Luanda - Na próxima semana teremos o dia da liberdade de imprensa, em Angola temos cerca de 12 títulos, algumas rádios privadas, um canal de televisão privado, todos com matérias diversas e manchetes, em alguns casos, muito imaginativas, tipo “Amiga da Onça” … ainda se pode falar em falta de liberdade de expressão em Angola?

"a crítica, seja ela boa ou má, construtiva ou não, é vista como uma coisa a não incluir"


O problema da liberdade de expressão não se liga apenas à liberdade do jornalista inventar títulos e fazer o que lhe apetecer. Tem a ver com a diversidade de títulos e de órgãos, é fundamental, porque leva a que os cidadãos tenham diversidade de escolha. Tem a ver também com a responsabilidade do jornalista, mas, sobretudo, tem a ver com o exercício do contraditório. E esse parece-nos ser o principal problema de que os órgãos enfermam. Os órgãos não têm o hábito do contraditório. Alguém se lembra de pôr um título desses que falamos há bocado, mas a pessoa que é lesada, que é atacada, não tem o direito de, naquele mesmo espaço, dizer o que pensa. O que chega ao leitor, ouvinte ou telespectador, não é uma visão de todas as partes. Isso é um problema, uma irresponsabilidade que ataca valores importantes. Este é um problema dos profissionais …

Não será, isso, resultante do facto de os profissionais esbarrarem sempre numa barreira de silêncio? As fontes nunca atendem …

 
Mas isso é normal em todo o lado, o jornalista não se pode acomodar ao facto de as fontes não atenderem. É obrigação ética do jornalista dizer que contactou A, B, C e D e que eles não quiseram falar, isso liberta o jornalista dessa responsabilidade para com o público, porque a liberdade tem exactamente a ver com isso. É, sobretudo, uma questão de responsabilidade, perante o leitor. O jornalista tem o dever de dizer ao leitor que “este senhor tem esta opinião, aquele senhor tem aquela opinião e você, leitor, forme a sua opinião”. Se a fonte não se abre, o jornalista tem a obrigação de dizer ao leitor: “eu só te apresento esta versão porque a outra parte não quer falar”. E desresponsabiliza-se imediatamente o jornalista. Um fenómeno da nossa liberdade de imprensa, neste momento, é a irresponsabilidade que existe no nosso mercado, aos vários níveis, na privada e na pública e é um mal que decorre das fragilidades jurídicas do nosso tempo.

 Isso significa que os limites da liberdade já não são impostos de fora, não são as pressões políticas, sociais e económicas …

Isso existe. Não tenhamos dúvidas de que isso existe. E aí temos de apontar o dedo sobretudo à imprensa pública, porque tem outra obrigação. Tem a responsabilidade de garantir mínimos de diversidade ideológica, cultural, em termos de sensibilidades políticas de olhar para um determinado assunto e isso não é garantido. Eu, por exemplo, sou um privilegiado porque a televisão e a rádio chamam-me, às vezes, para emitir opiniões, mas eu não tenho a menor dúvida de que, no dia em que eu disser qualquer coisa que alguém sinta que vai, eventualmente, deixar o chefe melindrado, não tenho a menor dúvida de que isso será cortado. Isso existe ainda entre nós.

Ao fazer os seus comentários guia-se com cuidados?

Claro que isso condiciona. O jornalista, mesmo que indirectamente, está condicionado. Eu procuro dizer tudo o que penso, mas também tenho a clara sensação que se eu não tiver esse cuidado na abordagem de certas matérias, se disser tudo o que realmente penso em relação a alguns assuntos, no dia seguinte não sou convidado para coisa alguma. O problema é que na nossa sociedade se impôs uma mentalidade do jornalismo dócil, ou seja, a ideia que os políticos têm (os políticos neste momento é que têm os jornais, é que têm a liderança política) é a de que um bom jornalista é o que aplaude. Ou seja, ainda não se chegou ao estágio, na nossa sociedade, em que se pensa que a crítica construtiva, a crítica responsável, contribui muito para o crescimento da própria sociedade. Ainda não chegamos a essa fase e, portanto, a crítica, seja ela boa ou má, construtiva ou não, é vista como uma coisa a não incluir. Isso acabou por afectar o nível e a qualidade dos nossos órgãos. As nomeações, as indicações para os lugares principais, tudo isso seguiu essa lógica, quanto mais simpático o jornalista for com o regime, mais possibilidades tem de chegar ao topo. E nem sempre essas pessoas eram necessariamente qualificadas para tais tarefas …
 Faltam-nos aqueles que se dedicam apenas à causa jornalística, portanto.

 Não tanto pela causa, eu sou mais defensor do jornalista que é rigoroso, no sentido de ouvir todas as partes, assegurando a diversidade de opiniões, no sentido de revelar ao país as faixas que não estão incluídas em determinadas abordagens. Por exemplo, fez-se agora a conferência sobre a habitação, fez-se também a da agricultura e a da indústria, há faixas da sociedade que não foram ouvidas … este é o trabalho do jornalista. É obrigação do jornalista ouvir essas faixas, o que pensam os pequenos industriais? Não aparece. Se não asseguramos isso, é a liberdade de expressão, é toda essa estrutura, todo o sistema que fica posto em causa. Do meu ponto de vista não é o jornalista ser a favor disto ou daquilo, é ter, dentro da sua responsabilidade, dentro daquilo que é o seu papel, a ideia de que ele é um divulgador se sensibilidades

Temos, portanto, por um lado a liberdade de expressão no plano do jornalista e, por outro lado, a liberdade de expressão das várias sensibilidades sociais por via do jornalista …

Exactamente. É a tal questão do direito de informar e do direito de ser informado que conjuga essas coisas todas. Ou seja, o jornalista, por um lado, tem o direito de informar, de prestar uma informação às pessoas e de prestar uma informação que atende às várias sensibilidades. Por outro lado, o cidadão tem o direito de reclamar do jornalista esta informação. Porque é que eu não oiço também outras opiniões? Eu penso que o nosso principal problema nem é discutir se temos mais ou menos liberdade, é atacar estes problemas. Como que nós podemos ter uma imprensa mais diversa? Do ponto de vista numérico de títulos temos essa diversidade, mas do ponto de vista de sensibilidade dos mesmos problemas, do contraditório, do ponto de vista da sensibilidade política. Será que nós conseguimos reflectir o suficiente o pensamento da nossa oposição? Será que nós conseguimos reflectir o suficiente o pensamento cultural diverso do nosso país, o pensamento racial diverso do nosso país? São coisas que não se sentem na nossa comunicação.

 É o problema de termos diversos títulos mas só em Luanda?

 É. E os títulos publicados em Luanda têm a lógica, uns do passado e outros, os novos títulos, penso que trazem outro tipo de problemas. Trazem problemas, por exemplo, ligados a uma proximidade política com o regime, e isso cria alguma dificuldade.

 Fala do regime poder ou do regime de estado, constituição, etc.?

 
Eu penso que é a mesma coisa. É preciso não ver o regime como algo ligado a ditaduras ou comunismo, não. Há regime em todo o lado. Há regime nos Estados Unidos, há regime em Portugal. Regime é a situação à volta do poder, não traz nenhuma conotação, mas se isso faz alguma confusão eu retiro o termo regime e troco por outra coisa. O poder democrático também é regime. Mas eu sinto alguma proximidade e essa proximidade não permite uma actuação mais solta. De qualquer modo tenho tido algumas surpresas, sobretudo em relação à TV Zimbo que tem surpreendido com a abordagem dos problemas. Pode ser que eu, no futuro, faça uma reavaliação diferente, mas eles têm sido muito ousados e, às vezes, surpreendem-me porque não estava nada à espera.

A questão da diversidade cultural de que falou, não estará ligada a alguma falta de iniciativa e de risco por parte do empresariado que prefere apostar nos sítios e nos temas que dão retorno?

 Não há dinheiro. Eu estou à frente de um projecto virado também para esta área, fora de Luanda, e não há dinheiro. Com as mudanças do mercado, o jornal está a fazer uma reavaliação neste momento, não há dinheiro. Por outro lado, a mentalidade do nosso empresariado é de aplicar o dinheiro e ir buscar no dia seguinte. No jornal ganha-se mais noutras coisas do que em dinheiro. Quando as pessoas aplicam o seu dinheiro num jornal não podem ficar à espera como quem vende camisas ou laranjas. Eu investi e no prazo X vou buscar o dinheiro, não funciona assim. Ganha-se noutras coisas, no prestígio, na capacidade de influenciar. O nosso empresariado não tem dinheiro para suportar esse tempo de espera nem estrutura para esperar o início de um jornal.

E essa estrutura é importante, na comunicação social, até para determinados grupos económicos criarem a tal capacidade de influenciar …

Sim. A lógica é essa. Eu que ando envolvido na criação de um jornal é para influenciar, é para ter um sítio onde eu posso escrever o que eu penso e influenciar. E a lógica de quem cria um jornal deveria ser essa, não tenhamos ilusões. O que está errado no nosso país é que o nível de envolvimento de projectos como O PAÍS, como o Novo Jornal , comparado com os outros, é um desnível muito grande.

 Mas os grupos económicos querem influenciar, vivem disso também …

 É evidente. O problema não é esses grupos que fizeram o investimento. O problema é o empresariado angolano que não tem dinheiro suficiente para ir atrás, para estabelecer uma concorrência como deve ser. Por outro lado, há no nosso jornalismo ainda a “lógica do meu quintal”. – Olha, eu tenho o meu quintal – mesmo que as pessoas amanhã sejam proprietárias de nada. Mas ele quer dizer: “Eu aqui sou o dono do jornal, portanto não faço ligações com ninguém”. O quadro actual deveria levar à aglutinação de uma vez. Fazer redacções fortes, direcções fortes, mas isso não acontece, é como os partidos políticos. Eu aqui tenho um partido que só tem duas pessoas, mas eu sou o presidente. A lógica dos nossos jornais é essa também, com todo o respeito pelos meus colegas. Portanto os jornais vão morrendo, ou cada um tem de ir buscar outras alternativas. Não há publicidade que chegue para tanta gente, não há qualidade equiparada a esses novos jornais e, portanto, o anunciante, até porque sou gerente de uma agência de publicidade, escolho onde o meu cliente vai pôr o anúncio. É evidente que até pode ser um pouco mais caro mas eu vou aconselhar lá onde a qualidade do seu anúncio tem mais impacto. Todo esse sistema vai levar a que os jornais existentes até agora tenham menos possibilidades de vida, é uma questão a prazo, pode ser daqui a cinco anos, três, mas vai acontecer se não houver uma atitude mais séria e mais organizada.


Mas já há respostas, sente-se qque já há jornais que abandonam a vertente mais noticiarista e apontam mais no jornalismo opinativo …

Porque é algo que a nossa sociedade não tem. A nossa sociedade não tem debate, não tem troca de opiniões, troca de argumentos. É o tal problema da crítica. Como o debate implica crítica, implica diversidade, não se vê em lado algum. Logo, há órgãos que apercebendo-se disso aumentaram a sua carga de opinião. E são consumidos. Porque deixam a vertente noticiarista mas trazem a resposta, em que várias pessoas opinam sobre um tema e a nossa sociedade não o tem em mais lado nenhum. Isso é bom porque a opinião que os novos órgãos trouxeram é uma opinião muito urbana, muito virada para um círculo de Luanda. Quando se vai buscar outras opiniões, de diferentes sensibilidades, ganham com isso, sem dúvidas.

 Os novos órgãos, negócio ou comunicação, como os vê?

Comunicação, por amor de Deus, não tenho dúvidas que é comunicação. E é uma comunicação nova. Em todo o lado é assim, os grandes jornais são propriedade de grandes grupos. Não vale a pena ver nisso um bicho de sete cabeças. É assim em todo o mundo e mais tarde ou mais cedo seria assim em Angola. A questão que se coloca hoje é que tem de existir uma liberdade económica e tem de existir uma autonomia do jornalista. E eu tenho dúvidas se nalguns casos isso esteja suficientemente separado. Não é só um problema dos novos órgãos, atenção. Na minha leitura é um problema de muitos órgãos, em que a autonomia editorial não está suficientemente clara. Basta ver os próprios órgãos públicos em que a autonomia editorial não está suficientemente consolidada. Nalguns órgãos privados também não está. Não são todos, estou a falar de órgãos onde o director chega e diz muda isso, põe aquilo e corta o texto do jornalista, e altera o texto do jornalista. Talvez nesses novos órgãos, até pelas pessoas que os dirigem, são jornalistas conceituados, essa interferência não se faça assim, de um modo tão óbvio, tão estúpido, mas há órgãos privados onde isso acontece, onde o dono chega, corta e faz o que quer, e há órgãos públicos onde o director chega às três da madrugada e muda tudo e corta tudo. Essa é uma realidade que temos e que afecta, por um lado a liberdade económica e, por outro lado, a autonomia editorial. Os jornais são projectos editoriais, mas também são projectos em que as pessoas que investem querem retorno, em termos de publicidade, influência e há até quem consiga em termos financeiros, com as vendas, com os anúncios, embora, de um modo geral o mercado esteja em declínio. A minha leitura é que são projectos editoriais. Se calhar existem outras implicações, mas faz parte da lei do mercado. O que aconteceu, por exemplo, com a circulação dos jornalistas, independentemente da questão dos estrangeiros ou não estrangeiros é bom. Quando os jornalistas saem de uns órgãos e vão ganhar mais noutros, para o mercado isso é bom. Agora quem quiser ser proprietário tem de saber se tem condições de pagar os jornais, se tem condições de pagar jornalistas. O jornalista hoje já não ganha duzentos dólares como era no meu tempo.

 Então os novos órgãos trouxeram também vantagem apesar do tal posicionamento urbano …

Em termos opinativos, foi o que eu disse …

O reflexo de uma realidade urbana, disse-o há pouco, significa o quê?

 Eu não sinto, no conjunto das opiniões que saem nos novos jornais, o substrato nacional. Sinto que há pessoas já muito conhecedoras da realidade de Luanda, mas sinto que está muito presa a um pequeno grupo de pessoas que conhecem a realidade de Luanda de um determinado modo. Eu gostava de ver mais, sobretudo no Jornal de Angola. Aliando estes três grandes, os novos jornais e o Jornal de Angola, gostava de ver mais gente das províncias, gente muito rica, do ponto de vista do conhecimento, a escrever. Infelizmente não temos isso. Uma pessoa que vive a realidade de Cabinda, por exemplo, escreve, necessariamente, com os exemplos dessa realidade, um indivíduo que seja kuanhama transmite, necessariamente, nos seus textos, essa realidade. Esse substrato nacional é que não sinto nas opiniões que são veiculadas, incluindo a minha, ficamos muito num circuito luandense.

Parece que encontramos um problema sem solução, Luanda é “quem compra”, questões de mercado …

 Não. É a obrigação que os jornalistas têm de se impor a si próprios de garantir a diversidade. Não nos podemos contentar em ter pessoas só de Luanda. Estamos a passar do país uma visão equivocada. Temos de ter a oportunidade de ver como é que um cidadão do Bié, lá de Kamakupa, pensa o país, é preciso dar-lhe essa oportunidade. E depois vamos ter surpresas porque quando temos o texto dessa pessoa vemos que afinal ele escreve como o Ismael Mateus. O pensar o país não é um exclusivo de quem está em Luanda.

Já esteve na direcção do sindicato dos jornalistas …

Desde o início …

O último comunicado do sindicato centrou-se na questão das contratações dos novos jornais. Isso não é uma questão de opção empresarial e editorial?

É um comunicado que me deixa muito satisfeito com o sindicato. Como estava a dizer, desde o início, fui presidente do conselho deontológico na primeira equipa do sindicato, depois estive fora, fui secretáriogeral, e estou sempre disponível para o sindicato. Acho que precisamos do sindicato. Talvez agora precisemos de um sindicato mais forte e tenho falado com quem lá está. Mas esse comunicado é um bom comunicado e aparece numa boa altura, talvez até um bocado atrasado mas apareceu, porque é um problema concreto e é um problema que não tem só a ver com os órgãos. Tem a ver, em primeiro lugar, com o facto desta desregra que é a nossa sociedade. As pessoas chegam a jornalistas apenas pelos seus olhos. Não há carteira profissional, não há nada como um estatuto do jornalista, não há regulamento da Lei de Imprensa, não há nada que obrigue uma pessoa a dar provas de que é jornalista. As pessoas chegam a jornalistas porque se autodenominam jornalistas. Chamam uma pessoa e diz na televisão “olha, eu sou jornalista” e a partir desse momento é jornalista. Esse é um problema sério da nossa vida. Não começa nos estrangeiros, começa nos angolanos. Essa desregra leva a que quem chega aqui, não tem de provar se realmente trabalhou, se é jornalista, não tem de provar se é competente e entra no mercado. O sindicato chama a atenção, muito claramente, sobre os jornalistas que estão que estão no desemprego, porque há jornalistas que estão no desemprego. E, como é possível que estejam a ser feitas contratações no estrangeiro sem que antes se dessem oportunidades aos angolanos de irem lá fazer provas se são capazes ou não. Eu gostava, tenho vinte e oito anos de profissão e gostava de chegar lá e entregar o meu curriculum e disputar um lugar de redactor ou coisa assim, estou a dar um exemplo. Não foi dada essa possibilidade aos angolanos, pelo menos de forma massificada, porque eu sei que há pessoas que foram avaliadas. É uma boa chamada de atenção mas, sobretudo, isso tem de ser visto como um problema nosso, a desregra que há no mercado, porque, de facto, não se cumpriu …

 


 Mas quem abre um jornal também quer qualidade, se essa qualidade a encontra em pessoas de fora tem ou não a liberdade de os contratar?

O problema não é a liberdade de contratar, o problema é que cada um deve fazer o seu papel. Tem de haver regras para contratar estrangeiros, a menos que alguém me diga que os angolanos não são, todos, competentes. Quem é que disse que algumas dessas pessoas são mais competentes que angolanos? Mostrem o portfólio dessas pessoas, onde é que eles escreveram, mostrem até, sobretudo portugueses e brasileiros, se estão reconhecidos nas suas próprias associações de jornalistas. Eu conheço dois casos que não está, lá, reconhecidos como jornalistas, não são, nunca foram jornalistas em Portugal e vêm aqui e são recebidos como jornalistas. Ou seja, essa coisa de andarem a dizer que os angolanos não prestam, que não têm boa qualidade, para já é uma brincadeira porque quando foi preciso ir buscar quem dirige os órgãos foram buscar quadros angolanos, que são conhecedores da realidade. Por outro lado, quem quer fazer um investimento, de facto, tem de investir na formação, se os angolanos não têm qualidade não é trazendo estrangeiros que agora vão passar a ter. É formando os angolanos para que isso tenha para que os projectos tenham qualidade e continuidade. Isso é uma pescadinha de rabo na boca, às vezes as pessoas resolvem culpar os angolanos de não terem qualidade, mas na realidade não há melhor conhecedor da realidade angolana que os jornalistas angolanos. Aliás, quando nós olhamos para o O PAÍS, quando olhamos para o Novo Jornal, o Expansão, quem escreve as grandes matérias não são os estrangeiros, são os angolanos. Não me venham dizer que não têm qualidade porque isso é brincadeira. Isso não tem nada a ver com a necessidade de formação, com a necessidade de termos regras. Pode vir um estrangeiro, não há problema nisso, mas tem de trazer a sua carteira profissional, mostrar que é profissional. Há uma mais-valia na profissão. Há casos, para não falar dos novos órgãos, de pessoas que foram contratadas há tempos para a imprensa pública, vieram como assessores disso e daquilo e que vieram aprender o b, a ba, na televisão, na Angop. Também tivemos casos de pessoas que foram muito bemvindas e que são queridas ainda hoje. O problema está nos critérios e na igualdade de oportunidades.

 

No entanto, sendo angolano e mesmo com estas falhas de Angola o Ismael trabalhou numa rádio em Portugal

Eu trabalhei numa rádio em Portugal como jornalista sim. Mas eu tive de me inscrever no sindicato dos jornalistas portugueses e quando chegou a hora de ser mais promovido que o que era, na altura era o chefe de redacção, foi-me dito, claramente, que eu era estrangeiro. Pode perguntar a algumas dessas pessoas que estão aqui, que trabalharam comigo. Na altura não foram necessários comentários, só aqui é que se acha estranho pedir. Sim, era quadro da RDP. Eu acho isso normal. Eu entrei, trabalhei com eles como estrangeiro mas inscrevi-me, fui fazer o concurso, fui contratado lá. Não me vieram buscar de Angola para ir lá com casa, com carro à porta, com essas coisas. Nem ganhava mais do que os portugueses do meu grupo. Fui lá, fiz provas, trabalhei, foi preciso conquistar os meus colegas e ser aceite entre eles, não fui contratado imediatamente como chefe de redacção. Acho isso normal, tal como acho normal que saindo o director do serviço as opções tenham sido outras e não um estrangeiro. E eu que nunca quis ser português continuei tranquilamente e não me queixei a ninguém. A questão é dar oportunidades iguais, angolanos e estrangeiros prestam provas, quem perder perdeu, se houver lisura, e acredito que se for dada essa oportunidade metade dos estrangeiros que aí está não tem lugar.

Voltamos à questão da formação dos jornalistas

 É um problema grave, é um problema da falta de controlo da formação. Ninguém sabe o que está a ser ensinado aos jornalistas. Ninguém sabe com que nível uma pessoa chega a jornalista. Eu fui muito atacado quando disse que o jornalista deveria ter uma formação superior. Fui vilipendiado, de todas as maneiras e feitios, mas continuo a achar isso. Não deveríamos fazer cursos de formação básica de jornalistas, isso tem de acabar. Temos de transformar as estruturas que fazem essa formação em estruturas de reciclagem de jornalistas, de formação contínua, é diferente. Alguém que faz uma faculdade tem uma estrutura que lhe dá um estágio, uma formação e está pronto para entrar numa redacção. Alguém que tenha feito medicina e queira escrever recebe um ou dois anos de formação. É diferente de fazer formação básica em que um indivíduo tem a sexta classe, faz a sua formação e no dia seguinte é tão jornalista como qualquer outro. O que é que devemos ensinar às pessoas? Não haveria determinadas cadeiras que deveriam ser obrigatórias? O ministério da Comunicação Social não deve ter um assento num espaço para avaliar a qualidade do que é feito para formação dos jornalistas? Não devemos partir do princípio de que formar jornalistas é como formar psicólogos, os jornalistas vão usar de meios públicos para veicular informação na sociedade. Estas pessoas devem ser bem preparadas. As questões de ética, a história do jornalismo angolano, a sociologia dos média, o nosso contexto português e o nosso contexto regional …

A nossa região e a África, as zonas culturais, económicas e sociais em que nos inserimos, estão nos jornais? Sente-se?

 Não. Absolutamente, não se sente nada, um ou outro jornal … não se sente e vai se sentir cada vez menos.

 Isso é mau para Angola?

É mau. Nós estamos muito influenciados por uma cultura lusoangolana, começamos a receber mais facilmente os problemas do PSD e do PS, em Portugal, que as eleições do Zuma aqui perto e que tem uma grande influência na nossa vida. Porque os grandes grupos económicos que estão a comprar os jornais são de feição luso-angolana, mas sobretudo porque as preocupações de quem escreve para estes jornais é luso-angolana. Temos muito pouco retorno da realidade aqui e deveríamos incentivar isso. Gostei de ver a TPA a fazer directos da África do Sul, mas gostava de sentir isso de modo mais equilibrado, os problemas do ANC, aliás, se nem em relação à realidade angolana imagina África, não sinto isso.

 Estamos mais portugueses nos jornais?

Sem dúvida, estamos mais portugueses e mais ligados ao mundo que no dia-a-dia. Veja culturalmente, estamos ligados ao que acontece em Luanda no Centro Cultural Português que o que acontece a um espectáculo no Moxico, nem sabemos que grupos existem lá. Isso não é um problema só dos jornais, é geral. Nas não há a preocupação de se falar nisso, no que se passa em Angola. Vai ver como daqui a pouco teremos notícias dos festivais superbock, do Rock in Rio Lisboa, dos espectáculos do Paulo Gonzo. Não é mau passar isso, o que é mau é passar só isso.

É a isto a que chamo de luso-angolanidade que se referia quando falou em diversidade “rácica”, isso baliza a comunicação?

 É isso mesmo, diversidade “rácica”, o país não pode ser só gente de uma cor ou de outra, é o problema dos modelos. Quando temos uma pessoa na televisão estamos a passar modelos, é uma preocupação que temos de ter. Ter de ter mesmo, não há dúvidas. Sinto que às vezes, no nosso país, nós temos de pedir licença para ser negro, “deixem-me ser negro durante quinze minutos”. Não pode haver esse problema …

Ser negro é o quê, cor da pele ou a postura, hábitos, costumes?

 Ser negro é a cor da pele, são os hábitos. Por isso mesmo a questão dos modelos de sociedade que lançamos não pode ser a Brigitte Bardot ou outros modelos, tem de haver uma ligação. Não vejo porque se tem de discutir isso. Não vejo que haja preocupação em Portugal que é uma sociedade declaradamente branca, nos noticiários, não vejo ninguém a discutir se deve ser um branco ou um negro, e não vejo nenhum problema nisso. Agora quando chega aqui, que temos de ser maioritariamente negro, nem digo exclusivamente negro, porque esses são os nossos modelos de referência cai o Carmo e a Trindade, qual é o problema?

 É mais difícil falar de raças em Angola?

É mais difícil, nós não estamos habituados ao debate, andamos com rótulos. Quando as pessoas lerem esse bocado do Ismael Mateus no dia seguinte já sou racista e xenófobo. Tem de haver tranquilidade nestas questões. Nós somos um país de maioria negra, não podemos andar a pedir licença para sermos um país de maioria negra. Os modelos de referência que passamos ao nosso país têm de ser de maioria negra. As nossas crianças têm de conviver com a sua cor, com o seu modo de estar, tranquilamente. Vejamos o sucesso da boneca Analtina, porquê? Porque os modelos de referência das nossas meninas deixaram de ser as loiras e passou a ser a Analtina boneca, as miúdas reconhecem-se, identificam- se com a boneca e dizem “Eu também sou bonita”. É isso que temos de discutir e deixar de pensar que podemos passar, tranquilamente, modelos de referência que não atendam a essa diversidade. O que eu digo é maioria, porque também não sou apologista de radicalismos. Somos uma diversidade e é preciso entender essa diversidade. Mas por favor, sendo uma clara maioria negra, não nos levem a pedir favor para podermos ser negros, isso não. Já reparou que nos serviços bem pagos , há discotecas onde, para um negro entrar, tem de pedir por favor?. Os serviços mais bem pagos a gente chega lá olha para aquilo, vê uma negra como se, ser negro, fosse sinal de incompetência.

Não me está a falar de uma situação de dominação rácica da sociedade?

 Não. Mas nalguns círculos da nossa sociedade há claramente uma opção pela cor não negra. Tal como alguns agentes privados também têm uma reacção estúpida e dizem “aqui não emprego nenhum branco”, não é por aí. O que quero dizer é que não pode haver problemas em querermos que na nossa sociedade nos sítios onde haja melhores salários, onde se projectam modelos de referência haja uma maioria negra. A discussão não é se uma modelo ou miss deveria ser negra ou não negra, isso é estúpido, o país é diverso e é normal que tenhamos modelos e misses de todas as cores, não há angolanos de primeira e de segunda. O problema é, se na hora de mostrar modelos, venham só loiras.

Está preocupado como publicitário?

 Não me estou a ver aqui na Litomídia uma publicidade feita só com loiras para o mercado angolano …

Mas encontramos na Europa anúncios com modelos negros

 Ai está a questão das minorias, se eu quiser vender um produto que é exclusivamente dedicado ao público não negro é claro que o faço, não há problema. O mal está em colocar produtos para consumo da maior parte da população com imagens de minorias. Imaginemos uma branca, loira, mas com modelos sociais e culturais angolanos, há?. É o problema, os modelos de referência. Há muitos angolanos não negros, ninguém põe isso em causa, para muitos seria até insultuoso. A questão que coloco é que tanto a publicidade como os meios de comunicação dirigem-se às maiorias, então temos de atender às necessidades e às expectativas das maiorias, é tão simples quanto isso, é um problema numérico, de maiorias e também de diversidade porque não nos podemos fixar só nas maiorias. Não me digam que as minorias é que representam as maiorias, isso não aceito. Acabou a guerra, agora temos de acabar com os complexos, há países que estabeleceram quotas . As mulheres conseguiram. Porque não discutimos essas coisas? Acho que o podemos fazer de forma serena, tranquila.

O que acha dos novos anúncios em que se associa a qualidade à origem externa do produto, os publicitários não fazem bem o seu serviço?

 Nós temos a nossa forma de falar, existem expressões angolanas, tudo isso está a ser sacrificado por meia dúzia de pessoas, ou porque não dão importância ou porque viveram fora. Acham que fala português quem fala como em Coimbra. No outro dia soube que determinada rádio tinha feito uma opção por determinado tipo de locutores ou por determinado tipo de pessoas porque os angolanos não sabem falar português. Imagina um angolano que faz gala do seu modo de falar e do seu modo de estar na vida ouvir uma coisa dessas. São coisas que me parecem insultuosas que não estão a ser devidamente acauteladas e que vão dar problemas, porque a permissividade que temos em algumas áreas como a lei da nacionalidade que permite que cidadãos que,há alguns anos atrás até se ecusavam a ser angolanos e agora chegam aqui, tiram o bilhete e no dia seguinte são angolanos, mas depois o modo de estar é português, o timbre da voz é português e estão em igualdade de circunstâncias com os angolanos que ficaram cá. Tudo isso vai criar um sentimento que se não for acautelado poderá ter maus resultados. Porque não me parece justo que as pessoas tenham andado aqui no batente e agora chega um indivíduo que nunca quis saber disso e diga “Olha, eu nasci no Kuangar” e tira o bilhete …

Mas também temos estrangeiros africanos, negros

 Claro, o problema não é só com os brancos, embora com esses se note mais. Mas se for ao Kuango verá os problemas que temos com os estrangeiros negros, é igual, o problema é a facilidade com que as pessoas chegam e se tornam angolanas e em condições vantajosas disputam os lugares com os angolanos. Alguns deles vêm como cooperantes e depois exibem o bilhete angolano e dizem que são tão angolanos como você e ainda disputam consigo o crédito no nosso banco quando ele já tem lá as suas condições. No caso dos negros é o problema das fronteiras e a facilidade com que se integram, é difícil separar um kuanhama do outro lado da fronteira. O problema é o angolano de ocasião, por mero interesse de mercado, um indivíduo que chega cá em condições vantajosas, disputa oportunidades e depois, ao sair já vai como português ou espanhol. O que há a fazer já não é rever é, pelo menos parar com isso.

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* José Kaliengue
Fonte: O Pais



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