ImageLuanda - Os relatos provenientes do bairro Zango, a norte de Luanda; comprovam a mania bizarra do Governo de tentar resolver um problema, criando um outro ainda maior. na sexta-feira da semana passada, populares residentes na zona do Benfica, na Ilha de Luanda, envolveram-se em zaragatas com a Polícia.

Montaram barricadas na estrada com o propósito de evitar a mesma sorte dos seus vizinhos retirados da Ilha, a pretexto das calemas, e largados à sua sorte num descampado no bairro Zango. Onde lhes foi prometido residências, não existem sequer tendas suficientes. Dezenas de famílias vivem, agora, há uma semana ao relento, com os seus haveres e, em muitos casos, com os seus filhos recém-nascidos.

O Governo remete-se a um silêncio. Não se aplica, aqui, o princípio de quem cala consente. A falta de declarações das autoridades, a respeito dessa transferência forçada de populares, equivale mais a uma chocante certeza de que retirar os populares forçadamente e lançá-los para o descampado foi a melhor solução possível. Temos ouvido, inclusive, relatos que defendem a acção das autoridades com a justificação de que esta população, a desterrada, estava antes a viver numa zona de risco.

A verdade é que a população do Benfica da Ilha de Luanda nunca viveu perante um risco tão grande como esse que enfrenta agora desde a sua transferência para o Zango. Na Ilha, onde estavam, as calemas invadiam algumas das residências. Mas sempre é melhor andar em casa com os pés molhados a ter de viver, com crianças de tenra idade, ao ar livre, expostas ao sol e à chuva, não obstante a distância que agora separa essas famílias do centro da civilização luandense.

Forçar a que crianças abandonem a escola, que chefes de família percam os seus empregos e, por conseguinte, a capacidade de sustentar os seus não é, de forma alguma, salvar vidas. É acelerar a morte das pessoas. Mesmo assim, lá seguem as autoridades, indiferentes aos gritos de dor e aos protestos de quem sabe que vai perder, numa questão de horas, tudo aquilo por que se trabalhou por uma vida inteira.

Os relatos são cada vez mais assustadores. Reporta-se, por exemplo, o caso de uma família que se viu forçada a transportar um óbito da Ilha para o Zango. O caixão, com o cadáver incluído, e os entes queridos foram transportados na carroçaria de um camião basculante. Os gritos de dor ouviram-se bem alto. Mas a Polícia lá estava, aliás, ali está permanentemente, pronta para reprimir qualquer manifestação e sempre disposta a sufocar as acções de quem pretenda, apenas, reivindicar os seus direitos.

Aos poucos, a população vai percebendo no que se transmutou o seu MPLA, cuja governação do país foi confiada a essa sigla partidária. O MPLA do período eleitoral não é o mesmo que esse. Aquele prometia construir, esse destrói; aquele prometia proteger, esse larga as pessoas à sua sorte. É, no fundo, um verdadeiro lobo que, durante um período, vestiu a pele de Governo.

Uma vez revelada a sua verdadeira faceta, lá segue esse lobo com o seu apetite voraz, motivado, se calhar, por um tal projecto de requalificação da Ilha de Luanda suficientemente forte para cegar quem esteja no poder e fazê-los esquecer do verdadeiro significado da palavra governar. Afinal, aquilo que se vive no corredor Benfica, Ilha, de Luanda, e Zango, em Viana, é tão simplesmente um desgoverno.

*Tandala Francisco, Director do jornal A Capital
Fonte: A Capital



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