ImageLuanda - Raramente passa na cabeça de cada um de nós, os angolanos, que o neocolonialismo de que o nosso primeiro presidente Dr. António Agostinho Neto nos preveniu para combater, sobrevive aos dias de hoje no nosso estilo de vida de forma pacífica, em tom claro de aceitação material daquilo que rejeitamos com frases eloquentes como não ao lusotropicalismo ou não a ocidentalização da cultura angolana. A prova está não só nos nossos nomes, geralmente aportuguesados, como no que comemos e bebemos. Está claro entre nós, os angolanos, que comer e beber a moda europeia, sobretudo portuguesa, é sinal de status social. Nos anos 80 eram raras as pessoas que assumiam publicamente que comiam funji de bombó ou pirão, significava pobreza ou miséria. Quando um menino fosse chamar um adulto para fazer a refeição com a célebre chamada “ Mano, tão a ti chamá pra come funji co conduto e peixi!” era motivo de chacota entre amigos. Diante de uma menina que se quisesse “paquerar” o prato preferido era arroz com frango frito quando em casa era quase sempre lombi com pirão ou kizaca com funji. Quem não presenciou estes cenários nas zonas urbanas?

Essa tendência de negação da nossa cultura resiste ainda hoje ao ponto da culinária angolana ser útil apenas aos fins-de-semana, mesmo entre pessoas que se afirmam pela identidade e cultura nacional. É claro que evoluímos muito, visto que hoje muitas “figuras públicas” angolanas já respondem em entrevistas que têm como prato preferido funji de moamba ou calulú, embora degustem tais manjares muito raramente. No meio disto existem indivíduos, poucos é claro, que têm como ementa fundamental pratos assentes na culinária angolana, já pelo hábito desde a infância (para aqueles que nasceram em zonas rurais), já pela consciência clara de afirmação cultural. A culinária africana, geralmente concentrada e rica em proteínas, gorduras e outros elementos naturais é diferente da culinária europeia, geralmente leve e pouco rica em nutrientes naturais. Esta diferença assenta na realidade geoeconómica dos dois continentes. Os africanos, ricos em recursos naturais, têm tendência a uma alimentação mais fausta e fundamentalmente natural, enquanto que os europeus dados a poupanças pela escassez de alimentos naturais são propensos a pratos “magros” recheados de alimentos maioritariamente artificiais. Isto é sensível na apresentação dos pratos durante uma refeição. Enquanto o africano tem um único prato para o almoço ou jantar, o europeu tem a sopa como entrada, o prato principal e a sobremesa. Esta atitude que os europeus têm de comer faseadamente resulta da necessidade de buscarem a satisfação pelo consumo de líquidos suficientes que compensem a falta de alimentos sólidos. Tal é função da sopa como entrada. Para os angolanos, ao contrário, a fartura de alimentos característico das zonas tropicais, dispensa tais artimanhas para “enganar” o estômago.

A maioria dos pratos europeus, que fazem a vaidade dos angolanos quando entram em restaurantes ou hotéis refinados, tem origem em situações de desgraça social. Por exemplo a sopa é um prato que vem da segunda guerra mundial. A situação generalizada de fome e desnutrição vivida pelos europeus durante a guerra levou a que alimentos em quantidades reduzidas fossem repartidos para milhares de indivíduos, o que era possível apenas pela confecção de um prato com poucos alimentos sólidos e muitos líquidos. Assim nasceu a sopa! Um prato que foi muito usado nos campos de concentração nazis. Certos pratos como a açorda, muito caro nos restaurantes instalados em Angola, surge do aproveitamento do pão em estado de relativa putrefacção. Demolhados os pedaços de pão, já inadequados para o consumo humano, em água por tempo significativo transforma-se numa massa que é depois misturada com natas, bacalhau ou camarão conforme paladares a adicionar. Exemplos claro de que a miséria dos europeus se tem transformado em luxo dos angolanos. Pratos de composição humilde com preços exorbitantes, graças ao espírito neocolonialista assumido por nós. Situações caricatas como estas se verificam sobretudo no domínio das bebidas. Mesmo quando se tratem de bebidas europeias, a escolha de bebidas portuguesas eleva os angolanos ao nível mais apurado da insensatez esbarrando com a estupidez. Senão reparem. Os vinhos portugueses para além de serem dos piores da Europa e quiçá do mundo são consumidos largamente entre os angolanos como autênticos néctares de deuses sendo Angola um dos poucos países no mundo que inexplicavelmente consome vinhos portugueses em grandes quantidades. Para além de piores, muitos destes vinhos têm sido importados com rótulos falsificados graças a estranha preferência que os angolanos hoje manifestam em vinhos a partir de 13% de álcool pouco razoáveis de aparecerem em garrafas. Quando é certo que vinhos a partir desta graduação servem para contentar bêbados de carreira que, longe de apreciarem uma boa bebida, estariam muito bem enquadrados se consumissem apenas vinhos em pacotes, vocacionalmente amargos e alcoólicos. O vinho que se consuma com prazer deve ser suave, com o paladar adocicado e aromatizado da uva, e sobretudo com taxas de álcool não superior a 12%. Ironicamente, esta espécie de vinhos de qualidade aceitável é a menos importada para além de custar mais baratos no mercado angolano em relação aos vinhos com elevadas taxas de álcool importados de Portugal. Falar da cerveja importada de Portugal é outra das inexplicáveis situações que os angolanos vivem. Argumenta-se que a cerveja Super Bock é das melhores do mundo pelas medalhas que tem ganho em eventos internacionais, mas a sua qualidade não retira qualquer estatuto da Eka. Quem entende de cervejas reconhece que a Cristal e a Cuca podem ser bebidas uma atrás da outra sem grandes diferenças para o paladar. A mais premiada cerveja nacional: Ngola, de tão desprezada nem chega a ser consumida em Luanda. A maioria dos angolanos urbanizados pensa que beber uma Heineken ou Carlsberg é socialmente mais aceitável do que beber uma boa Ngola ou uma Cuca geladinha e a “estalar”. Outra atitude esdrúxula está no facto de preferirmos comprar a carne congelada importada e vendida nos armazéns ou supermercados, com todos os riscos que trazem as gripes – aviária e agora, suína – dioxinas e outros elementos nocivos a saúde humana, do que ir ao matadouro ou encomendar carne produzida em Angola, natural e mais barata. Que dizer de legumes e outros produtos do campo? Donde vem este incompreensível impulso?

Será útil notar que, em Angola a culinária nacional não é assumida nos cardápios de restaurantes e hotéis, senão nos fins-de-semana. Para piorar a situação a maioria dos restaurantes não serve bebida nacional. Mesmo cervejas muito consumidas entre os angolanos como a Cuca, Nocal, Eka ou a Ngola. O que é que os serviços de inspecção hoteleira têm estado a fazer diante deste facto? Note-se que nos anos 80 a discoteca ou Boite que não pusesse a tocar música nacional por certo lapso de tempo tinha a gerência multada (hoje já não é necessário porque a música nacional é a mais consumida). Porque não com os restaurantes que não servem pratos nacionais ao longo da semana? A mabanga ou quiteta com jindungu é servida em locais pouco adequados para acomodar comensais enquanto que o bacalhau a Gomes de Sá ou o Cozido à Portuguesa é comido em locais sumptuosos por aqueles que sentem entre as elites angolanas. A nossa realidade é, nesse sentido, tão estranha que até os estrangeiros turistas não compreendem. Muitos turistas exigem a culinária angolana e a bebida de fabrico nacional quando estão em Angola, infelizmente encontram poucos locais em zonas urbanas em que possam satisfazer tais curiosidades. Comer bacalhau no natal, época de festa e reunião de família, é prova acabada da nossa alienação cultural. Quando é certo que o bacalhau em nada ganha a nossa lambula, carapau grosso ou atum. Porque não “institucionalizar” o bagre para a grande festa da família angolana? Até quando o desprezo da nossa própria realidade cultural? Porque é que o Ministério da Cultura não insere o prémio em Culinária angolana no Prémio Nacional de Artes e Cultura? Não estimularia a divulgação e a adesão dos angolanos e estrangeiros aos pratos nacionais, permitindo que muitos dos produtos utilizados na sua confecção, como fuba, bombo, gergelim, larvas e outros fossem exportados aumentando a renda nacional? Mesmo o nosso Kaporroto, aguardente de fabrico “dito” caseiro – desprezado pelas autoridades económicas angolanas – seria uma das marcas de bebidas angolanas genuínas, a semelhança da Cachaça brasileira, se o orgulho de ser angolano nos levasse a industrializa-la. Exportada para o mercado mundial em nada perderia para a Vodka russa, aguardente portuguesa ou o brandy inglês. Largas receitas viriam das vendas de milhões de garrafas devidamente rotuladas e seladas em caixas bem desenhadas. Pelos rótulos, até podíamos homenagear as bebidas com nomes de entidades históricas como Ngola Kilwanji, Mandume, Ekuikui, Nzinga Nkuvu, etc. Imaginemos uma feira internacional de bebidas em que tais entidades fossem conhecidas através de um produto genuinamente angolano? Desta forma falemos de outras bebidas tidas como tradicionais como Kimbombo, Kissângua, Maruvu, etc. Onde está o orgulho de ser angolano?

Embora tudo explique que, para os arautos do ocidentalismo, o que é nacional ainda continua a significar pobreza e miséria e o que é bom é o ocidental, é de apurar que, a culinária é uma forma de afirmação de identidade nacional, basta viajarmos a um país estrangeiro para sentirmos está realidade. A comida é elemento de unidade de um povo. Através do que comemos identificamos aqueles que são próximos a nós, mesmo quando se tratem de pessoas de outras regiões e realidades sociais. Quem não terá vivido experiência igual durante uma viagem? Mesmo em Angola o facto de algumas regiões não servirem comidas típicas de outras regiões limita o intercâmbio cultural e desistimula o turismo nacional. Há pessoas devidamente instaladas na região norte que não viajam por tempo considerável para a região sul pelo simples factos de não existirem determinados alimentos característicos da região de origem e vice-versa. Por esse exemplo vale sustentar que até a unidade nacional dos angolanos passa pela afirmação da culinária nacional nas diversas regiões de Angola.

Fonte: www.jukulomesso.blogspot.com



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