Lisboa - 1. JOÃO Manuel Gonçalves LOURENÇO (JL) nasceu há 62 anos (05.Mar.1954) em território ovimbundu (Lobito) mas é considerado “etnicamente indefinido”. O pai era quimbundo de Malanje e a mãe de Moçâmedes. Também é considerado crioulo – condição advinda de realidades como o desconhecimento que revela de qualquer língua nacional e ter sido urbana toda a sua vivência; em comparação com outros crioulos influentes no MPLA apresenta, porém, a peculiaridade de não fazer parte de nenhuma família ou clã tradicional de Luanda.

 
Fonte: Africa Monitor
 
Vivia no Bié, em cuja capital, a antiga Silva Porto, frequentava o ensino secundário, quando eclodiu em Portugal a revolução que viria a pôr termo seu antigo império. O pai, enfermeiro de profissão, estava aí destacado. Foi nessa altura que aderiu ao MPLA, dando inicio a uma militância que o levaria depois a integrar um grupo de combatentes (CIR Kalunga) destacado para a fronteira de Cabinda, N’to e Yema com a missão de impedir a implantação no território de grupos armados da FNLA e do próprio Exército zairense, oriundos da Base de Kitona. Por razões a que a sua razoável cultura política não terá sido estranha, viria depois a ser feito de comissário político nas FAPLA, braço armado do MPLA.
 
 
Pela carreira militar propriamente dita enveredou em 1978; chegou a frequentar um curso de “mando” (comando e liderança) na ex-União Soviética. Porém, foi essencialmente na política, no âmbito do activismo no MPLA, que se começou a destacar. Nesse período, frequentou igualmente um curso de História sem o ter terminado. De 1983 a 1986 desempenhou funções de Comissário Provincial do Moxico e Presidente do Conselho Militar Regional da 3a Região Politico Militar.
 
 
2. O principal “padrinho” na sua fase inicial de militância partidária foi Lopo do Nascimentoi. Porém, a sua ascensão na hierarquia do partido-Estado deveu-se sobretudo a José Eduardo dos Santos que viu em JL um militante mais leal que Lopo do Nascimento. O afastamento entre Lopo de Nascimento e JES foi acompanhado por igual afastamento em relação a JL.
 
 
O primeiro sinal da preferência de JES foi a sua nomeação para líder parlamentar do MPLA em 1993. No Bureau Político do partido, dirigiu o Secretariado para a Informação e foi nomeado, em Dez.97, para substituir Pedro Van Dunen “Loy” à frente do Secretariado do BP para a Esfera Económica. Embora casado com a economista Ana Dias, ex-vice Ministra do Planeamento, nunca lhe tinham sido reconhecidas aptidões para os assuntos económicos.
 
Em 23.Ago.2016, por ocasião da 1a sessão ordinária do Comité Central do MPLA saído do VII congresso ordinário do partido (17-20.AGO), João Lourenço, actual ministro da Defesa, foi eleito vice-presidente do MPLA.
 
Os interesses económicos da família Dos Santos exigem alguém leal e da confiança pessoal do Presidente neste cargo para “explicar” e influenciar os restantes membros do BP e do Comité Central do partido.
 
JL esteve também no projecto de lançamento de um jornal diário, que visava ampliar a mensagem do MPLA, mas que acabou por não vingar.
 
 
A ascensão de JL teria de culminar no cargo de Secretário Geral do MPLA, na altura o número dois do partido, o que veio a acontecer em 1998. O apoio de JES não havia sido suficiente para o eleger imediatamente Secretário Geral. De facto, Lopo do Nascimento derrotou-o numa eleição com voto secreto, escapando assim à manipulação do voto de braço no ar. Esta derrota foi vista como a derrota do próprio JES.A eleição de JL ocorreu naquele que ficou conhecido como o “congresso da batota”, tendo JL beneficiado com a gradual marginalização de Lopo do Nascimento pela linha dura do MPLA.
 
 
Enquanto SG do MPLA, JL funcionou de forma acrítica como o “braço” de JES no partido. Coube a JL confrontar alguns dos críticos internos como Marcolino Moco, ex-PM, face a posições consideradas críticas. Já na altura, JL tinha como principais aliados Paulo Jorge e Norberto dos Santos.
 
 
JL tomava ainda parte no Conselho de Defesa e Segurança (CDS), dirigido pelo Brig. Manuel Silva Kabwita e composto por sete membros, convocado por JES.
 
 

3. JES aprecia a sua lealdade, o esforço e a disciplina com se aplica nas suas tarefas. Estes atributos são-lhe geralmente reconhecidos a par de uma personalidade paciente e formalmente educada e com boa capacidade de comunicação. Reportes do aparelho partidário referem alguma simpatia pessoal por parte de JES reflectida na nomeação de JL como Ministro da Defesa depois de vários anos de travessia no deserto como vice-presidente da AN.
 
 
A sua actuação como ministro tem ido muito para além dos assuntos meramente militares. Tem sido a segunda figura na representação do Chefe de Estado em inúmeras missões, depois do VP, Manuel Vicente. Terá sido uma forma encontrada por JES para lhe dar alguma visibilidade internacional, sobretudo em África.
 
 
JL não é especialmente “popular” no MPLA mas é conhecido e tolerado desde logo porque domina a máquina partidária como poucos e porque se conhece o bom relacionamento de JL como JES. Já foi o chefe da informação e propaganda e secretário-geral quando não havia o cargo de vice-presidente e era, portanto, o homem forte do partido em exclusividade. O recém- eleito secretário geral do partido, Paulo Kassoma, é considerado um aliado inestimável.
 
 
No final de Ago.16, JL consolidou mais uma aliança estratégica importante ao casar uma das suas filhas com o filho do General Norberto Santos "Kwata Kanawa", outro peso pesado do Bureau Político do MPLA, actual governador provincial de Malanje, que antes o havia substituído na chefia da informação e propaganda do MPLA. É o mais influente kioko (tchokwe) do MPLA, originário da região das Lundas, nos equilíbrios regionais que o partido mantém desde os tempos da guerrilha. A relação de proximidade com JL é antiga.
 
 
4. Os seus potenciais "adversários" poderão estar entre aqueles que pensaram, em determinado momento, que poderiam ser os escolhidos: Nandó, Virgílio Fontes Pereira, Dino Matross e
Bornito de Sousa. Mas todos eles mantêm uma relação cordial, até pelo facto de a esposa de JL, Ana Dias Lourenço, ser da mesma regiao de “Nandó” e “Dino” (Bengo).
 
 
A falta de uma base de apoio político no aparelho do MPLA, nomeadamente junto dos mais antigos e da intelectualidade angolana pró-MPLA foi sendo colmatada nos últimos anos com as funções governamentais exercidas por JL. É pouco conhecido na sociedade angolana e não muito considerado nos meios intelectuais angolanos, dificilmente escapando ao estigma de fazer parte da “nomenclatura” oligárquica dominante em Angola.
 
 
A sua paciência valeu-lhe créditos internamente, ao contrário de outros que foram caindo pelo caminho, como o próprio Manuel Vicente ou outros “delfins” politicamente mais irrequietos como Kito Rodrigues, Evaristo Kimba ou Ambrósio Lukoki.
 
 
Embora não tenha o seu nome envolvido em casos/escândalos de corrupção, JL também possui negócios próprios, nomeadamente uma sociedade em Benguela, de onde é oriundo, que está a construir um condomínio à entrada da cidade com participação da portuguesa Casais e outros sócios angolanos. Possui igualmente uma grande quinta agrícola nos arredores de Luanda que fornece produtos hortofrutícolas, ovos e aves para as grandes superfícies comerciais da capital, nomeadamente a cadeia de retalho KERO, pertencente ao Gen. Hélder Vieira Dias “Kopelipa” e a Manuel Vicente.
 
 

5. Não sendo um intelectual, JL terá evoluído das posições ortodoxas dominantes nos tempos do partido único para uma postura mais liberal na forma de encarar o papel do MPLA e do Estado. Inicialmente, nos tempos do partido único e quando desempenhava funções de comissário político nas FAPLA, assumia-se como um conservador, imitando as referências da linha dura marxista-leninista do novo regime.
 
 
Ao revelar-se gradualmente como um homem de equilíbrios, por via das responsabilidades no partido, seja na bancada parlamentar ou como SG do MPLA, JL assumiu o seu papel de homem de “pontes” e de diálogo. Acredita-se que as muitas viagens de JL a Washington para se juntar à mulher, que exerceu funções no Banco Mundial, possam ter contribuído para algum amadurecimento das suas ideias e visão politica.
 
 
Num cenário em que venha a assumir a chefia de Estado, poderá mesmo manifestar traços reformistas por via da influência da mulher, Ana Dias Lourenço, ex-vice ministra do Planeamento no final dos anos 1990, que terminou  em Outubro o seu mandato no Banco Mundial.
 
 
ADL é formada em Economia pela Universidade António Agostinho Neto e possui formação complementar em Gestão, Análise e Avaliação de Projectos. Do seu curriculum destacam-se ainda os cursos de Gestão de Políticas Macro-Económicas no Instituto de Desenvolvimento Económico do Banco Mundial. Foi duas vezes presidente do Conselho de Ministros da SADC quando Angola assumiu a presidência da organização, representante de Angola no Banco Mundial e coordenadora nacional dos Fundos FED. Ana Dias terá igualmente sido muito próxima de JES, com quem terá mantido relações de amizade. O seu nome correu nos corredores do partido como eventual ministeriável para a pasta de Finanças, probabilidade que não se confirmou.
 
 Consta que a vida do casal atravessou momentos difíceis mas acredita-se que JL terá Ana Dias como “primeira dama” caso se confirme a sua ascensão a chefe de Estado.
 
 
6. Como ministro da Defesa, JL conseguiu quebrar alguns “tabus” tais como o corte dos fornecedores logísticos das FAA. Acabou com um esquema antigo de fornecimentos, sobretudo de bens alimentares. Conseguiu, igualmente, o distanciamento entre o Ministério da Defesa, as FAA e a Casa de Militar e de Segurança do PR, ou seja, retirou poder e protagonismo ao general “Kopelipa” sobre as forças de defesa e despacha directamente com o Presidente, factor que lhe é favorável na sua ascensão interna.
 
 
Embora as aquisições de armamento e tecnologias militares se mantenham fortemente controladas pela casa militar da presidência, centralizada em “Kopelipa”, JL já fez várias visitas para tratar de compra de armamento, incluindo à China e à Itália. Os chineses são sobretudo fornecedores de armamento ligeiro e a Itália para meios como helicópteros e embarcações militares. Israel, através de diversos intermediários, continua a ter um peso central em tecnologias de intelligence e treino.
 
 
A sua nomeação como vice-presidente do MPLA garante-lhe, por direito, a sucessão partidária, apresentando-se com elevado grau de probabilidade como próximo presidente do MPLA. 
 
 
 
 
Face ao anúncio de JES em abandonar a vida política, propiciado pela idade avançada e imagem desgastada, além das esperadas reações adversas externas e internas a um (novo) recuo na sua decisão de afastamento, admitimos nesta fase como cenário mais provável no calendário político e posições internas no MPLA, a emergência de JL como sucessor de JES – como futuro candidato presidencial pelo MPLA em 2017 ou como “Número 2” de uma lista encabeçada por JES, que transferiria poderes para o vice-presidente a durante o mandato.
 
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