Luanda -  A paz é um bem inquestionável para qualquer povo, cultura, nação, meio ambiente e o homem singular. A paz não é um bem em si, ela tem os seus ingredientes para que se fortaleça, se manta... Por isso, apesar de termos alcançado um condição necessária que leva à verdadeira paz, precisamos de a manter.. É isto que me preocupa, porque ao longo dos sete anos em que os canhões foram silenciados, não observei actos concretos e substanciais que garantam a paz de facto. Devemos afirmar que a paz tem várias dimensões, mas um valor fundamental que a sustenta e a prolonga é sem duvidas a justiça – àquela justiça que começa no coração de cada indivíduo e se prolonga nas instituições que fazem o complexos sistémico societal.
 
Se me permitem, gostaria esclarecer o conceito "pax romana" para que possamos entrar no núcleo duro da nossa abordagem. O conceito pax romano tem a sua origem no império romano.

Quando o império romano conquistava uma terra e um povo, os submetia com todos os meios militares possíveis, de tal sorte que os autóctones se conformavam com a situação porque não tinham capacidade para reagir, para discutir os seus direitos rejeitados diante da grande potência militar e política que império possuía. Era uma paz mais ou menos ao estilo da guerra-fria. Paz falsa. Para mim, esta é a paz que Angola tem em que uns podem tudo mandam e desmandam e os outros devem se calar na óptica do grupo dominante – aqueles que se intitularam dadores da paz para Angola. Que vergonha! Vergonha porque a cessação das hostilidades dependeu da vontade e disponibilidade das partes. Se afirmarem ao contrário é loucura. Embora reconheçamos que uma parte estava fragilizada militarmente!

A nossa preocupação reside no facto de que a pax romana cria rancores e é uma condição propiciadora de novos conflitos. Não acho que a UNITA volte a isto, mas existem muitos angolanos não nos esqueçamos disto.

 Do ponto de vista doutrinal, a paz é concebida como um valor que não existe em si, se não que é composta por várias dimensões fundamentais:

1)      Subjectiva ou psicológico. Significa que cada individuo tem de estar em paz consigo mesmo, para isto, é necessário que as pessoas tenham uma educação que os permite encontrar o sentido da sua existência. A soma das pazes individuas é uma condição fundamental para a "paz total". Esta dimensão é muito relevante porque a guerra ou a paz começa sempre na mente e no coração de cada individuo…
2)      Intersubjectiva ou social. Entende-se como a paz das relações humanas mais básicas. Esta paz fenomeniza-se na família e se prolonga na sociedade, fruto de uma concepção da alteridade como outro EU e por isso sou responsável por ele.

3)      Ambiental. O projecto actual de uma ética ambiental, que vê o homem não mais de forma vertical em relação a natureza mas num prisma igualitário – relação do homem com a natureza é de irmandade como defendia Assis e não de submissão, de respeito e não de exploração. Este paradigma afirma que a natureza reage as agressões humanas, dai o aquecimento global, efeito estufa, desertificação, etc., etc., e estas reacções perigam a continuidade do homem no mundo por isso, não temos outra solução senão restabelece a paz com a natureza respeitando-a nos seus ritmos naturais, caso contrário poderemos cair num humanicídio. Sobre esta questão, Angola não é exemplar, basta citarmos os derrames de petróleo no mar de Cabinda (causando um braço de ferro entre a sociedade civil local e o governo, atiçando mais o sentimento independentista), a desertificação que avança no Namíbe sem qualquer projecto para inviabilizar a progressão do fenómeno, a desflorestação (a floresta de Maiombe é um exemplo), etc.

4)      Económica. A paz passa também pela justiça social. Não é necessário apresentarmos muitas informações para radiografar a miséria que a maior parte dos angolanos vivem (inclusive o papa fez-nos recordar a quando da sua visita). Se fosse uma miséria por si, então compreenderíamos, mas sabemos que é causada por um grupo que desde 2002 até hoje foi fortalecendo a sua riqueza sem dó nem piedade dos que sofrem na pele, na carne, no osso e no espírito. Isto pode trazer outra guerra. Está mais do que provado que a má distribuição da riqueza é um factor propiciador de conflitos militares, mesmo de baixa intensidade (guerrilha como a de Cabinda).

5)      Paz política e militar. É sabido que temos um exército da República de Angola fruto da fusão das forças da FLEC, da UNITA e do MPLA. O fim das hostilidades trouxe a paz militar nas 17 províncias uma vez que a guerra em Cabinda continua conforme os medias noticiam. No plano militar, temos uma paz parcial. No ângulo político, as coisas não vão bem porque existem muitas incongruências que não correspondem com a democracia, congruências que não dão estabilidade a esta paz militar parcial. As incongruências são: ameaças aos adversários políticos, aos intelectuais e membros da sociedade civil, fraude eleitoral (em relação a isto, estou a escrever um livro), justiça parcial, uso indevido e desigual dos bens públicos, medias estatais amarrados ao aprtido-estado e outras sem conta de irregularidades. Ao celebramos o dia da paz associamo-la a reconciliação. Concordo. É curioso e triste que os medias estatais e os seus colaboradores, quando alguém critica com veemência e radicalidade necessária aqueles que destroem o país, reagem dizendo que está a perigar a paz e a reconciliação nacional. Afinal quem periga a paz, aqueles que matam, que encomendam sentenças, desviam os dinheiros do petróleo, dos diamantes e da China deixando milhões a fome, sem abrigo ou aquele que denuncia? Para o grupo dominante a reconciliação é concordar com eles – concordismo absoluto ou agir fazendo terrorismo intelectual – como diria Fernando Macedo. Mas nós sabemos que esta é uma estratégia maquiavélica que visa manter o sistema de coisas até a escatologia.

6)      A paz espiritual. Esta dimensão é evocada sobretudo em atmosferas religiosas, ao entenderem que a verdadeira paz é dom de Deus e o homem só pode ter e estar em paz se ter boa relação com o Sumo Bem, o incausado. Esta posição foi defendida publicamente por João Paulo II numa mensagem dedicada ao dia mundial da paz intitulada "Paz com Deus, paz com toda a criação". Eu também partilho esta posição associada as outras..
 
A verdadeira paz é fruto da justiça e do amor – amor e justiça – que se traduzem na combinação das dimensões supracitadas, caso contrário, não há paz. Possivelmente algumas pessoas vão contestar esta posição e por isso tenho a recomenda-los o seguinte: tenham a humildade de estudar, porque esta não é uma análise dos analistas do partido, mas sim, ciência de facto!

Se a paz hoje é entendida assim como apresentamos, se pode dizer que Angola está em paz? Ou tem simplesmente a ausência do troar das armas? Temos plena consciência de que a paz total é utopia, mas também sabemos que a estabilidade social, ecológica, politica, militar, espiritual e psicológica é possível se os angolanos estiverem interessados (todos com realce para os pseudogovernates), caso contrário não passaremos muitos anos para que no país dos paradoxos haja lume!
 
Fonte: Club-k.net



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