Nunca é demais dizer que também não vejo nada de criminal nas declarações da Secretária Geral do SJA. Indo mais longe, não só concordo com a questão da incompatibilidade, como acho que há também uma outra questão de ordem ética uma vez que a Deputada tem interesses económicos nas empresas privadas que gerem o canal 2 da mesma estação televisiva. E espero sinceramente que a Deputada não me vá processar por expressar esta humilde opinião...

Ainda assim, a Deputada tem todo o direito de recorrer às estâncias judiciais quendo se sinta lesada. Fazendo isso dá até um bom exemplo de cidadania, uma vez que é assim que desejávelmente se devem resolver os diferendos. Afinal ela é tão sómente Deputada, empresária ligada económicamente ao órgão em questão – a tal questão ética – e, sobretudo filha de um Presidente em relação ao qual estratos significativos da sociedade últimamente manifestam-se preocupados devido a uma percebida demasiada concentração de poderes em volta da sua pessoa – o tal eduardismo. Tudo isso é que torna o assunto tão badalado. Se a Deputada mediu ou não as implicações políticas e de imagem desta sua atitude, é o que os próximos tempos irão demonstrar. Para já, cabe-lhe a honra de ser a primeira política no nosso País a desafiar frontalmente um estrato importante – se não o mais emlemático – da classe jornalística, o que poucos avisados fariam no mundo inteiro.

É que é políticamente um acto no mínimo arriscado – alguns diriam quase suicida – processar judicialmente a liderança de um sindicato. Fazê-lo a um sindicato de jornalistas seria quase inimaginável para um(a) dignitário(a) que depende em cem por cento do voto popular como um(a) Deputado(a), essencialmente representante do Povo. Mesmo com a protecção de uma figura com a influência de José Eduardo dos Santos – que fica numa posição de certo modo incómoda no meio disso tudo – esse é um acto que demosntra ou uma coragem quase temerária, ou uma inexperiência nestas lides que brada aos céus.

Nem os analistas mais ousados imaginaram quando escalpelizavam a forma particularmente leonina como JES mantém a sua supremacia política, que o vendaval que abanaria o sistema partiria precisamente de um dos seus rebentos. No entanto, isso era perfeitamente previsível, tendo antes acontecido com Joaquim Chissano em relação ao filho Nympine (Deus nos livre de Tchizé algum dia chegar, longe que seja, das traquinices desse filho do ex-PR de Moçambique). É que, embora JES possa exonerar quase todos os titulares de cargos públicos, não pode exonerar a sua filha dessa categoria. Zangue-se como quiser, no final terá que retornar ao ponto de partida e a filha continuará isso mesmo: filha. Se pode sujeitar os deputados do seu partido a uma férrea dsciplina através da direcção da bancada e da própria presidência da AN, a Deputada Tchizé dos Santos pode fácilmente saltar por cima destas estruturas e ligar directamente com o PR, o que obriga os referidos superiores a um exercício de cautela, não vá o Diabo tecê-las. Os correligionários políticos de JES podem em certos momentos e por tempo indeterminado verem-se-lhes negado o acesso ao Chefe, o que não acontece com Tchizé por ter também a sua disposição a via familiar. Tudo isso d­á-lhe um espaço de manobra que, convenha-se, nenhum outro político do partido no poder possui, nem mesmo os mais próximos colaboradores de JES.

Pode ser em resultado disso que a Deputada – que é das mais novas no Parlamento, com traquejo político proporcional à sua idade – acaba sendo uma das vozes mais audíveis, muito ampliada na media pública, seja relevante ou não o que diga. Pode também ser por via disso que a sua actuação como política atinge as raias da temeridade, consubstanciada em aceitar ser nomeada por um ministro que era suposto ela fiscalizar; intervir como deputada numa área em que tem interesses económicos; e declarar guerra nos tribunais contra a mais representativa – para não dizer a mais poderosa – das associações de jornalistas do País.

Os estragos de um julgamento dessa natureza – sinceramente não acredito que JES permita que a “brincadeira” chegue até aí – podem ser de uma amplitude devastadora para a imagem do PR, do seu partido e do país em geral. JES não se saiu nada bem da acção judicial contra Rafael Marques, pelo contrário. Criou um “herói” prontamente aproveitado pelos lobbies anti-Angola na altura para assacar acusações de abuso de poder, atentado à liberdade de imprensa, abuso dos direitos humanos e quejandos. O julgamento de Miala foi o barraco que foi.

A última coisa que faltava ao PR seria mais um julgamento, desta vez não contra um jornalista em particular, mas quase toda esta classe, protagonizado por uma das próprias filhas.

Uma outra questão prende-se com o famoso discurso – com laivos de mea culpa – proferido pelo PR perante Bento XVI e onde apontava como um dos maiores desafios para o país a separação dos negócios públicos e privados. De facto, à Deputada é atribuida a propriedade de uma das empresas – a West Side Investments – que em parceria com a Semba Comunicações do seu irmão gere o canal 2 da TPA. Sendo que a adjudicação do referido canal já levantou a celeuma que levantou, seria pouco prudente da parte da Deputada fazer parte de uma das comissões – será que aconselhou-se com a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar antes? – que decidirá se a TPA pode ou deve ser gerida por uma entidade pública, o Estado, ou privada, ela própria. A essa incompatibilidade de foro ética não há como a Deputada fugir, mais a mais numa altura em que notícias de parlamentares a serem obrigados a devolver dinheiros públicos usados indevidamente na Grã Bretanha correm Mundo. Voltando ao discurso do PR, haveria assim causa para dizer que o PR tem primeiramente necessidade de pôr ordem em casa no que a tal mistura dos negócios públicos e privados diz respeito...

Em resumo, o PR fica realmente numa posição bastante incómoda. Ou protege a filha da sua própria imprudência – leve-se em conta que a filha agora é adulta, vacinada, figura pública e sujeita ao crivo da opinião pública pela natureza das suas funções, correndo o risco de ser acusado de proteccionismo – ou deixa-a atirada às feras, os jornalistas no caso, num processo que pode expôr aspectos particulares da sua vida o que JES particularmente detesta. Seja qual for o caminho que decida tomar, uma coisa terá que fazer de certeza: diminuir o cumprimento da rédea à fogosa e irreverente filha. E de esquebra, chamar a atenção aos seus colaboradores, Ministro da Comunicação Social incluido, que o Presidente da República é ele e não qualquer outra interposta pessoa, incluindo os seus filhos... e filhas.

Em nota de rodapé; não posso terminar sem expressar a minha simpatia ao cidadão JES enquanto pai de Tchizé. Os filhos são isso mesmo, dão imensas alegrias, descontando algumas chatices de vez em quando. Assim aprendem na vida: errando, e só não erra quem nada faz. Portanto... a luta continua!

Fonte: SA



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