Luanda - A Feira Internacional de Luanda (Filda) teve sempre a particularidade de se revelar não apenas como uma montra mas, essencialmente, como o reflexo da economia angolana. Ano após ano, a feira se tem posicionado como uma espécie de barómetro económico de angola: quando a palavra de ordem foi a aposta na produção nacional, lá estavam os reflexos na feira; quando a aposta foi a captação do investimento estrangeiro, lá estavam os sinais devidamente reflectidos no certame.

Fonte: Club-k.net

Depois de um interregno de um ano, a Filda voltou, finalmente, ao contactado com a comunidade empresarial. Durante quatro dias, entre 26 e 30 de Julho, cerca de 200 empresas, segundo os números da organização, reuniram-se num certame que, não há muito tempo, era conhecido como a maior bolsa de negócios de Angola.

O que aí se viu, porém, foi apenas uma minúscula parte do passado da feira. A começar pelo local. Desta vez, a bolsa foi transferida do seu habitat natural, o recinto Filda no Cazenga, para a marginal de Luanda, de menor dimensão e sem as necessárias condições, apesar do evidente esforço cosmético dos expositores. Depois pela composição do catálogo de participantes. Aquilo a que aos visitantes foi dado a ver representou um retrocesso num evento que, certamente, já teve dias melhores.

Noves fora os aspectos meramente organizativos, o conjunto de empresas que aí se exibiram demonstrou uma faceta decadente da economia angolana. Desde o número de expositores manifestamente inferior, apenas 200 empresas quando a edição anterior teve perto de 900, à origem de quem tenha ousado participar, a feira proporcionou-nos uma visão algo preocupante do estado da economia.

Quem visitou o evento não se vai esquecer, por exemplo, do gigantesco camião/stand da cervejeira Cuca, onde, ao mesmo tempo que se tocava, a alto e bom som, uma rapsódia de kuduro, vendiam-se litros e hectolitros de cerveja mesmo ao lado de empresas de referência no País, conferindo ao evento um ambiente excessivamente festivo, inapropriado, até, para a prática de negócios que, afinal, constitui o core da organização da feira internacional de Luanda.

Dir-se-ia que o retrocesso foi tal que, do estatuto de feira comercial, houve um regresso ao tempo das feiras populares, aquelas em que as exibições de empresários sequiosos por trocas comerciais eram interrompidas, com regularidade, pela percussão estonteante e estridente da música popular e da zunga de visitantes mais interessados em angariar brindes que propriamente fazer negócios.

Daquela feira, de reputação internacional, e que já levou, como quem leva água ao seu moinho, dignatários estrangeiros em dignificantes visitas, não se viu absolutamente nada, além de duas centenas de expositores apertados no calçadão da marginal, sem poderem fazer negócios como tal.

Perante tão paupérrimo evento, a imagem da economia angolana não poderia ter ficado pior na fotografia. Sem grandes inovações, do ponto de vista de negócios para mostrar, o que ficou patente foi o momento actual de retrocesso, de retracção no investimento estrangeiro, por demais evidente na referência, feita pela própria organização, de que 70 por cento dos participantes eram empresas nacionais.

No passado, acontecia justamente o inverso: quando foi hora de se apelar ao investimento estrangeiro, lá estavam as chancelarias internacionais, as multinacionais e toda a sorte de actores das relações internacionais amplamente desejosos de fazer negócio em Angola, participando da feira em número bem maior que as empresas nacionais.

Agora, vimos uma Filda reduzida aos negócios de sempre: à banca, às telecomunicações e, nalguns casos bem reduzidos, ao sector petrolífero, além de representações institucionais e de umas quantas arraias miúdas que conseguem sobreviver neste agreste panorama económico. Da política de diversificação da economia, da política de atracção de investimento estrangeiro, nada, mas nada mesmo, ficou patente.

Houve ainda pelo meio, claro, a deprimente cerimónia de premiação, em que foram destaque empresas como o Banco de Poupança e Crédito (BPC), ou como a Sonangol que, mesmo tecnicamente falidas, receberam os anteriormente mui cobiçados leões de ouro, assim como foi imerecidamente galardoada a Empresa Pública de Águas de Luanda.

Viu-se, de resto, um quadro dantesco, perante o qual o mais razoável era, justamente, não organizar um evento como aquele, aguardando-se, então, pelo momento certo para que a Filda decorresse com a pujança, o prestígio e a credibilidade que já granjeou fora e dentro de Angola.

*Economista



DEBATE NAS REDES SOCIAIS:




DEBATE NO ANÓNIMATO: