomático. Tivemos formações a partir destes países e com assessores destes países, mas não em termos militares como diziam... A UNITA nunca teve mercenários, teve um grupo de sul africanos que formaram os nossos batalhões, isso não é novidade para ninguém, nem chegavam a cento e cinquenta e estavam a conduzir alguns tanques nas últimas ofensivas do Kuito Kwanavale. Mas o que suportou mesmo a UNITA foi a consciência de resistência, porque o homem da UNITA estava consciencializado que, durasse o tempo que durasse, as suas vidas iriam mudar, os seus filhos teriam uma outra vida e nós iríamos governar Angola para o nosso bem e de todos os angolanos. Não foi fácil suportar todo este martírio, foi de uma dureza fora de série, morreu muita gente tanto por força das balas como por fome e outras coisas mais. 


CP: Mas as informações davam conta que a UNITA tinha muitos diamantes e mercúrio...

FM: Não confirmo o mercúrio, mas sim os diamantes. Nos últimos tempos fui chefe das operações da região norte, para além de coadjuvar um grande general, o Apolo, que agora está no Lubango. Participámos em grandes combates, libertámos grandes áreas e tínhamos ligações directas com as zonas diamantíferas, pegávamos os diamantes como se estivéssemos a pegar areia. Foi graças a estes diamantes que Jonas Savbimbi, baseando-se num princípio chinês, dizia: “antes de tudo, é preciso contar essencialmente com as nossas próprias forças”. Ele dizia que os americanos eram amigos circunstanciais porque eles baseavam-se no princípio de que não há amigos nem inimigos permanentes, mas sim interesses permanentes. Savimbi incutiu-nos isso na mente, fez com que trabalhássemos com a realidade, com o presente. O teu amigo é o que está em frente de ti porque será ele a levar-te caso sejas ferido. Pusemos o povo a cultivar. O português, por exemplo, saiu de Angola dizendo que o Kwando Kwbango não produzia milho, mas a UNITA deixou muitas lavras de cereais porque o Savimbi dividiu o povo para produzir, as mulheres apoiando a retaguarda das forças armadas, e forças empenhadas em capturar outro material e áreas económicas como as diamantíferas. Isso é que fez com que nos últimos tempos a UNITA tivesse a ousadia de comprar tanques e outros mísseis. Só por causa da traição de alguns elementos da própria UNITA é que ela se desmoronou, segundo dizem, e a História vai mostrar que foi praticamente isso que fez esboroar a própria a UNITA.


CP: Além de chefe das operações, que outras funções desempenhou na UNITA?

FM: Foram muitas, mas no campo das forças armadas, fui um senhor das telecomunicações, em termos de rádios, ondas e teorias de antenas. Tive um outro domínio, foi a questão dos códigos. Tivemos a possibilidade de ganhar a guerra contra o nosso adversário porque antecipávamos tudo quanto o adversário fosse a fazer, isso era a minha propriedade e fi-lo com muito gosto e perícia. Também tive actividades políticas, como coordenador da JURA, mas estava mais ligado ao campo militar, ao sector que o Savimbi dizia que era o viveiro da UNITA, porque concentrava a maior parte dos quadros da UNITA. Se forem a estudar a história da UNITA vão ver que é das comunicações que saíram os grandes quadros que hoje estão a mostrar o que aprenderam na UNITA na sociedade civil. Hoje, com muito orgulho digo que pertenci às comunicações. Os estrangeiros chegavam lá e ficavam admirados com a organização e disciplina. Tínhamos mais de cem homens, mais de oitenta rádios, ao nível da base central, e outros satélites distribuídos pelas várias frentes de combate com sete ou cinco rádios cada, nas dezoito províncias, e outros grupos descentralizados. Eram muitos rádios que tínhamos de controlar e eu tive o privilégio de controlar tudo isso, por isso ganhei muita experiência no que diz respeito a liderança.


CP: Há quem defendia que a UNITA, pelas telecomunicações, controlava bem Luanda…

FM: Através das comunicações a UNITA sabia o que é que o Presidente José Eduardo dos Santos iria comer, penso que está tudo dito. A UNITA foi uma grande força e as pessoas não podem ignorar isso. A UNITA sabia exactamente onde iam as colunas, quantas forças tinham, quem ia comandar e o que ele ia fazer... só que a UNITA não tinha homens para contrapor. Onde, por exemplo, as FAPLA investiam mil e quinhentos homens, a UNITA ia defender-se com trezentos e cinquenta homens... só que eram bravos combatentes que conseguiam desbaratar os mil e quinhentos que vinham com uma mentalidade de recusa, já que nem todos tinham moral para combater... notávamos isso quando capturávamos homens. Aliás, fui chefe de muitos pilotos da FAPA. Savimbi tinha a política de reintegrar todo o homem útil. Esta história de reintegração não se veio a aprender aqui, a UNITA já a fazia; eu, pessoalmente, fui chefe de muitos pilotos treinados na União Soviética e cubanos, sobretudo de Sokoi e Mig21 que hoje ainda gostam muito de mim.


CP: Quando diz que a UNITA sabia o que o Presidente dos Santos comia, estamos perante uma ironia ou um facto?

FM: É uma realidade. Eu, Félix Miranda, que estou a dizer isto, era o chefe nacional das telecomunicações da UNITA. Antes de Eduardo dos Santos partir para determinado sítio, a UNITA já sabia onde ele iria e o avião com que iria. Por exemplo, o Eduardo dos Santos uma vez estava para ser apanhado em Maquela do Sombo, e só não aconteceu porque a UNITA chegou tarde, porque era a andar a pé, não tinha meios de locomoção rápida, é uma realidade. A UNITA teve muitas probabilidades e eram muito bem estruturadas porque o Savimbi era muito inteligente, isso é preciso sublinhar. Teve os seus erros como qualquer ditador, qualquer indivíduo que comanda uma revolução, tal como Mao Tse Tung porque a revolução não é a mesma coisa que comandar uma sociedade, na revolução não pode haver mil ideias nem mil chefes. É verdade que houve mão de ferro em algumas situações, houve excessos, mortes desnecessárias, quadros que desapareceram e não deveriam, mas tudo isso foi produto de uma revolução que é preciso estudar e explicar à juventude e acabar de uma vez por todas com ela... vamos optar pela reforma...ninguém pode ficar agarrado a pensar que o País é seu, porque isso faz com que as pessoas fiquem exasperadas, criem descontrolos.


CP: Então devemos entender algumas falhas do MPLA, por ter sido um partido revolucionário?

FM: É retrógrado, o MPLA sabe que está caduco. E quem diz MPLA, diz UNITA e nós fizemos menção a isso no nosso manifesto. Para fazermos uma verdadeiras reconciliação, o primeiro que deve ser feito é acabar com estes símbolos, o símbolo do MPLA é do tempo da Rússia antiga, do tempo de Estaline, e é preciso sublinhar que a Rússia não usa estes símbolos. No próprio estatuto do MPLA há elementos ultrapassados: movimento popular de libertação, não! Angola está libertada. FNLA, UNITA, tudo tem que ser mudado. É verdade que ainda se devem agarrar um pouco a isso porque é a história destes partidos, mas temos de ter a coragem de mudar porque foi assim noutros países.


CP: Disse que Dos Santos escapou no Maquela do Zombo. Foi a única vez e quando foi?

FM: Não me atrevo a dizer exactamente o ano, mas foi entre 86 e 87. Podem entrevistar o Higino Carneiro ou o Nandó que na altura parece que era da segurança, mas foi mais ou menos isto. Quanto às outras vezes, posso dizer que a mais flagrante foi esta, mas não era de propósito, era só para criar notícias porque o combatente emocionava-se pelos golpes que dava. Mesmo aquela coisa do Angola Combatente do Octavio Kapapa nos dava mais coragem para combater como também nos orientava.


CP: A segurança do presidente Dos Santos apercebeu-se desta situação?

FM: Naturalmente. Tiveram de fazer uma operação para retirar o Presidente e uma outra para ir buscar o outro pessoal, mas quem escapou não foi só o Eduardo dos Santos. Participei numa operação – lembram-se de uma carta que o presidente Neto leu e que dizia que o Savimbi fugiu porque estava quase a ser apanhado, em 1977, se não me engano, nas palmerinhas, no Cunene? Eu estava naquela coluna, isto é verdade. Aliás, Savimbi esteve para ser apanhado várias vezes porque era arriscado, era essencialmente militar, ia ao terreno para fazer com que as ideias dele fossem implementadas. Portanto, todos os homens que andaram na revolução escaparam. Não sei de Holdem Roberto, mas em relação a Savimbi e ao Santos sei.
 


CP: A UNITA conseguia as informações apenas pelo dispositivo de comunicação ou também contava com homens do próprio MPLA, como se dizia?

FM: Em toda a guerra há os serviços de inteligência e a UNITA estava muito bem organizada e profissionalizada em termos destes serviços, e não só. O povo estava descontente e um povo descontente é uma arma, dava informações. Aqui, tínhamos redes muito bem organizadas que davam conta das ocorrências dos preparativos e do que pensavam, mas o MPLA também tinha as suas redes, não só em termos de infiltração no campo político, mas também no próprio campo militar. Este jogo era normal.


CP: Conheceu bem o Savimbi?

FM: Conheci-o bem em vários aspectos, sobretudo em termos de trabalho. Aqui em Luanda às vezes chamava-me para saber o que a juventude e os jornalistas pensavam e o que era necessário fazer. Era um indivíduo de comunicação e não o que diziam, que era um bicho. Era um bicho na sua actividade militar. Às vezes as pessoas não o compreendiam mas era um indivíduo de comunicação. Tinha as suas durezas porque muitas vezes era preciso impor-se. Cometeu erros, como já disse, e desnecessários, que foram fatais, fizeram cansar o pessoal e os próprios em que ele confiava, familiares e etc Esses é que o traíram, tudo isso faz parte da História.


CP: O que sabe do actual presidente da UNITA?

FM: Eu não tenho muito apego em penetrar naquilo que é actividade da UNITA hoje porque, como eu disse, a UNITA reapareceu nas cidades muito cabisbaixa, teve que assinar um armistício. Nunca assisti a nenhuma reunião do senhor Samakuva nem acompanhei o que a UNITA pretende para a Angola de hoje e quais são as estratégias que tem para convencer quem ainda está de pé. A UNITA é um movimento histórico, não pode desaparecer assim, mas os actuais dirigentes têm de ter a coragem de perceber que é tempo de mudança porque as crianças de hoje não existiam em 1975, têm outra mentalidade, já não querem aquela mentalidade retrógrada. Talvez por isso, penaliza-se o doutor Samakuva porque é preciso mudar, dar acesso à penetração de outras forças vivas. Eles deveriam ser conselheiros: Deixem a juventude fazer o trabalho, porque a juventude tem mais força, tem uma outra visão, outra energia e ambição. Os mais velhos querem acomodar-se, querem ter uma casa, dois carros, uma casa para os filhos na Europa, é essa a luta dos mais, mas os jovens querem-se afirmar, querem ser ministros, presidentes e é isso que faz a força de uma máquina política. O mesmo acontece com o MPLA. O Presidente José Eduardo dos Santos tem de compreender que a nova geração surgiu, deveria estar nas bancadas e dizer: “meus filhos, fiz o que podia fazer e entrego-vos esta máquina, continuem, mas protejam-me, meia culpa pelo que fiz no passado, mas foi culpa das circunstâncias”. São coisas bonitas que os africanos, sobretudo pretos, não sabem, ou melhor, não gostam de fazer, são como os ditadores da Europa e do terceiro mundo.


CP: Está a dizer que o Presidente dos Santos já não deveria concorrer nas próximas eleições presidenciais?

FM: Não deveria. Para o seu próprio prestígio, deveria sair com pompa e circunstância, dizendo: “trouxe a paz, mal ou bem estou a entregar-vos essa Angola, organizem as eleições, vou supervisionar e que Deus abençoe Angola”. É essa recomendação que dou ao Presidente Eduardo dos Santos.


CP: Há quem defenda que ele ainda é o símbolo da estabilidade em Angola?

FM: Isso, não só é utópico, mas também uma forma tacanha de compreender o problema. Os africanos tendem muito a olhar para o chefe como o seu Deus e se este desaparecer a terra também desaparecerá. Por A mais B já se provou que o Presidente não é Deus, é um ser humano como outro qualquer. Aliás, não é ele que faz a força da máquina, ele é rodeado de indivíduos que pensam, praticam e materializam por ele. No nosso programa da JDD sublinhamos que presidente não é uma profissão e a candidata Luisete Araujo aceitou inserir isso no memorando que ela lançou para o País. O posto de presidente está ao dispor de qualquer um porque é uma cabeça pensante que dá as luzes para se materializarem. Depois, tem o governo composto pelos ministros, vice-ministros, gabinetes, e assim vai até à própria aldeia. O cargo de presidente é circunstancial, é para quatro ou cinco anos, e, se se conseguir provar que o que prometeu foi materializado, é reeleito mas só mais uma vez. Deixa o lugar a outro. O César Silveira também pode ser presidente, pode sair de jornalista e ser presidente, basta ter luzes, uma ideia concreta do que é Angola, ter um projecto, ser aceite no seio dos que fazem o governo e vai governar. África continua instável porque os presidentes pensam que são os sobas e os países são as suas lavras, por isso vai ser difícil a África estabilizar porque o presidente pensa “eu e a minha família e mais ninguém”.


CP: Ainda acredita nas eleições presidenciais para este ano?

FM: Tenho de acreditar, porque não acredito que o Presidente José Eduardo dos Santos, que tem a chave nas mãos, vá negligenciar esta vontade e força do próprio povo. Ele é suficientemente inteligente, sabe o que é negativo, e vai, não só realizar as eleições em 2009, como também vai colocar à disposição da consciência e da vontade do povo a sua reeleição ou não. Mesmo que não seja reeleito, o Presidente Dos Santos já fez a sua história e é esse exemplo que Angola deveria dar porque, até agora, Angola não é exemplo de nada porque continua com o estigma da ditadura. Ele está há trinta e três anos no poder, e para se realizarem eleições são precisos debates. E os angolanos só estão apoiados pelos estrangeiros que precisam do dinheiro de Angola porque também os estrangeiros parece que compreenderam que o povo angolano gosta deste tipo de ditadura, porque está a consentir tudo isso – é como se dissesse “deixa-nos viver com a nossa cuca e etc”.                                                                                      


CP: Mas o Presidente disse que tudo irá depender da Nova Constituição e, consequentemente, da Assembleia…

FM: Está a depender porque ele sabe que tem quase trezentos elementos na Assembleia, outros quatrocentos que fazem os corredores da Assembleia, tudo isso é obrigado a votar, está mais que provado. Aliás, se a gente está a falar de fraude e ninguém consegue provar o contrário é porque, à partida, a máquina estava a trabalhar. Impuseram a maioria absoluta, depois metem o Quintino da ND como se fosse o inventor da nossa corrente, que não há nenhuma outra correcta, aquilo é mais um propósito maquiavélico para induzir outra vez o angolano na dúvida e criar instabilidade. Para quê? Sejamos civilizados e mostremos aos negros africanos que a África é possível comparar-se à Europa ou América do Norte.


CP: Quando foi para França, porquê a França e como a França olha para Angola?

FM: Fui para França de uma forma ocasional porque passei por Portugal e depois tive a oportunidade de ir para FRANÇA. Estou a gostar de estar na França porque aprendi muito, é um país extremamente consciente, por qualquer coisa há manifestação - a força do povo está lá, porque dói. Todo o individuo que chega ali, basta estar legalizado, é obrigado a estudar, porque eles compreenderam que só gente formada pode facilitar a governação do país. Um indivíduo letrado não aceita viver na poeira, numa casa que está a cair; ele não só vai reivindicar, como também pode remendar ou chamar os serviços adequados; não é como em Angola que estão a construir escolas a conta gotas. Um individuo mora no Cazenga  e tem que estudar na Samba - só para chegar à escola são três horas de carro. Isto é um crime que se está a fazer. Depois, é um ensino que está mal, continua a corrupção e os professores não beneficiam devidamente dos estágios de capacitação pedagógica. A França também não é uma sociedade perfeita porque essa não existe, mas podemos dizer que é válido o que fazem para o presente, porque conseguem mais ou menos superar as crises, ultrapassar os obstáculos e, sobretudo, dar bem-estar aos cidadãos tanto nacionais como estrangeiros. Passei por Portugal. Também gostei, mas está um pouco abaixo em relação aos outros países porque eu estive na Alemanha, na Itália, fui visitar a Suiça, estive na Holanda, mas sempre com a intenção de compreender como é que aquelas sociedades estão organizadas e perguntar-me porque é que o africano, sobretudo o negro, não pode fazer isso nos seus próprios países. O que é que compreendi!? A partir dos próprios presidentes, há um défice de conhecimento. Ou estudaram pouco ou, se estudaram, não o fizeram com a luz e com os objectivos da governação, mas sim para fazerem política ou conduzirem a guerra. Por isso têm algumas dificuldades em administrar as sociedades e os povos. Quero dar o meu contributo para Angola, vou ser crítico até que a natureza ou outro artifício me tire a vida porque compreendi que os outros países só avançaram por causa das críticas.


CP: Como os franceses olham para Angola?

FM: As autoridades francesas olham para Angola com uma certa perplexidade, não por causa dos seus dirigentes mas pelo seu povo. Perguntam como é que o africano aceita viver nestas condições... Falam do povo porque os dirigentes são inteligentes porque conseguem escravizar este povo que ainda os aplaude, os venera. Eles perguntam isso porque a sociedade deles não é assim... Aqui falta luz, água, há buracos nas ruas e o dirigente está a rir-se e a andar à vontade. Lá nunca mais isso é possível – ou demite-se ou há confusão.   

                  

CP: Terei esquecido alguma coisa que gostasse de abordar?

FM: Penso que fizemos a ligação entre o Oceano Atlântico e o Índico, de lés a lés, palmilhámos Angola, falámos um pouco da minha história pessoal e da história da revolução que é preciso que a juventude saiba. É preciso entrevistar o Higino Carneiro, o grande combatente general Vietname, os Faceiras, João de Matos, o Furtado não sei se ainda existe... são indivíduos que nós comprovamos que combateram, eles é que devem contar a realidade da História, porque foram militares mas também políticos e sociais porque estiveram ao lado das populações. Quem matou, quem não matou, a História precisa de ser bem contada porque está mal contada... é falsa esta história que vocês estão a aprender. Gostaria também de deixar uma mensagem para juventude: “não esperem que os dirigentes construam o vosso futuro, é a juventude que tem, hoje, que pegar nos paus, nas ferramentas e organizar o seu próprio futuro. Participem mais activamente na política, não cruzem os braços – uns estão na universidade e têm medo de criticar para não perderem as oportunidades. Não é verdade que esteja destinado que o filho de um camponês continuará camponês, o do pobre continuará pobre, o do ministro continuará ministro e o do presidente, presidente. Pensar assim é burrice, grande estupidez, porque o filho do camponês também pode ser presidente, o filho do miserável tem de ganhar consciência que tem que lutar para ganhar o passado do pai dele por isso: juventude não é só estudar, cultivem-se, leiam, aprendam, porque a prática é o critério da verdade mas procuremos e encontremos a verdade através dos feitos. Eis a minha última palavra”. 


*César Silveira
Fonte: Chelapress



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