Luanda - Na concepção das universidades modernas atribui-se importância crucial à sua infra-estrutura física, arquitectónica e urbanística, procuraremos sobre esse assunto fazer um exercício analítico para percebermos as razões que justificam a concentração dos edifícios universitários, a forma de inversão das universidades no tecido urbano e a flexibilidade indispensável às suas instalações. 
 

Como ponto de partida, trazemos a lume um dos axiomas da concentração universitária, mas não para corresponder a uma académica concepção de símbolos, apenas para cogitar o que esteve na base da “ cidade universitária”  de tipo monumentalista e que se traduz, para o caso, no esboço da cidade universitária de Luanda,  associada ao conceito de concentração universitária. Afirma-se também uma outra ideia presente nas universidades americanas de maior escala, por exemplo, a do isolamento da universidade em relação à cidade, ou seja, o princípio do «campus».
 

A este respeito, propomos um segundo axioma: a integração do conjunto universitário concentrado na cidade, em oposição portanto ao «campus».
 

Quais as razões que estavam na base, da defesa actual da concentração dos centros de ensino superior?
 

Havia uma razão de carácter social, cultural e uma razão de carácter económico. A primeira, resulta de se pretender que este conjunto de espaços continuasse num meio social, na medida em que hoje não se sabe bem como é que a formação universitária progride, se pelos corredores, Bibliotecas, Institutos, se pelas aulas propriamente ditas ou pelos intervalos de tempos de estudo de grupo e convívio, se pelos tempos de ensino rigorosamente programados. E o mesmo acontece quanto à própria projecção da universidade sobre a cidade, que se mede sobretudo pela permeabilidade que a mesma aufere da vida quotidiana na promoção generalizada da sociedade.
 

Pretende-se criar um meio social não especializado, onde se encontrem pessoas de todas as formações, que procurem na convivência uma compensação critica à atomização dos conhecimentos, à extrema especialização a que normalmente os países com uma certa firmeza intelectual  se debatem, em função das próprias pressões económicas tendentes a redução da reforma no ensino.
 

Na sua negação se fundamenta, significativamente, uma reacção contra o princípio da concentração das faculdades, que se esboça de algum tempo a esta parte. Parece-nos existir também a ideia, consciente ou não, de que certas “misturas de formações” podem tornar-se melindrosas para as mais rápidas especializações que as pressões económicas solicitam do ensino, nomeadamente nas disciplinas mais acentuadamente tecnológicas. E, consequentemente, teríamos o agravamento da oposição entre os humanistas e os técnicos, as conhecidas tendências para a alienação daqueles e para a impotência contestatária destes.
 

Outro ponto, certamente decisivo em nosso entendimento, é a importância crescente das relações interdepartamentais. Fundamentalmente, a ideia é a mesma, mas transposta para os conteúdos do ensino, bastaria reflectir um pouco, para entender a urgência da liquidação das faculdades sob forma como nós conhecemos: «um palácio onde se ensina uma coisa, ou um certo ramo de coisas». A maior parte dos conhecimentos dos últimos decénios, desenvolveram-se nos chamados terrenos «neutros», nas terras de ninguém; (neste particular gostaríamos de tributar homenagem à universidade Jean Piaget de Angola, que terá sido seguramente, a primeira à peregrinar neste domínio) a maior parte das investigações científicas fez-se fora dos limites tradicionais de cada disciplina, contudo na confluência e na interacção de varias matérias. Torna-se mais importante o que une as faculdades do que o que as separa, e esta relação deve em nosso entender fruir de uma transcrição arquitectónica. Portanto, os departamentos especializados serão precisamente aqueles que vão ficar sob maior pressão da obsolescência; portanto, pedem fronteiras móveis com facilidade de reconversão. Criar neste contexto qualquer espécie de identificação ou de separação entre aquilo que estamos habituados a chamar de faculdades, é algo que está a ser negado pela própria pratica: há ramos do conhecimento e profissões, que quase estão a desaparecer, outros há que surgem com toda a pujança, por força do desenvolvimentos dos novos ramos de produção e de novas necessidades da sociedade, criando constantemente desequilíbrios entre as formações.
 

Um caso que, por força das circunstâncias, chamará seguramente uma certa disputa em termos de escolas no pais, será a adopção pelo menos de uma licenciatura em ordenamento do território e urbanismo, se esse for o caso, no sentido de se fornecer uma plêiade de técnicos a cobrir as direcções provinciais do planeamento e gestão urbana, como é o caso concreto do  ribeirinho Instituto de Gestão Urbana , afecto ao G.P.L, ao fim de ano e meio desde a sua criação e funcionamento, ainda não corresponde às expectativas entusiastas dos seus proponentes, pelo que auguramos que o mesmo possa dentre outras coisas espevitar o subsidio de razão das varias inteligências ligadas à engenharia do tráfico,  chamando a participação de equipas multi-sectoriais, no sentido de se encontrarem alternativas para debelar a tão polémica questão das migrações pendulares que se registam de forma infernal na cidade em  Luanda particular. Parece-nos que esta polémica sobre um novo campo de estudos que aparece é perfeitamente sintomática: no fundo é a própria arquitectura (ou seja a separação física entre as faculdades automatizadas e em vasos estanques) que, de certo modo obriga a indecisão e ao conflito.
 

Importa recordar que toda a reflexão sobre a universidade, que se está a fazer no frenesi da própria acção, o mais significativo é o futuro ser uma incógnita, e não estarmos a lutar concretamente por algo muito definido, que aliás, no momento em que for conseguido, estará já ultrapassado. A arquitectura tem de responder a esta necessária agilidade, tem que ser um campo aberto, não um «congelador». Se não puder favorecer a «abertura», será pelo menos um antídoto de atritos, é esse espírito que faz com que, nos países onde o problema tem sido maduramente pensado, se procuram planear as Universidades: Não só para não gerar atrito, mas também facilitar a maleabilidade.
 

Neste sentido, fazer algures um novo edifício para uma determinada faculdade, cuja natureza se conserva intacta, significa comprometer o futuro em nome de uma convivência universitária e não a criação de brawnianismos em volta de estudantes da mesma universidade, quiçá a servir de analgésico para as relações urbanas que se deseja entre os universitários de Angola duma forma geral, porque será inquestionavelmente com as virtudes de razão de todos, unidos para uma direcção central, que faremos de Angola uma terra de futuro.
 
Um outro aspecto que milita a favor duma concentração é de carácter económico. A carência de professores, de meios de ensino, de capitais para investir na formação superior (parece-nos evidente em Angola, e a prova está em não se conseguir por vezes mobilizar recursos, no actual momento, mesmo para os mais elementares equipamentos didácticos).


É mister reconhecer-se que o sentido em que se desenvolvem as universidades é o da criação de uma imagem modelar da «cidade», o de uma participação imediata e passiva na sociedade. Por inclusão gradual nas suas estruturas, o estudante vai passando a uma outra forma de participar na vida social, cada vez mais dentro de um modelo progressivamente consentâneo, mas distinto da própria sociedade, quer dizer, que é realizada através da própria vida universitária activa: «é uma réplica da vida na sociedade em que se insere».
 
 

Cláudio Ramos Fortuna


Urbanista

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Fonte: Club-k.net



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