Lisboa - Marcolino Moco considera positiva a primeira semana da campanha eleitoral para as eleições gerais em Angola. A campanha teve início oficialmente no passado dia 23 de julho e decorre até 21 de agosto.

Fonte: DW

Natural do Huambo e antigo primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco, em entrevista exclusiva à DW África, faz balanço da campanha eleitoral e antevê possíveis vencedores.


O antigo dirigente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), acusa o Presidente José Eduardo dos Santos de concentrar em si todos os poderes e usurpar as riquezas de Angola. Marcolino Moco alerta para a necessidade de um "debate sério" sobre as autárquicas "porque tudo o resto são promessas não exequíveis".


DW África: Termina este sábado (29.07) a primeira semana da campanha para as eleições gerais em Angola. Pode-se já falar de um balanço positivo com base nos diferentes comícios realizados e nas atividades partidárias que tiveram lugar ao longo desta semana?
Marcolino Moco (MM): O balanço é positivo no sentido em que está tudo pacífico. Há apenas pequenos problemas. Aparentemente é uma campanha calma.


DW África: Há promessas como o aumento do salário mínimo para 500 dólares, implementação de poder autárquico, introdução em Angola de um Governo federal. Serão só promessas de campanha ou existe mesmo a vontade do partido que vencer para transformar Angola?
MM: Infelizmente nós, africanos, imitamos o estilo ocidental de eleições, o estilo ocidental de legislação e vida, quando efetivamente as nossas condições deveriam servir para os políticos africanos refletirem um pouco e se mobilizarem para servir efetivamente os Estados que dirigem ou pretendem dirigir, antes de imitar essas formalidades. Penso que a questão é que os nossos Estados ainda não estão verdadeiramente estruturados. O debate sobre o federalismo é pertinente, na medida em que não somos Estados que supervisionam vários povos. O facto de nós não atendermos a esta realidade tem tido más consequências. Mas o problema é que esse debate está a ser introduzido por um partido de pequena dimensão.


A questão das autárquicas também é importante porque é uma questão estrutural que ajudaria a minimizar a existência de um Estado altamente centralizado, que serve uma minoria que está no poder, quando nós temos uma realidade múltipla. Uma das coisas que tenho criticado o Presidente José Eduardo dos Santos é essa apetência de ele centralizar tudo, desde o Estado, até ao município e à comuna. Acho que seria interessante que esse debate sobre as autárquicas fosse mesmo sério, porque tudo o resto são promessas não exequíveis, numa estrutura de Estado como esta que temos, dominado pela corrupção aberta.


DW África: Essa é a opinião de um intelectual muito atento à situação do seu país, Angola. Mas considera que a população angolana acredita verdadeiramente nos conteúdos dos manifestos partidários em tempo de eleições?
MM: Não direi que as populações não querem saber. Há um setor minoritário que se entretem com esses programas. No nosso país e nos países africanos o que devia merecer mesmo atenção são as atitudes dos governantes ou daqueles que fazem promessas para ser governantes.


DW África: Considera que as eleições sem a presença de observadores internacionais, nomeadamente da União Europeia (UE), os resultados serão credíveis?
MM: A UE participou nas eleições anteriores. O Governo angolano, como era de esperar, faz tudo para que não se incentive esta observação ou, mesmo que se incentive, não tenha qualquer efeito útil. Depois, atualmente, a ideia de soberania praticamente bloqueia qualquer influência de instituições ou instâncias externas. Portanto, a participação da UE nada poderá alterar. Nas eleições anteriores, observadores como da União Africana e da UE limitaram-se a aceitar os resultados, apesar de terem visto as irregularidades, sendo que a primeira irregularidade é aquela que acontece ao longo do mandato: a usurpação das riquezas do país pela família do Presidente e por dois ou três indivíduos que trabalham com ele.


DW África: Como é habitual em períodos eleitorais, o que não falta são estudos de opinião e sondagens. Há uma sondagem que parece estar a causar um certo celeuma, e coloca a Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE) e o seu líder, Abel Chivukuvuku, na segunda posição de intenções de voto, antes mesmo da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), mas depois do MPLA. Pensa que esta tese tem pernas para andar ou será uma hipótese muito remota a CASA-CE posicionar-se em segundo lugar em Angola?
MM: Acho perfeitamente possível porque há uma camada de pessoas que está a atingir agora a maioridade e mesmo entre adultos também há esperança na novidade e a CASA-CE é a novidade. Angola foi dominada durante vários anos por partidos tradicionais. A Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) foi inviabilizada pelo sistema, mas temos partidos tradicionais como a UNITA e o próprio MPLA. Segundo essa sondagem, o MPLA também vai perder o eleitorado para a CASA-CE. Não admira que a CASA-CE possa ultrapassar a UNITA.

 

 



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