ImageLuanda - Há dois anos, mais ou menos, José Eduardo Agualusa escreveu nas páginas do jornal em que é assíduo cronista, a Capital, um texto em que punha a ridículo os gostos da nova burguesia angolana. Dizia, entre muitas outras coisas, que os novos-ricos angolanos estariam mais à-vontade a comprar artesanato no mercado do que arte ocidental. E, como sempre, Agualusa foi enxovalhado publicamente.

O tema do mau gosto da elite angolana, que dá igualmente carta na política, aparece em muitos outros escritos de Agualusa, particularmente O Vendedor de Passados. No entanto, ele não é o único ocupar-se ficcionalmente deste tema. Pepetela, em pelo menos três obras suas, tem tocado na questão do rápido e indevido enriquecimento, sobretudo quando o mesmo não é acompanhado pela sofisticação do gosto. Isso aparece na saga cómica que gira em volta do personagem Jaime Bunda, e com mais precisão em Predadores. Há um momento, por exemplo, em que a personagem principal, Vlademiro Caposso, para mostrar o seu cosmopolitanismo, decide plantar no seu quintal uma miniatura da Torre Eiffel.

Preferíamos muitos de nós, que o mau gosto dos que nos governam fosse apenas matéria de troça. Que servisse de material para alguns bons livros, mas que não ofendesse a nossa sensibilidade. Infelizmente, não é assim.

O derrube do Mercado do Quinaxixe, e de outros edifícios históricos, é prova da mistura explosiva que é encontrar-se três características nas pessoas com poder de decisão: dinheiro, a presunção de estar acima da lei e da vontade popular, e uma manifesta falta de gosto e cultura. O Mercado do Quinaxixe, é bom recordar, foi construído no anos 50, a partir do projecto de um arquitecto português, Vasco Vieira da Costa, que tinha sido aluno de Le Courbusier. Este mercado era a mais acabada obra de um projecto arquitectónico inovador que tirava partido das características climáticas de África.

Le Courbusier, como se sabe, investiu nos últimos anos da sua longa carreira no que se chamaria cidades ecológicas. Ou seja, uma arquitectura que se inspirava na natureza e que entrava em harmonia com ela. Vieira da Costa fazia parte de um grupo de arquitectos que se dedicava a muito mais do que plantar edifícios desenhados na Europa. Muitos tinham viajado pelo interior, e apreendido técnicas de construção tradicional.

O mercado e grande parte dos edifício da zona do Quinaxixe tinha muito disso desta arquitecturan experimentalista: corredores amplos para a circulação do ar; frestas em vez de paredes exteriores para manterem os interiores permanentemente frescos. E o mercado aí estava, como a expressão mais emblemática do encontro entre tradição arquitectónica tradicional e o modernismo inaugurado por Le Courbusier e os seus discípulos. Um dos grandes problemas do país, hoje, é que parece que as pessoas acordaram para a paz com a impressão de que se vive sob riqueza que nunca mais terá fim. E toda a gente sabe que o petróleo gera um tipo muito específico de imaginação. Onde aparece petróleo aparece também vontade para projectos megalómanos.

Angola não é o primeiro caso de um país que no auge da alta dos preços decide investir na sua modernização. Nigéria, para dar um exemplo mais próximo, fê-lo também. Porém, não sobrepôs o novo sobre o antigo, mas preferiu construir uma cidade de raiz: Abuja. Faz também parte da imaginação de quem tem petróleo a sobrevalorização de tudo. Dinheiro que não custa a ganhar encarece tudo o resto. E isso infelizmente contou desfavoravelmente tanto para o edifício do mercado, como para muitos outros edifícios da cidade, que mais tarde ou mais cedo, com maior ou menos agravo da população, irão abaixo. Porque o valor dos sítios em que se encontram ditam a sua própria eliminação. Na cultura dos que nos governam, o dinheiro tem mais valor que a história, o passado, as ideias.

E nem o mais dedicado historiador da arquitectura seria capaz de explicar a quem ordenou a demolição do mercado porque razão se haveria de conservar aquele edifício, gastar milhões de dólares na sua recuperação, quando, deitando-o abaixo, construir no seu lugar um centro comercial, encimado por uma torre com apartamentos, cobrarse- ia a valor do investimento na simples venda dos apartamentos.

Da mesma forma que não compreenderiam como é que uma obra de Picasso, sem qualquer uso prático, possa custar mais do que os edifícios que serão construídos no lugar do mercado. O conceito do utilitário, o imediato, o que se consome e gera dinheiro, é que tem triunfado. E foi isso também que gerou a destruição do mercado do Quinaxixe e ditará um dia, se houver dinheiro para tal, a destruição de toda a baixa da cidade.

Fonte: Novo Jornal 



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