Luanda  - Em jeito de elucidação de conceitos científicos para o melhor entendimento e enquadramento deste tema, urge a necessidade, antes de mais, de proceder à definição terminológica da sociologia e da política. Em função disso, a sociologia é uma ciência que se dedica ao estudo dos fenómenos sociais, com base em dados diversos, de origem estatística, linguística, histórica, demográfica, etnológica, sociográfica, etc. 
 
Fonte: Club-k.net
 
Por outro lado, a política, no sentido lato, é um conjunto dos princípios e dos objectivos que servem de guia a tomadas de decisões apropriadas e que fornecem a base da planificação de actividades em determinado domínio. No sentido restrito e específico, a política é a Ciência ou Arte de governar, de disputar e de conquistar o poder público, de modo a exercê-lo com legitimidade e com credibilidade. 
 
 
No fundo, a política é uma ciência que se encarrega da antropologia cultural, isto é, do estudo do homem nos seus diversos aspectos, fazendo uso de dados e conceitos próprios de outras ciências, como a etnologia, a história, a sociologia, a psicologia, etc. Visando, como finalidade, a boa governação, capaz de conferir a liberdade, a cidadania, a dignidade humana e o bem-estar social do povo.
 
 
Feita uma leitura concisa, nota-se que, das duas ciências, a etnologia ressalta-se como sendo o elemento fundamental da sociologia e da política. Para o melhor entendimento, a etnologia é o estudo dos povos integrados no contexto dos seus agrupamentos naturalmente constituídos: a linguística, a antropologia, o folclore, etc. Como adenda, a etnografia é o estudo descritivo das instituições e dos factos da civilização dos diversos povos ou etnias. 
 
A Etnia, que surge como epicentro da sociologia e da politica, é um conjunto de indivíduos que, podendo pertencer a raças e a nações diferentes, estão unidos por uma cultura e, particularmente, por uma língua comuns. 
 
 
A Cultura, por sua vez, é o sistema complexo de códigos e padrões partilhados por uma sociedade ou um grupo social e que se manifesta nas normas, crenças, valores, criações e instituições que fazem parte da vida individual e colectiva desta sociedade ou grupo. Ou seja, a Cultura é um conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituem a herança de uma comunidade ou grupo de comunidades.
 
 
Esta excursão no mundo da ciência política e sociológica permite-nos abordar com propriedade o tema que nos é proposto por um internauta assíduo, um leitor do meu último artigo, intitulado; “A Lógica da Diversidade Politica.” Pela dimensão e pela profundidade do seu comentário, achei interessante aprofundar esta matéria, como forma de esclarecer algumas dúvidas e alguns conceitos distorcidos deliberadamente. 
 
 
Por ética e ontologia profissional escuso-me mencionar o nome do autor deste texto, que segue em baixo, que nos serve de matéria de abordagem. Alias, nas redes sociais, por motivo de segurança, os cibernautas evitam usarem os seus nomes reais. O que torna ridículo e absurdo mencionar um nome que não representa a identidade real da pessoa em causa. Logo, passo a apresentar o texto, que segue:
 
“A sociologia política de angola diz-nos que existem determinadas regiões deste país onde as elites quase que com mesma origem genética disputam protagonismos na suposta defesa de interesses dos povos com os quais se identificam. Por isso, nessas regiões surgem de tempo a tempo novos partidos políticos que aproveitando-se do cenário um tanto ou quanto difuso do contexto de disputa politica no país, fazem valer os seus argumentos de razão. Entretanto, tudo que tem acontecido no país desde 1992 do ponto de vista político faz parte das escolhas racionais dos actuais detentores do poder de estado.” 
 
“Portanto o que acontece nesse momento é que depois do MPLA ter optado pela eliminação física dos seus potenciais opositores, a luta que trava nesse momento consiste em evitar a todo preço que surja e se consolide no país uma força política capaz de se constituir em ameaça real ao poder que detém. Por isso sempre que o MPLA achar conveniência para se acabar com os partidos ditos tradicionais, aqueles que podiam se constituir em alternativa real ao seu regime, novos partidos vão surgir com todas roupagens possíveis. Olhemos para história da FNLA, do PDPNA e agora do PRS. O resto é retórica para se adormecer a nação angolana numa verdadeira alienação politica.” Fim do texto.
 
As teses que constam neste texto têm razão de ser, tendo em consideração o sistema político reinante no país, que busca, a todo custo, eternizar-se no poder, desvirtuando a realidade da sociedade angolana. O sistema político prevalecente no país é de «partido-estado», assente no «poder unipessoal», centralizado e concentrado numa só pessoa, que é omnipotente, omnipresente e omnisciente. Este poder unipessoal concentrou todo poder económico num círculo restrito da nobreza, que funciona nos moldes de uma oligarquia.
 
A oligarquia é o sistema político, ou seja, um governo em que o poder está concentrado nas mãos de pequeno número de indivíduos ou de poucas famílias. Enfim, a oligarquia do regime angolano, é uma nobreza constituída por patrícios, que por via da corrupção e enriquecimento ilícito, tornaram-se magnatas, ricaços, de uma grande burguesia – altamente corrupta e opressiva. Interessa notar que, o poder deste «monarca absoluto» não só tem predominância sobre os partidos da oposição. Mas, na verdade, difunde o tráfico de influência e o aliciamento de muitos sectores da sociedade angolana, bem como no seio do próprio MPLA, que ficou domesticado e instrumentalizado.
 
Em retrospectiva, constata-se que, de facto, houve um grande recuo no que dizem respeito as liberdades e os direitos fundamentais; se comparar com a época colonial, do sistema fascista, do Dr. António de Oliveira Salazar. O contexto actual do nosso país é, sem dúvida, «neocolonial», da pior espécie. O que torna incorrecto afirmar que, o aliciamento, a domesticação e o tráfico de influência estejam limitados a algumas regiões do país, através das suas elites, «genéticas», étnico-culturais.
 
Como ficou exposto acima, a Etnia é um conjunto de indivíduos que, podendo pertencer a raças e a nações diferentes, estão unidos por uma cultura e, particularmente, por uma língua comuns. Nesta lógica, há o exemplo concreto da Ucrânia do Leste, habitada por uma Etnia Russa. Por esta afinidade étnico-cultural, invocada como fundamento, fizera com que a Rússia anexasse a Cremea e invadisse militarmente o Leste da Ucrânia. Neste respeito, o Presidente Vladimir Putin, da Rússia, saíra a terreiro afirmando que, a Rússia tinha a obrigação de proteger o seu povo (etnia russa) na Ucrânia do Leste. 
 
Portanto, as Etnias têm «interesses reais», com legitimidade de defendê-los, a todo custo, se estiverem ameaçados. Pois, têm a língua, cultura, laços de sangue, história, bens comuns e território. Por isso, é descabido a máxima segundo a qual: “Um Só Povo, Uma Só Nação.” Pode-se dizer que, no sentido abstracto, Angola é um Povo e uma Nação. Porém, à luz da antropologia cultural, Angola é um grande mosaico de etnias, de nações, de raças e de línguas, com origens e histórias diferentes e específicas. 
 
Vejamos! O Reino do Dongo e da Matamba era um Vassalo do Reino do Congo. O Reino do Congo, na sua dimensão territorial e étnico-cultural, expandia-se aos dois Congos e ao Gabão. O Império Lunda-Chókue abrangia uma parte de Angola (de hoje), uma parte do Congo Democrático e o Norte da Zâmbia (Cazembe). Ao passo que, o Reino Cuanhama abrangia uma parte de Angola (Cunene) e o Norte da Namíbia (Ovambolândia). Esses povos, das nações acima referidas, embora hoje estejam divididos em vários Estados, mas mantem o seu vinculo étnico, linguístico, cultural e, continuam unidos e solidários – em pleno ambiente de parentesco.
 
No ano passado, de 2015, quando estive em Cabinda, um destacado governante, natural de Cabinda, disse-me: “Cá, em Cabinda, não encontra nenhuma família que não tenha parentes nos dois Congos. Se encontrar alguém sem parentes lá, este não é filho nativo de cabinda.” Fim de citação.
 
Para dizer que, em Angola, pós-independência, criou-se preconceitos de alienação étnico-cultural, assente no internacionalismo proletário, como forma de vincar o sistema do partido único. O internacionalismo proletário incutia nas pessoas a solidariedade internacional proletária como sendo o valor supremo, que deve prevalecer sobre tudo, que dizem respeito aos povos de Angola. 
 
Isso estava enquadrado no Conceito do Partido Único, sob inspiração étnico-cultural quimbundo. A Etnia Quimbundo (Dongo) tivera sido adoptada para servir de instrumento oculto de subjugação de outras Etnias, incluindo os próprios quimbundos. Sem qualquer preconceito, o MPLA não foi fundado por personalidades da Etnia Quimbundo e nem é dominado pelos Quimbundos. É largamente sabido que, este partido histórico, foi fundado por Dr. Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, etc., que representam a comunidade minoritária mestiça e branca. A personalidade Quimbundo, neste respeito, foi apenas adoptada para servir de elemento de inspiração étnico-cultural. 
 
Na realidade havia desentendimento entre Dr. Viriato da Cruz e os outros dirigentes mestiços e brancos. Ele defendia a tese de que, os mestiços e brancos não deviam constituir-se na vanguarda da luta de independência, por ser uma minoria ínfima, filhos de colonos, com facilidade de suscitar incertezas na comunidade negra oprimida, que é uma maioria esmagadora. Esta visão do Viriato da Cruz tivera sido contestada fortemente por outros dirigentes, acima referidos, com a consequência de afastá-lo, desterrado definitivamente na China, onde faleceu em desgraça. A retirada do Viriato da Cruz do MPLA, em Brazzaville, provocara a dissidência de muitos Quadros Negros, muitos dos quais vinham ingressar-se na UNITA ou na FNLA. 
 
Este Conceito, da «supremacia das minorias», esteve na origem dos massacres de 27 de Maio de 1977, que criou desequilíbrios enormes no seio do MPLA, que permanecem até aos dias de hoje. Em função disso, a boa parte do poder económico em Angola está sob controlo da comunidade minoritária. A exemplo da Dona Isabel dos Santos, que é a mulher mais rica da Africa, fazendo parte dos poucos Magnatas multibilionários do Mundo.
 
No que diz respeito aos outros dois Movimentos de Libertação Nacional, FNLA, por exemplo, embora tivesse Quadros de outras regiões de Angola, mas sua inspiração étnico-cultural é Kikongo. A UNITA, por sua vez, fundada no Leste de Angola, com Quadros de outras regiões, mas sua inspiração étnico-cultural é Umbundo. Este é o elemento sociológico que caracteriza o «Nacionalismo Angolano», que deve ser tido em consideração.
 
Esta conjuntura, bem descrita a cima, representa o rosto verdadeiro da sociologia política da sociedade angolana. Portanto, a alienação política consiste na tentativa de confundir as pessoas de que, os povos (Etnias) não possuem interesses concretos e legítimos, para salvaguardar e defender. Do mesmo modo, é menos realista afirmar que, todas formações políticas do país, como CASA-CE, «são escolhas racionais dos actuais detentores do poder de Estado». 
 
Esses argumentos fazem parte da estratégia do poder unipessoal que visa essencialmente distrair os eleitores angolanos, denegrindo as forças emergentes, com capacidades enormes de inovação e de realização para alterar o actual status quo. Pois, nunca subestimei as capacidades e nunca questionei a legitimidade dos partidos tradicionais. Porque, eu próprio sou nacionalista que combateu o colonialismo português, com arma na mão, nas estruturas da UNITA, como Quadro dirigente, político-militar. Somente, não partilho a ideia de que, «apenas os partidos tradicionais constituem alternativas reais ao regime».  
 
Se vermos bem, a maior parte desses partidos tradicionais (FNLA, MPLA e UNITA) estão sob influência enorme do poder unipessoal. No meu artigo recente: «A Lógica da Diversidade Politica», abordei a questão da UNITA-RENOVADA, que praticamente anulou a UNITA tradicional, fundada em Muangai, por Dr. Jonas Malheiro Savimbi. A FNLA é aquela que toda gente conhece, que se encontra em ruina, absolutamente dividida e domesticada. Logo, não tem substância ou lógica nenhuma a tese de que, os partidos tradicionais são as únicas alternativas reais ao regime. Além disso, o maior número dos partidos dissidentes no país é proveniente do MPLA e da FNLA – do que da UNITA. Convém dizer que, para não deixar incertezas, eu sou da Etnia Mbunda (vulgo Nganguela), do Reino de Muene Mbandu ya Vukolo.
 
Em síntese, a democracia plural tem esta dinâmica do surgimento de novos actores políticos, com maior ou menor protagonismo, dependente da qualidade do líder, do realismo politico, do projecto da sociedade, da visão politica, e da capacidade de inovação, de organização, de estruturação e de execução dos programas e das estratégias traçadas. Por isso, a política é a Arte de saber escolher bem os melhores momentos (cruciais) para desafiar os seus adversários, com ideias claras e realistas sobre os grandes desafios do país – em cada fase de viragem. Isso não é roupagens nenhumas, como se pretende distrair a opinião pública nacional e internacional, com fim de eternizar o poder unipessoal. Pois, os anais da Humanidade nos revelam que, os grandes Homens da História sempre emergiram nos momentos mais difíceis e mais conturbados. 
 
Nesta senda, da crise que se desenrola no país, o Discurso a Nação de ontem, dia 17 de Outubro de 2016, do Presidente José Eduardo dos Santos, revela que ele está bem cansado, esgotado na sua visão estratégica, sem soluções concretas e viáveis para Angola. Acima disso, ele perdeu fé e confiança em toda gente, até desconfia a sua própria sombra. Para entrar no Edifício do Parlamento, na sua própria casa de trabalho, os Deputados passaram em pente fino, humilhados, abandalhados, revistados, até tirar-lhes lenços de bolso. Para ver até que ponto que o soberano angolano se encontram no estado de desespero e de frustração,    
 
Luanda, 18 de Outubro de 2016
   

 



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