Luanda - MEMÓRIAS DE 20 – 27 DE JUNHO DE 2015: FACTOS DO INÍCIO DE UMA EPOPEIA QUE MUDOU A MINHA VIDA.

Fonte: Facebook

SÁBADO, 20 DE JUNHO DE 2015: depois de várias horas de mais uma sessão de revisão do texto de mais de 300 páginas do projecto de livro (que tinha começado a escrever em Setembro de 2014 – que acabou publicado em Portugal a 27 de Maio de 2016 sob o título de O Pensamento Político dos Jovens Revús), e que já tinha remetido a alguns especialistas e académicos angolanos e estrangeiros para que fizessem a competente análise crítica antes de ser publicado pela Paco Editorial, por volta das 10h30, hibernei o computador e fui preparar-me para participar de mais um dia de debates na sala de aulas do Instituto Luandense de Línguas e Informática (ILULA; não, não era na livraria Kiazele, mas, sim, numa sala de aulas), onde tínhamos dado início ao “Curso de Luta Não Violenta”, cujos orientadores eram oficialmente Domingos Da Cruz e Nuno Alvaro Dala (ver Conteúdo Programático). A sessão começava às 13h00 e terminava às 17h00. Cerca de 30 minutos depois, às 11h00, estava pronto, mas, ao contrário do que me era habitual, deixei o computador portátil, sendo que levei apenas uma cópia do livro Da Ditadura à Democracia, fonte principal de todos os conteúdos de estudo-debate, uma cópia do fascículo incompleto Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura – Filosofia Política de Libertação para Angola, que o Domingos tinha escrito no esforço de facilitar o estudo do célebre livro de Gene Sharp. Com a mochila cheia de manuais e montes de documentos académicos, fichas de investigação científica, rascunhos diversos etc., pus-me a caminho. Cheguei ao ILULA às 11h45. Não encontrei ninguém. Ainda faltava 1 e 15 minutos para o início das sessões. Então, decidi sair da sala e fui dar uma volta pelas imediações da Jembas. Voltei cerca de 15 minutos depois. Encontrei o M'banza Hamza sentado na segunda carteira da fileira esquerda, a escrever no seu computador portátil. Saudámo-nos. Enquanto ele escrevia, eu saí e fiquei a ler as informações da vitrine sobre alunos, provas e outros assuntos. Entrementes, chegou o Nelson Dibango, com a sua mochila e o seu computador portátil Macintosh. Depois da saudação da praxe, ele se dirigiu à sala e cumprimentou o M'banza. Os minutos se foram sucedendo e os companheiros foram chegando: o Nicolas, o Hata, o Nito Alves, o Arante, o Luaty, o Bingu-Bingu, o Sedrick, o Inocêncio e o Hitler. Por causa de a maioria ter chegado atrasada, os primeiros tiveram de esperar até haver um número substancial (durante o tempo de espera, o Luaty mostrou aos confrades umas embalagens dos folhetos já prontos, que usaríamos dentro de alguns dias numa campanha que vínhamos preparando, denominada “Buzina Só”). Então, por volta das 14h00, abri a sessão, mas, ao contrário do que era habitual, fiz breves considerações propedêuticas sobre os objectivos do projecto, as nossas motivações e grau de consciência com estávamos envolvidos. Feitas as prelecções, dei a palavra aos companheiros. E a aula-debate estava iniciada. Neste meio tempo, o Sedrick informou-nos de que teria de ir buscar um jovem chamado Dito Dalí, que estava à espera dele algures para que o ajudasse a chegar ao local. Os debates prosseguiram. Alguns minutos depois, chegou o Sedrick, acompanhado do Dito, que se apresentou e recebeu as boas vindas da nossa parte (apenas o Domingos e o Sedrick o conheciam presencialmente. Eu apenas o conhecia virtualmente, pois interagíamos sempre nos debates do meu mural). Ora, por volta das 14h30, tendo retomado a palavra, eis que um senhor vestido de fato adentrou na sala com as seguintes palavras sinistras: “MEUS SENHORES, DNIC! OS SENHORES ESTÃO PRESOS. NINGUÉM SE MEXA. BAIXEM AS CABEÇAS! NÃO ESTÃO A OUVIR? BAIXEM AS CABEÇAS! ”.


Armas, sim, havia muitas armas e muitos agentes as apontavam às nossas cabeças. Alguns agentes subiram nas carteiras aos gritos. Eu, muito sereno mas embeiçado por tanto aparato, olhava para eles de forma muito concentrada até que o Sedrick me pediu para baixar a cabeça e assim o fiz. Daí, já algemados, fomos todos levados para o quintal, onde ficamos sentados. Os agentes, do SIC, do SINSE (Serviços de Inteligência e Segurança do Estado) e do SIM (Serviço de Inteligência Militar) se desdobravam em diligências para saber quais seriam as próximas “ordens superiores” a cumprir. Enquanto isso, toda a área circundante ao ILULA estava praticamente deserta. Os moradores estavam todos trancados em suas residências. Poucos minutos depois, apareceu o Sr. Luís Neto Kyambata, antigo embaixador e militante do MPLA. Um dado curioso é que ele parecia estar feliz da vida.


Então, por volta das 16h00, fomos levados à Unidade de Rádio Patrulha (URP), onde nos foram tiradas as impressões digitais, fotografias e outros dados. Neste dia, a URP estava cheia de figuras do alto escalão do SIC, do SINSE e do SIM. Todas as funcionárias, isto é, todas as mulheres que lá estavam a trabalhar, foram dispensadas poucos minutos depois da nossa chegada. Neste estabelecimento, cada um de nós foi levado a uma viatura do Serviço Penitenciário (SP), acompanhado de um agente bem armado e outros. Além destes, havia cerca de 10 da PIR (Polícia de Intervenção Rápida) e cerca de outros 10 da UAT (Unidade Antiterror). Eram três viaturas: a do SP (onde estavam um “golpista” e vários agentes do SIC), a da PIR e a da UAT. Durante o trajecto para a minha residência, o agente que estava mais próximo de mim, muito calmo, mas altamente treinado (tinha uma pistola na cintura, uma no tronco e outra no tornozelo) me fazia perguntas do tipo: “tu tens duas licenciaturas, um mestrado e um doutoramento agora interrompido, és professor...por que te metes neste tipo de coisas? Não tens medo? Não pensaste na tua família?”. Eu, sereno, respondi a todas as perguntas dele e concluí: “é exactamente por pensar na minha família que decidi fazer algo, pois não quero que a minha filha cresça num país como este – quero que ela conheça uma Angola de todos e para todos...”


O bairro estava em quase estado de pânico: todos os quarteirões circundantes estavam literalmente isolados. Os agentes levaram de casa de tudo um pouco: computadores, impressora, livros - muitos livros -, telescópio, mapas, fotografias, blocos de anotações, relatórios de pesquisa, discos, drive, câmaras de filmagem etc.


Por volta das 19h00 estávamos de volta à URP, onde foi feita a “contabilidade” das dezenas de bens apreendidos – “as provas do golpe”. Já não pude ver nenhum dos meus companheiros, excepto o Hitler, todo algemado e que estava a ser levado para a sala de triagem. Concluído o processo, fui levado à sede do SIC, que se localiza na famosa 29ª Esquadra, no Bairro Popular (Neves Bendinha). Antes de entrar na cela (que tinha sido totalmente esvaziada e “preparada”), foram-me retirados os atadores das sapatilhas assim como o cinto. A cela – a famosa “cela 3” – estava escura. No chão, havia um colchão e um lençol. Deitado, fiquei horas a pensar especialmente na minha filha, recém-nascida, que na altura estava com 3 semanas de vida. Os meus pensamentos somente foram interrompidos quando comecei a ouvir o som do pesado gradeamento e da pesada porta da cela. Estava a dar entrada um agente do SINSE, que, como se tornou óbvio, fora mandado para assegurar que nada me aconteceria, inclusive evitar alguma tentativa de suicídio da minha parte.


DOMINGO, 21 DE JUNHO: e chegou o dia 21 de Junho. Os agentes do SIC e outros foram cumprimentar-me. Informaram-me que ‘o nosso advogado tinha estado na esquadra por volta das 7h00, mas sem ter conseguido ter contacto connosco’ (eu não sabia do paradeiro dos outros, só depois soube que o NitoAlves e o Luaty também estavam na mesma esquadra, em celas diferentes, claro). O oficial-dia trouxe comida dizendo que vinha da minha irmã. Recusei-me a comer. Disse eu: “só comerei se ficar provado que a comida veio mesmo da minha irmã e se o senhor for o primeiro a comer”. O domingo passou. No entanto, por volta das 22h40, o som aterrador da porta a ser aberta me fez despertar. À porta estavam vários agentes do SIC e do SINSE. “Boa noite, Sr. Nuno. Como está? ”, cumprimentou-me o instrutor do processo, o Sr. Pedro (eu não respondi à saudação). “Viemos cá para o tirar daqui e levar para um lugar seguro”, acrescentou ele. Então, o gradeamento e a porta foram abertos e, ao observar melhor o grupo de agentes, os rostos da maioria não me eram estranhos. Fez-se luz: lembrei-me que uns tinham sido meus alunos nas universidades e institutos superiores onde eu fora professor; outros tinham sido estudantes de outros cursos que interagiam comigo enquanto professor e tutor!


“Para onde estou a ser levado, Sr. Pedro? ”, perguntei. Ele simplesmente disse que eu estava a ser levado para um lugar "mais seguro". Então, já na viatura, alguns dos agentes (que me olhavam, porém, com uma simpatia estranha, como se eu fosse um extraterrestre), me disseram: “não te preocupes, estamos contigo”. Eu respondi calmamente: “não, não estamos juntos. Não adianta tentarem me consolar com conversa barata”. Quando eram cerca de 23h15, chegamos à Esquadra do Antigo Controlo”, que fica nas imediações do Grafanil, entre a Enditrade e o Bela Vista. Depois das diligências entre os agentes do SIC e o comandante da esquadra, ficou claro que eu não ficaria detido aí. “Aqui não há condições para este tipo de detido. Imaginem só se lhe acontece alguma coisa...”, disse o comandante. Então, por volta das 23h40, partimos para a esquadra da Centralidade do Sequele. A cela parecia um quarto de hotel. Toda pintada, tinha uma espécie de suíte, meios de higiene e água corrente.


SEGUNDA-FEIRA, 22 DE JUNHO: depois das saudações dos agentes, que procuraram saber se eu tinha dormido bem, fui informado de que minha irmã estava aí para me ver e ter certeza de que eu ainda estava vivo. Eles abriram parcialmente a porta e os gradeamentos e eu vi a minha irmã e acenamos um ao outro. Algumas horas depois, ouvi o gradeamento e a porta a serem abertos: eu seria levado ao procurador junto da esquadra. Quando saía da cela, deparei-me com este cenário: vários agentes, com olhares intrigantes como se estivessem diante de um ser alienígena e, mais à frente, vários agentes fisicamente possantes, que formavam um cordão de segurança em torno do procurador, que estava no seu gabinete, à minha espera. Ele, meu conterrâneo, por sinal, olhava-me com uma mistura de espanto, curiosidade e uma espécie de medo condimentado com respeito. Tinha lido quase tudo a meu respeito, até sabia sobre os detalhes da minha formação. Cumpridos os trâmites legais da praxe, o interrogatório teve início às 11h45, aproximadamente, e só terminou às 23h15.


TERÇA-FEIRA, 23 DE JUNHO: neste dia, o tempo todo foi gasto com a revisão do autos de interrogatório e a assinatura dos mesmos, que só fiz depois de ter exigido que não assinaria autos nenhuns sem que fossem exactos e sem erros.


QUARTA-FEIRA, 24 DE JUNHO: acordei por volta das 7h30. Depois das saudações dos agentes (todos eram muito gentis, incluindo os que tinham fama de serem rudes e tudo), foi-me informado para que me preparasse. Notei – pelo roncar do motor – que estava uma viatura preparada e vários agentes armados. Levei apenas água e bolachas integrais, pois o comandante da esquadra esclareceu-me que eu voltaria, que não ficaria lá um dia sequer. Ao sair da cela, uma surpresa agradável: o Hata – dono de uma serenidade extraordinária – também estava numa das celas, e eu nem sabia! Fomos levados ao vice-procurador geral da República, António Cachaca. Uma vez na 29ª Esquadra/SIC, ao ser levado para junto do procurador, encontrei-me com o M'banza, todo algemado, mas calmo e sereno. Senti um grande alívio ao saber que estava firme. Não vi os outros. Os procedimentos eram feitos sob total rigor de modo que não pudéssemos nos encontrar a não ser por contingência ou descuido dos agentes. Um dado curioso: o procurador estava de óculos escuros e falava com enorme entusiasmo ao apresentar a acusação formal a cada um de nós (éramos levados ao gabinete um a um)."Sr. Professor, tal como os outros, está a ser acusado de atentado contra o Presidente da República e outros órgãos de soberania - tentativa de golpe de Estado -; leia e assine este documento", pediu o procurador.


QUINTA, FEIRA, 25 DE JUNHO: como todos os outros dias, o tempo todo era passado na cela, excepto para tratar de questões como as que relatei acima, e eu tive de aprender a calcular as horas estudando a rotina das refeições, que eram trazidas assídua e pontualmente pelos agentes e, claro, ao avaliar a luz da abertura da porta.


SEXTA-FEIRA, 26 DE JUNHO: nada de especial. A surpresa veio no dia seguinte:


SÁBADO, 27 DE JUNHO: por volta das 11h00, recebi ordens de me preparar e arrumar todos os meus bens – 'apenas os meus' - , tais como lençóis, roupa e meios de higiene. Então, uns 30 minutos depois, ouvi o ruído do motor das viaturas. Ao sair da cela, vislumbrei a viatura do Serviço Penitenciário (SP) e, ao seu redor, vários agentes fisicamente possantes, pertencentes ao DESP (Destacamento Especial do Serviço Penitenciário), uma espécie de unidade de elite que intervém em situações de motim de reclusos, por exemplo. Ao me aproximar, deparei-me com este cenário: no fundo da viatura estava o Osvaldo Caholo (que fora detido a 24 de Junho – foram necessários vários agentes para o prenderem, já que tinham recebido orientações e ordens para terem cuidado, pois ‘ele não era um simples militar’, com treinamento militar comparável com o dos comandos, como eu próprio constatei depois). Ele estava todo algemado nos braços e nos pés; de lado estava o M'banza – todo algemado nos braços e nos pés; e o Nicolas – todo algemado nos braços e nos pés. Entrei no carro, cheio de alegria por estar entre os meus, apesar de bem presos. Cumprimentámo-nos e encorajámo-nos. Depois de bem algemado (nos braços e pés), a viatura partiu em alta velocidade. Nos primeiros instantes, simplesmente não sabíamos para onde estávamos a ser levados. A viatura não tinha qualquer tipo de abertura – não era possível ver absolutamente nada. Então, muito antes de chegar, com os palpites do M'banza, percebemos que estávamos a ser levados ao Estabelecimento Prisional de Kakila (EPK), localizado na Comuna de Calumbo e de difícil acesso, rodeado de uma imensa cintura verde. Chegámos. Confirmadas as identidades, fomos levados à sala de triagem. Deram-nos os uniformes prisionais, aqueles de cor creme. Não fomos conduzidos a celas normais. Não. Quando chegámos no EPK, as celas de 21 dias (celas solitárias) estavam a ser reforçadas. As janelas estavam a ser praticamente eliminadas, de modo que o ar apenas passava por uma pequena abertura. Eu e o Osvaldo fomos conduzidos paras celas disciplinares do Bloco A, que, tal como as outras, para onde foram encarcerados o M'banza e o Nicolas, são escuras e muito quentes. Eu não consegui dormir. O Osvaldo também não, bem como o M'banza e o Nicolas. A razão? Nas camas de betão e sem mosquiteiros, fomos picados por miruins, uma espécie de mosquitos 'gigantes', que quando picam deixam borbulhas no corpo. No dia seguinte, eu estava com o rosto cheio de borbulhas. A água tinha aspecto amarelo-castanho. Nunca a bebemos. Usada no banho, a mesma provocava grandes comichões. FICAMOS NESTAS CELAS SOLITÁRIAS ATÉ OUTUBRO DE 2015, altura em que fomos todos transferidos para o Hospital Prisão de São.

Assim foi a primeira semana de uma experiência que trouxe profundas marcas na minha vida.



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