O académico Paulo de Carvalho, com uma frontalidade no mínimo espartana, disse o que nunca se ouviu sobre o ensino superior em Angola. 

A final, a que ritmo anda o país nestes tempos de profunda e intensa febre de doutorismos, quando a Universidade, aparentemente, deixou de ser o patamar último do percurso das elites do saber? Temos um ensino superior que nos encha de orgulho? Para o Professor Doutor Paulo de Carvalho, a resposta é directa: “não temos ensino superior digno desse nome”.

 O sociólogo critica, com dureza, a incompetência que campeia pelos corredores das universidades, de professores e estudantes; diz que de cada cem novos licenciados, em média apenas dez têm qualidade aceitável; e mostra-se indignado com as performances de decanos, chefes de departamentos e regentes de cursos que no ano de 2006, num congresso internacional sobre ciências sociais em Luanda, foram incapazes de apresentar uma comunicação que fosse. “Alguns foram até lá passear a sua banga, outros foram fazer relações públicas”. À leitura!

Cada vez são mais audíveis as queixas de que as nossas instituições de ensino superior lançam para o mercado de trabalho quadros com qualidade deficiente. Críticas corrosivas apenas ou alguma verdade nessa avaliação?

Penso que existe muito de verdade nessa afirmação. De facto, o ensino em Angola (da base ao topo) vai tendo cada vez menos qualidade. Olhe que, há apenas 20 anos, os angolanos que iam para o exterior eram considerados daqueles que tinham melhor formação dentre os oriundos dos países em desenvolvimento. Hoje, isso não acontece. Hoje, dentre 100 licenciados por uma mesma faculdade (ou uma universidade privada), pode suceder que somente 10 tenham qualidade aceitável e 20 estejam perto do aceitável.

 A situação é tal, que há casos em que devemos perguntar se vale a pena gastar tanto dinheiro em formação tão deficiente. Para além de uma ou duas privadas, talvez o pior caso seja da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, onde a qualidade de ensino deixa muito a desejar e de onde sei terem saído há dois anos licenciados que nem sequer concluíram o programa curricular. Mas em contrapartida há faculdades (como a estatal de medicina, por exemplo – mas apenas a estatal) que mantêm ainda boa qualidade de ensino e que aliam convenientemente o ensino à prática. É preciso, pois, que haja futuramente avaliação independente de cada instituição e de cada faculdade, para que se possam corrigir as lacunas que se detectem.

Temos a funcionar em Angola uma dezena de Universidades, uma pública e o resto, projectos de iniciativa privada. É um número excessivo ou nem por isso?

Pergunta se haverá muitas universidades privadas. Não me parece que sejam muitas. Poderão ser criadas algumas mais, até porque convém que as haja em número suficiente, para que se mantenham somente as que demonstrem alguma qualidade. A concorrência entre universidades privadas será salutar, pois o mercado vai encarregar-se de fazer desaparecer as de pior qualidade, ao contrário do que acontece hoje, em que todas se mantêm, incluindo aquelas que pugnam pela baixa qualidade de ensino. O que me parece ser necessário será direccionar as áreas de formação, sem que se fique apenas pelo imediato e por aquilo que pareça ser mais simples e exija menos recursos.

Depois, será indispensável avaliar os currículos, mas para isso terá de haver pessoal realmente qualificado e não apenas pessoas que se digam qualificadas, mas que aceitarão quase tudo o que lhes seja proposto, somente para manterem os seus lugares. Será preciso ter muita cautela em relação a este aspecto, que poderá vir a ser descurado. Portanto, acho que são necessárias mais universidades privadas, mas é preciso que se garanta uma boa qualidade de ensino naquelas que já existem. Ao Estado compete garantir que isso aconteça realmente.

Excessivo não será com certeza pois estão a caminho novas universidades, seis pelo menos, anunciadas pelo Governo, que será o seu titular. A questão que se coloca desde já é: teremos docentes para tantos estabelecimentos desse nível?

Primeiro devo dizer que não está correcto dizer-se (como já li) que o actual momento de crise não é propício para a reforma do ensino superior já em curso. Pelo contrário, os momentos de crise são apropriados para a introdução de reformas – e este caso não deve ser excepção, porque sem reformar o sistema não poderá haver desenvolvimento. Já sobre a questão que coloca, estive há dias em Cabo Verde, onde existe uma universidade estatal para menos de 1 milhão de habitantes e para um espaço territorial bastante pequeno. Penso que aí poderá até haver mais 2 universidades estatais.

Quanto a Angola, 7 universidades não será muito para a actual etapa de desenvolvimento e penso até que poderia ter havido ao menos 5 universidades e outras tantas academias há 10 anos. Penso que hoje se poderão questionar a localização ou a área de actuação de algumas das novas universidades, mas nunca o princípio. Considero que este passo surge até com algum atraso, pois uma só universidade de âmbito nacional não permitia sequer o controlo da actividade docente em cada localidade onde funcionam faculdades, institutos ou escolas. Apenas uma reitoria em Luanda não permitia esse controlo e fez durante muito tempo com que cada direcção aplicasse localmente as normas à sua maneira. E há a questão da corrupção que, para ser controlada, tem de haver acompanhamento no local – o que era impossível acontecer com uma reitoria tão distante.

E quando falo em corrupção, não me refiro somente a docentes, mas também a estudantes, daqueles que querem apenas um diploma e não aprender uma profissão, como é de esperar de parte de um estudante do ensino superior. Agora, se haverá docentes para 7 universidades estatais, penso que sim, até porque o que está a ser feito na quase totalidade das regiões é somente a criação de reitorias, pois existem já unidades de ensino nas distintas localidades. Será necessário, sim, actuar no sentido de levar para lá docentes que hoje estão subaproveitados em Luanda – o que só se poderá fazer com a existência de reitorias no interior.

 Como se vê, a questão sobre a exiguidade de docentes é uma falsa questão. Porque se fosse realmente um problema, quantas universidades teriam sido criadas até hoje pelo mundo? Os próprios Estudos Gerais Universitários de Angola não teriam sido criados como foram. O problema reside, sim, na qualidade dos docentes, que é muito discutível até aqui em Luanda. Para ter uma ideia do que se passa, digo-lhe apenas que sei de docentes que se ajoelham diante de estudantes, pedindo-lhes para não denunciarem a sua incompetência… Há-os, sim. E olhe que, hoje, alguns desses docentes sem o mínimo de competência dirigem departamentos e alguns outros já dirigiram até faculdades…

Independentemente deste ou daquele constrangimento que se possa identificar na concretização desta ideia do Executivo angolano, parece consensual a avaliação de que as novas universidades vão resolver um problema real que se coloca ao nível das demais regiões do país, fora de Luanda.

O ensino superior fora da capital é um bem raro… Existe obviamente essa questão, que é bastante séria. Só para lhe dar um exemplo dessa distorção, dirlhe- ei que Luanda concentra cerca de 75% dos médicos de Angola. E o mesmo acontece com a maioria das demais profissões. Ora, para haver desenvolvimento noutras regiões do país, será preciso garantir aí a formação de profissionais capazes de acompanhar a evolução que os próximos dez anos trarão, seja no domínio do desenvolvimento agrícola, seja em relação ao desenvolvimento industrial, seja ainda na indispensável aposta em investigação científica séria.

Continuar a apostar quase que apenas em Luanda, como aconteceu até aqui, seria continuar a apostar nas assimetrias regionais e continuar a dizer à maioria da população de Angola que o caminho a seguir é apenas um: Luanda. Pelo contrário, é preciso garantir que o angolano do Leste, o angolano no Noroeste, o angolano do Sudeste e o angolano do Litoral-Sul tenham oportunidades idênticas àqueles que tenham nascido em Luanda e arredores. Mas isso só será possível, se se garantir à partida que nas novas universidades estatais não se cometerão os mesmos erros que se cometeram na UAN, onde os últimos anos trouxeram consigo uma clara promoção da incompetência. Para ser reitor, vice-reitor ou decano não bastará ter um doutoramento, até porque se sabe que existem doutoramentos cujas teses nunca foram depositadas na biblioteca da universidade, como manda a regra académica.

Porquê? Porque foram teses cabuladas ou foram teses escritas por outras pessoas que não os autores cujos nomes aparecem na capa. Para que alguém chegue a decano, vice-reitor ou reitor tem de ter mais que um doutoramento – tem de ter trabalhos de investigação e tem de apresentar conferências e comunicações de qualidade em congressos e outros fóruns académicos, em Angola e no estrangeiro. Temos casos de pessoas que não têm nada disso e nem sequer têm perfil académico, mas que já dirigiram faculdades, devido exactamente ao processo de suposta eleição que havia por cá.

O resultado disso foi o combate à competência, o combate à seriedade, o combate aorigor académico, a aversão à investigação científica por todo o país, bem como a promoção da mediocridade, da incompetência, da corrupção e da maledicência. É preciso acautelar isso nas novas instituições logo à partida, se quisermos que elas cumpram realmente a sua missão. E é preciso deixar de querer fazer política em universidades – a política faz-se em partidos políticos e não nas universidades.

Que relação julga que deveria existir entre as universidades que se vão implantando no país? Pensa que cada uma deve seguir o seu próprio caminho ou seria salutar, se calhar, que houvesse alguma coordenação entre elas na definição dos cursos, dos currículos?

Em relação a áreas e níveis de formação, acho que o melhor será cada uma trilhar o seu caminho, até porque os quadros que haverá numa não estarão disponíveis para as demais. E depois, por exemplo, numa região onde há mar, tem necessariamente de haver cursos ligados às ciências do mar, enquanto numa outra onde haja elevado índice de suicídio, tem de haver uma maior aposta em sociologia e psicologia.

E temos casos destes, por cá. Portanto, não me parece que seja salutar, nem sequer que as várias instituições coordenem entre si a criação de doutoramentos ou mestrados, bem como a criação de novos cursos superiores. E muito menos poderia concordar com influências exteriores às instituições, em relação a esta matéria. As instituições de ensino superior (universidades, academias, institutos e escolas superiores) têm autonomia científica e académica, resultando daí que sejam elas próprias a propor a criação das suas faculdades, escolas e departamentos e de cursos de licenciatura, de mestrado e doutoramento. Não tenhamos dúvida que no ensino superior não poderá nunca haver “pirâmides invertidas”. Mas isso não implica que, ao nível de um Conselho de Reitores, estes não possam “acertar agulhas”. A meu ver, devem mesmo fazê-lo, de forma que as melhores experiências de uns possam ser aproveitadas por outros.

Não lhe parece que a dispersão e o irrestrito espírito liberal na escolha daquilo que cada universidade privada decide leccionar pode levar o país a ter quantidades desequilibradas de determinado tipo de profissionais? Notamos, por exemplo, que todos parecem inclinados a ter cursos de Direito e Economia…

Isso só acontecerá, se houver direcções incompetentes nas instituições de ensino superior. Vamos rezar para que isso não aconteça, ou seja, para que o Estado encontre as pessoas certas para as direcções dessas instituições. Acho, por exemplo, que terá de haver cursos de medicina em todas ou quase todas as universidades. Numas podem ser criados já, noutras daqui a 3 ou 5 anos, se calhar.

Mas será preciso investir fundamentalmente em ciências puras (matemática, física, química), ciências da terra, engenharias, medicina e ciências sociais e humanas. Terá de ser cada universidade a encontrar o seu rumo e o ritmo de introdução dessas disciplinas, em função da realidade de cada região académica. De outra forma, vamos manter-nos pelo supérfluo e por aquilo que parece ser mais fácil. É como diz, podemos correr o risco de ver proliferados cursos de Direito e Economia, sem o mínimo de qualidade, como acontece até aqui.

Seria um suicídio continuar a apostar demasiado em cursos de Direito e Economia, supostamente porque exigem menos recursos, mas descurando outras áreas indispensáveis ao progresso. O resultado disso seria mantermos o “subdesenvolvimento” ao nível do ensino superior – e é contra isso que penso que deveremos lutar a partir de agora. O ensino superior tem de acompanhar a evolução do país, que já começou. Para isso serve, a meu ver, a reforma em curso. De outro jeito ela não faria sentido.

O Estado poderia desempenhar algum papel regulador ou isso seria um atentado aos sacrossantos pilares do mercado livre, já que essas universidades (as privadas) são, antes de mais, um negócio, por mais que proclamem a sua vocação de parceiros do Estado na formação de quadros?

Sim, o Estado tem necessariamente de assumir o seu papel, ao contrário do que sucedeu nos primeiros anos de existência das instituições privadas de ensino superior. Cabe ao Estado garantir a salvaguarda do interesse nacional nas instituições de ensino superior. Mas atenção, que regular não poderá nunca significar substituir. Ao Estado não compete ministrar aulas, marcar faltas aos docentes, nem sequer fazer exames de admislicenciatura equaciosão.

O papel do Estado é de definição de políticas públicas para o ensino superior e, depois, de supervisão e acompanhamento da execução dessas políticas por parte das universidades, academias, institutos e escolas superiores. Não estaremos a ver, nunca, o ministro do Ensino Superior nomear professores, mandar elaborar currículos, mandar realizar exames ou assinar diplomas ou certificados de equivalência de estudos. Em parte alguma do mundo isso acontece e não poderá ocorrer também em Angola.

E isso diz respeito ao ensino superior estatal e privado. No que respeita às instituições privadas, penso ser fundamental acabar-se desde já com a ideia de que os estudantes pagam para aprovar. Não é nada disso. Os estudantes pagam, sim, para ter ensino de qualidade – e é isso que o Estado deve garantir que ocorra, doa a quem doer e fique mal quem ficar. Penso que a garantia da qualidade do ensino tem mesmo de ser aquilo que deve comandar a actuação das instituições de ensino superior e do seu órgão de tutela.

Até onde chega o seu conhecimento, consta-lhe que os quadros saídos da Universidade Agostinho Neto e os seus colegas formados nas universidades privadas, têm tratamento igual na hora de serem absorvidos pelo mercado de trabalho? Que histórias tem ouvido?

O que me parece é que haverá tratamento idêntico, até que apareçam muitos casos de incompetência velada saídos de uma mesma instituição. Há algumas faculdades estatais visadas, mas ultimamente ouve-se realmente falar também de algumas universidades privadas, onde praticamente toda a gente aprova e onde a maioria dos docentes tem somente licenciatura e não são acompanhados por graduados, como a lei determina. Acho que o ser humano age dessa forma, ou seja, generaliza a partir de vários casos de que tenha conhecimento ou de que tenha ouvido falar.

Não me parece que seja correcto generalizar, até porque numa mesma turma tenho estudantes de 18 valores e estudantes de 4 valores. A meu ver, o melhor será mesmo avaliar cada caso, até porque de Oxford e de Harvard saem bons e saem também maus profissionais, tal como ocorre na Universidade Agostinho Neto e na Universidade Católica, por exemplo.

É atribuída ao Dr. Paulo de Carvalho a ideia de que existirão pessoas que parecem não ver com bons olhos o surgimento das novas universidades públicas. Tais pessoas, segundo se diz, terão mesmo feito movimentos ao nível da mídia para conseguirem matérias encomendadas a pôr em causa a decisão do Governo de avançar com as seis universidades regionais. É mesmo assim ou há aqui uma leitura imprecisa dos dados, um simples caso de “ouvi dizer”?

Atribuída a mim essa ideia? Porquê a mim? Basta ler jornais e ouvir rádio, para saber que existem pessoas que não concordam com a reforma do ensino superior em curso. Eu nada tenho a ver com isso, até porque faço parte do grupo de pessoas que concordam com a reforma em curso. Mas não concordo com todas as ideias associadas a ela e que vêm sendo veiculadas nos últimos dois anos.

O que considero é que o princípio reitor deve ser a garantia da qualidade de ensino – vindo o resto na sequência disso. Mas há quem venha confundir a opinião pública, tentando reduzir a reforma a uma eventual não eleição de reitores e decanos, alegando supostamente que isso contraria os princípios democráticos. Pois a verdade é que a democracia no ensino superior tem a ver fundamentalmente com a participação dos diferentes actores na gestão académica das instituições. Sobre quem deve dirigir as instituições, cabe unicamente ao Estado decidir, enquanto proprietário. Ou será que, por não haver eleição dos gestores nas instituições estatais de ensino superior americanas e francesas (por exemplo), não haverá democracia nessas instituições? Já sobre a questão que coloca, olhe para os muitos docentes profissionalmente incapazes que existem no ensino superior; esses são alguns daqueles que não concordarão com a reforma, porque se ela for bem conduzida, vai obviamente ocasionar a sua saída do ensino superior e a sua colocação noutras áreas do mercado de trabalho.

Outra questão: ultimamente, fala-se muito na possibilidade de o Estado vir a acabar com a autonomia das instituições de ensino superior, exercendo competências que estão atribuídas às direcções dessas instituições. Não sei por que razão existirá esse temor. É claro que se algum dia isso vier a ocorrer, então os académicos terão de se unir contra isso. Mas não me parece que exista essa vontade por parte do executivo, mas antes algum temor por parte de quem terá hoje algum poder intermédio nas instituições e pensa que o poderá vir a perder com a reforma. Agora, que possa haver matérias encomendadas na comunicação social angolana, parece-me que ninguém poderá pôr isso em causa. Quem está ligado à comunicação social (como eu) sabe que isso ocorre, não apenas em Angola, mas pelo mundo.

Não sei quem terá dúvidas a esse respeito e por que razão se atribuirá tal afirmação somente à minha pessoa. Sei de outros, como eu, que chamam constantemente à atenção para esse facto, que por cá chegou há uns anos a atingir proporção alarmante mas que, felizmente para todos nós, está agora a diminuir. Reorientando o percurso da nossa conversa, abordemos agora um dos aspectos que mais reservas levantam quando se olha para a qualidade do nosso ensino superior: é frequente a afirmação de que as nossas universidades não promovem a investigação. Andamos estes anos todos a formar esforçados leitores de teorias alheias que não podem comprovar? Esta é uma boa pergunta e este é um dos sérios problemas do ensino superior e de Angola em geral.

Lamento, mas tenho de reconhecer que na Universidade Agostinho Neto e nas suas faculdades e institutos, nunca se promoveu a investigação científica em larga escala e até há locais em que se chega a combater quem faz investigação e quem publica resultados de investigação. Nas universidades privadas (excluindo a Católica), quase ninguém pensa em investigação científica. De um modo geral, andamos a iludir-nos, fazendo crer aos recém-formados que a investigação será para “meia dúzia de malucos”. Pois não é nada disso. Sem investigação científica não há ensino superior.

E nós hoje não temos, pois, ensino superior digno desse nome. O que fazer, pois, para inverter esse quadro? É preciso, antes de mais, apostar para a direcção das instituições em quadros sérios e com provas dadas no domínio da investigação científica. Se isso não acontecer, não tenhamos dúvidas que a situação actual se vai manter e que o ensino superior continuará a perder alguns dos seus bons quadros. O que acontece quando colocamos a presidir ou a integrar o júri de um prémio de investigação pessoas que nunca publicaram sequer um livro e nunca fizeram qualquer trabalho de investigação? Ou se premeia intencionalmente a falta de qualidade, ou não se atribui o prémio. E olhe que isso já aconteceu por cá, não apenas numa ocasião. É tudo isso que temos de prevenir desde já, se quisermos impor seriedade no projecto que é o ensino superior.

A Universidade como instituição ao serviço dos países e suas populações, concita indiscutivelmente outros olhares, quando ela intervém, participa, contribui, no equaciosão namento e solução dos problemas que a sua comunidade de implantação enfrenta. Parece insuficiente o que a Universidade em Angola faz nesse campo. Lembro-me de uma iniciativa recente, quando a família académica se reuniu para discutir os problemas ligados à gestão urbana de Luanda. Fora disso, haverá pouco mais nos registos…

Estou perfeitamente de acordo consigo, pois as várias iniciativas nesse quadro “sabem a pouco”. Isso está relacionado com a investigação científica, em relação à qual existe muito pouco investimento. Olhe que temos decanos e chefes de departamento que vão a congressos e não apresentam comunicação, por pura incompetência. Em 2006, tivemos cá em Luanda um congresso internacional de ciências sociais, onde vários decanos, chefes de departamento e regentes de curso não apresentaram uma simples comunicação.

Alguns foram até lá passear a sua banga, outros foram fazer relações públicas. E não lhes aconteceu absolutamente nada. Olhe que em universidades sérias (chamados tradicionais de forma pejorativa) que têm propriedades comprovadas ao longo de vários séculos, que deveriam ser testados em centros de investigação de universidades e não o são. Temos de acabar com o preconceito em relação àquilo que é nosso. E temos de promover aquilo que deu bastas provas de funcionar como fármaco. Sobre esta matéria ligada à investigação científica tenho de referir aqui o exemplo de uma universidade privada – a Universidade Católica de Angola – que existe há pouco tempo, mas que tem um centro de investigação a funcionar devidamente.

Por onde andam, pois, os centros de investigação que a Universidade Agostinho Neto deveria ter espalhados pelo país? Também fácil será responder a outras duas perguntas: quantos livros a Universidade Agostinho Neto editou nos últimos 30 anos? E quantas revistas académicas a Universidade Agostinho Neto possui neste momento? São estes alguns dos elementos de avaliação da actividade científica que devem ser considerados. Será preciso, pois, que cada futuro reitor pense seriamente nestas matérias e será preciso que o Estado disponibilize verbas que promovam a investigação científica e a produção de conhecimento, nas várias áreas do saber.

Mas é preciso considerar que a este respeito não existem filhos e enteados, ou seja, não existem áreas de excelência e áreas de menor importância. Cada universidade tem de apostar em todas as áreas do conhecimento, de forma gradual e de acordo com a realidade e as necessidades locais. E se a este respeito houver pressão de algum lado, que seja somente no sentido positivo. Uma última questão: temos condições para formarmos já os nossos Doutores em Angola (PhD) ou já vamos bem com os nossos licenciados ao fim de cada ano académico?

Sempre defendi a ideia segundo a qual temos de formar pessoas ao nível do mestrado e do doutoramento. Mesmo antes de ter o doutoramento defendia essa ideia, da mesma forma como defendo a ideia segundo a qual existem funções para as quais se tem necessariamente de exigir o doutoramento. É isso que acontece pelo mundo e não podemos continuar a achar-nos excepção, porque são as excepções que promovem a baixa qualidade do ensino superior. Sobre haver doutoramentos, vou citar um caso que me foi relatado por um colega (o Dr. Víctor Kajibanga) e que está até escrito numa revista de sociologia. Quando surgiu a ideia de criação do primeiro curso de Sociologia em Angola, quem se opôs foram (ao contrário do que se possa imaginar) sociólogos. Porquê? Por temerem concorrência.

Só os incompetentes receiam que os seus estudantes os possam superar. Da mesma forma, quem rejeita a ideia de dever haver hoje doutoramentos em Angola são pessoas que receiam ser ultrapassadas pelos novos doutorados. Olhe novamente para o caso de Cabo Verde – uma universidade que existe há menos de dois anos e já tem 12 mestrados e vai começar vários doutoramentos. Por cá, a questão não tem a ver com a criação de cursos de mestrado e de doutoramento – que eu acho que deverão desde já ser criados gradualmente nas várias universidades estatais angolanas. A questão tem a ver com a seriedade dos projectos. Ao contrário do que sucede com boa parte dos mestrados actualmente existentes na UAN, é preciso que os novos mestrados e os doutoramentos que venham a ser criados a partir do próximo ano tenham à partida garantida a qualidade indispensável e as exigências indispensáveis, para que no final os estudantes não fiquem a “patinar” para escrever as suas dissertações, como sucede actualmente.

Avancemos sim com cursos de licenciatura, de mestrado e doutoramento, mas de forma segura e séria. Só assim poderemos melhorar a qualidade de ensino e só assim poderemos começar a caminhar rumo ao progresso e ao desenvolvimento.

Mas por outro lado, sei de colegas de várias faculdades que não puderam participar em congressos no exterior onde iriam apresentar comunicações, supostamente por falta de dinheiro para custear as suas deslocações. Em contrapartida, há pessoas das mesmas faculdades que viajam sem qualquer fim de natureza científica, havendo dinheiro para isso. Estamos a ludibriar as novas gerações, fazendo-lhes crer que o ensino superior inclui somente a docência (que é aquilo que parece mais fácil) e, para além disso, serve para promover a intriga e a maledicência. É esse quadro de falta de rigor e de seriedade que precisa de ser invertido.

Sobre isto, por exemplo, há uma situação muito concreta em que o papel da Universidade como local de pesquisa poderia ser de grande relevância. Milhares de angolanos sofrem de anemia falciforme, uma doença que causa enorme sofrimento, e ocorre que o fármaco que melhores perspectivas lhes oferece no alívio dos efeitos desse mal crónico – o VK 500 – não tem circulação facilitada no país porque, segundo se diz, não foi suficientemente estudado. Não podia a Universidade dissipar as dúvidas e determinar, de uma vez por todas, quem anda em contra-mão, se os que defendem o uso do medicamento ou os que o rejeitam sem também uma base sustentada para dizerem o que dizem?

Essa é uma questão séria, que tem a ver com os entraves que a indústria farmacêutica cria às inovações, devido à redução dos rendimentos que elas lhe ocasionam. Mas o Estado não deve dar guarida a isso, deve sim promover a investigação e os testes que têm de anteceder a colocação de qualquer fármaco no mercado.

Quanto à universidade, não apenas poderia, mas eu diria mesmo que teria a obrigação de suprir essa lacuna. O exemplo da falciformação que apresenta é demonstrativo daquilo que uma universidade deve fazer, mas não é o único. Nós temos em Angola muitos medicamentos (chamados tradicionais de forma pejorativa) que têm propriedades comprovadas ao longo de vários séculos, que deveriam ser testados em centros de investigação de universidades e não o são. Temos de acabar com o preconceito em relação àquilo que é nosso. E temos de promover aquilo que deu bastas provas de funcionar como fármaco. Sobre esta matéria ligada à investigação científica tenho de referir aqui o exemplo de uma universidade privada – a Universidade Católica de Angola – que existe há pouco tempo, mas que tem um centro de investigação a funcionar devidamente. Por onde andam, pois, os centros de investigação que a Universidade Agostinho Neto deveria ter espalhados pelo país?

Também fácil será responder a outras duas perguntas: quantos livros a Universidade Agostinho Neto editou nos últimos 30 anos? E quantas revistas académicas a Universidade Agostinho Neto possui neste momento? São estes alguns dos elementos de avaliação da actividade científica que devem ser considerados. Será preciso, pois, que cada futuro reitor pense seriamente nestas matérias e será preciso que o Estado disponibilize verbas que promovam a investigação científica e a produção de conhecimento, nas várias áreas do saber. Mas é preciso considerar que a este respeito não existem filhos e enteados, ou seja, não existem áreas de excelência e áreas de menor importância. Cada universidade tem de apostar em todas as áreas do conhecimento, de forma gradual e de acordo com a realidade e as necessidades locais. E se a este respeito houver pressão de algum lado, que seja somente no sentido positivo.

Uma última questão: temos condições para formarmos já os nossos Doutores em Angola (PhD) ou já vamos bem com os nossos licenciados ao fim de cada ano académico? Sempre defendi a ideia segundo a qual temos de formar pessoas ao nível do mestrado e do doutoramento. Mesmo antes de ter o doutoramento defendia essa ideia, da mesma forma como defendo a ideia segundo a qual existem funções para as quais se tem necessariamente de exigir o doutoramento. É isso que acontece pelo mundo e não podemos continuar a achar-nos excepção, porque são as excepções que promovem a baixa qualidade do ensino superior. Sobre haver doutoramentos, vou citar um caso que me foi relatado por um colega (o Dr. Víctor Kajibanga) e que está até escrito numa revista de sociologia. Quando surgiu a ideia de criação do primeiro curso de Sociologia em Angola, quem se opôs foram (ao contrário do que se possa imaginar) sociólogos. Porquê? Por temerem concorrência. Só os incompetentes receiam que os seus estudantes os possam superar.

Da mesma forma, quem rejeita a ideia de dever haver hoje doutoramentos em Angola são pessoas que receiam ser ultrapassadas pelos novos doutorados. Olhe novamente para o caso de Cabo Verde – uma universidade que existe há menos de dois anos e já tem 12 mestrados e vai começar vários doutoramentos. Por cá, a questão não tem a ver com a criação de cursos de mestrado e de doutoramento – que eu acho que deverão desde já ser criados gradualmente nas várias universidades estatais angolanas.

A questão tem a ver com a seriedade dos projectos. Ao contrário do que sucede com boa parte dos mestrados actualmente existentes na UAN, é preciso que os novos mestrados e os doutoramentos que venham a ser criados a partir do próximo ano tenham à partida garantida a qualidade indispensável e as exigências indispensáveis, para que no final os estudantes não fiquem a “patinar” para escrever as suas dissertações, como sucede actualmente. Avancemos sim com cursos de licenciatura, de mestrado e doutoramento, mas de forma segura e séria. Só assim poderemos melhorar a qualidade de ensino e só assim poderemos começar a caminhar rumo ao progresso e ao desenvolvimento.

Perfil

  • Nome: Paulo de Carvalho
  • Naturalidade: Luanda (viveu no Lobito a partir dos 2 meses de idade)
  • Estado civil: Casado Filhos: 3 (dois rapazes e uma menina) 
  • Formação: Diplomado e mestre em Sociologia pela Universidade de Varsóvia ( Polónia) ; Doutor em sociologia pelo ISCTE ( Lisboa, Portugal). É autor de 7 livros de investigação na área da Sociologia
  • O que gosta de comer? Moamba de ginguba, entrecosto grelhado, peixe grelhado
  • Bebida: Coca-Cola
  • O que ouve? Semba, samba e kizomba
  • O que lê? Literatura sociológica. Neste momento, estou a ler “From Poverty to Power” (Da Pobreza ao Poder), de Duncan Green.
  • Filmes de eleição: Paixão de Cristo, Os Homens do Presidente, Titanic
  • Destino ideal para férias: Canárias, Havai, Seicheles, Cuba, Cabo Verde (ainda só estive nos dois últimos e em serviço)
  • Poligamia: A favor ou contra? Contra (em relação a mim), mas nada tenho contra quem a pratica por livre vontade.
  • Porquê? É uma questão cultural. Fui educado numa família monogâmica e segundo valores monogâmicos. Mas sou absolutamente tolerante em relação aos demais.
  • Sonhos para Angola: Poder ombrear com a África do Sul em 10-15 anos; ver a pobreza reduzida a menos de 8% em 10 anos; ver os angolanos olharem-se como iguais e respeitarem-se mutuamente; e ver os angolanos serem lá fora tratados como “cidadãos do mundo” e não espezinhados (como são actualmente).
*Luís Fernando
Fonte: O Pais


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