Luanda - NOTA PRÉVIA: Revirando o baú de meus escritos no saudoso Semanário Angolense, deparei-me com uma crónica que está bem no espírito do momento por que passamos: a crise que tomou de assalto a "nação angolenses" e a quadra natalícia. Infelizmente, os cabazes, que deveriam ter simplesmente carácter de mera cortesia e gentileza de uns para com os outros, ganharam uma dimensão grosseira e monstruosa neste país. No entanto, manda a verdade dizer que este ano o escarcéu está a ser bem menor. Ao que se vê, apenas a Sonangol e umas quantas empresas possidentes do nosso firmamento económico, continuam a dar largas à cultura do cabaz. Ou será apenas fogo fátuo e mal a crise passar continuaremos todos a fazer alarde desse ritual de despesismo e consumismo?

Fonte: SA

CRÓNICA DE UMA CULTURA DE ESBANJAMENTO, EGOCENTRISMO E MATERIALISMO

A forma como o cabaz virou cultura em Angola já deveria ter levado as pessoas «que podem» neste país a um exercício de introspecção sobre os aspectos iníquos que isso encerra. Mas, é claro, ninguém tem coragem de o fazer. Eu mesmo – que aqui desfolho este sermão – tenho consciência de que passo por hipócrita. Na verdade, quando o ano se apresta a terminar, lá vamos todos ao mesmo ritual: lutar, estoicamente, por um cabaz. Os que podem não se ficam por apenas um: quantos mais forem os cabazes que conseguirem amealhar, transformando a casa no maior dos celeiros ou das adegas do mundo, tanto melhor será. Realmente, é isto. A cultura do cabaz entranhou-­‐se-­‐nos como um vírus, que não nos damos conta do lado imoral que ele também tem. E há muitas razões para querermos cabazes.



Em primeiro lugar, porque chega a parecer um um indicador de status social, mesmo quando, na verdade, estamos no fundo do poço da sociedade. Os nossos filhos enchem-­‐se de orgulho diante dos vizinhos sempre que o carro do papá estaciona no pátio do prédio e de lá é descarregado um rechonchudo e robusto cabaz. Se forem muitos mais, passamos de progenitores a verdadeiros heróis. Para as nossas mulheres, o sentimento é o mesmo: endeusam-­‐nos e, nos breves e fugazes momentos de uma quadra festiva, até se esquecem das canseiras da lida doméstica ao longo dos últimos 365 dias.


A cultura do cabaz também tem adeptos ferrenhos do lado da oferta, isto é, das instituições do Estado e das empresas que não regateiam esforços para presentearem os seus funcionários e empregados com cabazes. Compreende-­se porquê. Só um empresário de meia tigela ou um gestor público rasca não é capaz de garantir cabazes para os «seus».

 

Até são feitos esforços titânicos para que logo no início do ano o orçamento preveja uma rubrica para gastos em cabazes. Para as empresas que os fornecem trata-­se de um negócio como qualquer outro. É ver os anúncios que se fazem sobre cabazes de toda sorte, quando o ano mal vai a meio.

 

Chega a ser um estranho instrumento de apoio à gestão, na medida em que um cabaz também constitui garantia para se ter trabalhadores motivados. Mas mais do que isto é que ele é uma forma subtil de tráfico de influência. Bem no fundo, as ofertas que os empresários e gestores fazem circular entre si mantêm‐nos em aliança, como se de membros de uma organização secreta se tratassem.


Até prova em contrário, terei sempre como uma anedota aquela estória sobre certo director de uma grande empresa do Estado que cometeu a proeza de recusar a oferta de qualquer coisa como dez cabazes. Quando lhe foram anunciar que junto ao portão de casa estava uma carrinha repleta de cabazes que lhe eram destinados, o homem teve a coragem de dizer não e mandou a viatura recuar.

 

Mas ele não terá agido assim movido por um rebate de consciência. Foi mais uma questão de autodefesa. Afinal, podia tratar­‐se de uma armadilha tecida por gente que eventualmente cobiçasse o cargo. Hoje em dia, arrecadar dez cabazes é sinal de status, que ainda por cima sempre permite que se possa redistribui­‐los por algumas capelinhas, como sejam as amantes e os parentes de menos posses. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que ter dez cabazes podia constituir crime de sabotagem económica. O camarada tinha de explicar, bem explicadinho, como foi que conseguiu tanto cabaz junto.


Já não é o que se passa nos dias de hoje, em que a cultura do cabaz está completamente escancarada, seguindo à rédea solta. Via de regra ninguém pensa nos aspectos perversos e iníquos de uma tal prática. No fundo, o cabaz segmenta em vez de unir a sociedade.

 

Entra ano, sai ano, são sempre as mesmas pessoas, aquelas que já têm, a serem bafejadas com cabazes de todo o tipo. Na larga maioria dos lares deste país, o cabaz é um espécime raro. A ementa de consoada de uma zungueira que não esteja no segmento da venda de postas de bacalhau e similares jamais incluirá esse peixe, cuja espécie mais famosa é a da Noruega. E nem poderá sonhar com um peru recheado e assado no forno.

 

Por isso, a cultura do cabaz também configura uma enorme feira de vaidades, que tem esse lado amoral e de desprezo para com os cidadãos mais desafortunados do país, que ainda constituem a maioria da população.


Quando um dia alguém se der ao trabalho de contabilizar devidamente quanto o país tem gasto em cabazes, verificaremos, surpresos (ou nem tanto), o despesismo grosseiro em que se tem incorrido. Há cabazes próprios para «sultões», que ficam acima dos mil dólares. E há quem receba mais em cabazes do que em ordenados ou salários de um ano inteirinho, o que significa que há empresas que «investem» mais nisso do que na remuneração dos trabalhadores.


Mas, como dizia, quando um dia fizermos as contas dos gastos em cabazes, perceberemos também quanta falta de solidariedade com o próximo campeia por aí. Angola ainda é um país quer não conseguiu vencer a barreira da fome. Há gente a enganar o estômago, diariamente, com um pão e um pedaço de frango. Isto nas cidades, pois quase não sabemos como vão as coisas nas regiões rurais.


Se houvesse verdadeira solidariedade e racionalidade de gastos, com o que se despende em cabazes bem daria para formar bancos alimentares contra a fome, aos quais os pobres recorreriam durante o ano.


PS – Contaram‐me, já por estes dias em que a febre do cabaz está a fazer furores, que um dos nossos «marajás» perdeu a conta do que tinha armazenado em casa só por conta dos cabazes transitados do ano passado. Quando recebeu os primeiros cinco cabazes da remessa desta quadra festiva, é que se deu conta que ainda lhe haviam sobrado do Natal de 2007 umas cinquenta garrafas de uísque, entre velhos e novos.

 



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