Luanda - “Dá enorme gozo a fama de quem saiba correr, ao contrário de quem tenha levado uma surra”, diz, mais ou menos, um ditado quimbundo, que aprendi na infância, na pequena e pacífica aldeia do Posse, em Nambuangongo (Bengo).

Nós, os meninos da aldeia, não éramos nada pacíficos uns com os outros. Agredíamo-nos com frequência, em disputas entre as nossas gangues de faz-de-conta. Lembro-me que, diante de um adversário de quem reconhecêssemos não ter forças para derrubar, aplicávamos dois “bons socos” e corríamos à velocidade máxima.
– Verdadeiro homem é aquele que tem a fama de bom corredor e não aquele em quem todos podem bater – , dizíamos, aplicando o ditado às nossas próprias vidas.

No início dos anos 2000, a trabalhar como editor de Sociedade num semanário, assisti a uma ocorrência que me fez lembrar aquele ditado. Trata-se do seguinte: antes de uma mulher dos seus cinquenta anos entrar na redacção, um repórter da publicação abandonou o seu assento e correu para a cozinha, trancando-se de seguida.

A mulher dirigiu-se ao gabinete do director e queixou-se de não ter sido ouvida pelo jornalista, num artigo em que era acusada de má gestão e maus tratos de homens de terceira idade que viviam sob os seus cuidados.

Como os meus amigos de infância, o profissional aplicou o ditado, correndo para a cozinha, em lugar de justificar, diante da mulher e do director da publicação, a lacuna deixada por fechar no seu artigo. Entretanto, mais do que a censura dos pais pelas travessuras de meninos, profissionais como aquele repórter trazem enormes prejuízos a um periódico:
1) obrigam a publicação de um desmentido;
2) tiram crédito ao jornal e a eles próprios;
3) alimentam a desconfiança das fontes de informação quanto à prestação de declarações ao jornal;
4) obrigam a que o jornal prescinda de um espaço que é assim ocupado pela carta contendo o direito de resposta.
Como se vê, o preço é alto, para se deixar de prestar atenção ao maior factor de ansiedade e de instabilidade dentro de uma redacção: a falta de equilíbrio informativo. De ansiedade, porque o jornalista está constantemente sobressaltado sempre que ouve o telefone tocar ou vê um estranho dirigir-se à sala do director, depois de publicado o seu artigo na última edição do jornal; de instabilidade, pelo embaraço que causa, à Direcção do jornal ou a outro periódico cada direito de resposta solicitado pelos ofendidos.

Que soluções existem para que, afinal, se vença este factor negativo? Existem soluções externas ao jornal? O que podem e devem fazer as direcções das publicações? O que dizer dos próprios jornalistas?
Em relação aos profissionais, pensamos ter respondido com a enumeração das consequências que advêm de cada lacuna dos seus artigos. Quanto às direcções, estas devem tomar medidas disciplinares.

Pessoalmente, sou contra as medidas de força, pelo que apelo mais ao senso de justiça de cada um dos profissionais, neste momento no activo, tanto em órgãos públicos como em privados. É preciso, de forma muito breve, analisar, a propósito, o que queremos dizer com equilíbrio jornalístico e com a falta dele.

Comecemos pelo equilíbrio jornalístico. Entendemos equilíbrio jornalístico como a obrigação de ouvir quem acusa e o acusado; em cada assunto que tratamos, devemos ouvir o máximo número de pessoas envolvidas, e citá-las proporcionalmente ao longo do artigo. É, enfim, reconhecer o direito de cada um a ser ouvido. A falta de equilíbrio informativo define-se por exclusão: agimos parcialmente, em falta portanto, sempre que não ouvimos todas as pessoas envolvidas, quer tenhamos agido com a consciência de prejudicá-las, não lhes dando ouvido (geralmente por simpatia ao acusador), quer seja por mero esquecimento.

A mulher que causou a fuga do repórter da publicação da qual fui editor, não tinha sido ouvida, segundo suas palavras, posteriormente referidas pelo responsável da publicação.
– Ela disse-me que não foi ouvida nessa história e que o seu nome estava na lama – , disse o director da publicação. Melhor do que correr, será ouvir.

Fonte: JA



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