Lisboa – Luís Alexandre tem 54 anos. Antes de entrar para a Polícia esteve nas Forças Armadas, em 75/76, na 8ª Brigada Militar em Cabinda, como Chefe de Equipamento e Instalações. Depois, passou a Polícia Económica, no Ministério do Interior. Foi chefe de informática da Polícia durante 16 anos tendo se seguida ficado como Coordenador da Comissão de Gestão do Cofre da Polícia Nacional, onde está desde 2005, tendo sido eleito pela primeira vez em 2007: vai no terceiro mandato.
                     “Sou um homem de grandes desafios”
Fonte: Vida Judiciária & RSA LP
É licenciado em Economia, pela Universidade Agostinho Neto, na especialidade de Gestão, tem uma Pós-Graduação em Previdência Social, um MBA em Finanças e Negócios, e é mestrando em Gestão e Governação Pública. É especialista em Fundos Imobiliários. É casado, e tem dez filhos. “Sou feliz, ter uma família grande é interessante. Estão encaminhados e por isso estou satisfeito também. Sou um homem de grandes desafios”.

O Presidente do Cofre de Previdência do Pessoal da Polícia Nacional de Angola, Comissário Luís Alexandre, explica o modelo de funcionamento da instituição que dirige e qual a sua visão para o futuro da mesma. Acredita ainda que um subsistema  de previdência como aquele que está a ajudar a implementar, embora não substituindo o Estado, pode ser um importante fator de promoção do bem-estar social no país

Quantas pessoas abrange o Cofre da Previdência?
Temos cerca de 115.000 associados inscritos e cerca de 70% deles têm os dados pessoais corretamente inseridos numa base de dados. O restante está em papel e estamos a inserir informaticamente os dados na base de dados.

Esse número faz do Cofre a maior associação mutualista de Angola, correto?
Neste momento sim. Mas nós estamos a dar assessoria técnica a associações mutualistas que não estão criadas ainda. Temos lá quadros de todos os ministérios a consultarem-se connosco e neste momento acabámos de montar o Cofre de Previdência dos professores e montámo-lo do nada, do início ao fim. Neste momento já funciona e está a ter uma divulgação muito grande. Já assegurámos também o Cofre dos serviços de justiça, e temos estado em contacto com a alfândega; temos, portanto, alguma experiência acumulada.

Portanto, o vosso conhecimento permite-vos ajudar a constituir novos Cofres de Previdência noutras áreas, no país?
Sim. Temos ajudado a constituir Cofres, por exemplo, em cinco ou seis ministérios – Petróleos, Ambiente, Defesa, Saúde, Educação.

Quais são as prioridades do Cofre?
As prioridades neste momento são continuar a atender o que são as necessidades prementes. Sentimos que os nossos associados, depois de 30 anos de guerra, precisam de uma casa condigna, é uma das prioridades. Assim, é nosso objetivo mobilizar fundos através dos bancos para continuar a construir casas. Não queremos substituir o Executivo, mas queremos dar a nossa contribuição e temos estado a dar. Uma outra prioridade é dar empréstimos através de um projeto de microcrédito que acabámos de lançar. Queremos também assegurar questões ligadas à saúde, pelo que estamos à procura de parceiros nesta área para que possamos fazer seguros de saúde e de vida. Desta forma, começámos a trabalhar com uma corretora que para garantir essa segurança. Estas são, portanto, as três maiores prioridades.

Conseguem abranger já quantas pessoas?
Em termos de empréstimos temos vindo a prestar apoio desde 2007 e já atendemos um universo muito grande, a nível nacional. Por isso mesmo, deixou de ser o cofre a dar empréstimos diretos, passamos a dar os empréstimos através de uma instituição de crédito que fomos “forçados” a criar porque a demanda foi crescendo. Estamos agora a fazer toda a montagem para que arranque dentro de um ou dois meses. Já temos autorização do Banco Nacional de Angola e neste momento estamos a nomear o Conselho de Administração para que as coisas avancem.

Afirmou recentemente que está a ser montado um novo modelo de previdência social. Em que consiste?
O modelo de segurança social, pelo menos o clássico que encontramos a nível de Cofre, era apenas na perspetiva de garantir a reforma complementar, mas, neste momento, estamos a trabalhar no sentido de criar fontes de receitas que, por um lado, possam potenciar o Cofre, e por outro lado possam ir atendendo aquilo que são as preocupações dos associados. Falava eu da questão da habitação, dos empréstimos, da saúde, do próprio emprego para o órfão, para a viúva - nós temos estado a empregar os nossos órfãos e viúvas nesses projetos do Grupo C, que são projetos paralelos à atividade do Cofre. O Grupo C não é um Cofre, mas um “business” puro onde o Cofre participa. Ajuda o Cofre a atender a demanda que existe. O Cofre está aí para, em primeira instância, garantir a reforma complementar, mas também entendemos que existe para resolver ou atenuar outras situações, por isso é que entendemos criar um grupo empresarial e temos todo o interesse em fazer parcerias internacionais, que possam apoiar no sentido de irmos resolvendo uma série de situações. Angola está por nascer e que tem de se fazer tudo do zero havendo um leque de oportunidades de negócio. Assim sendo, entendemos que para aqueles investidores internacionais que estão atentos, nós podemos servir como uma porta para investimento em Angola e por isso criámos o Grupo C.

Quando foi criado o Grupo C?
Em 2011.

Quantas casas já foram construídas?
Neste momento temos mais de 1000 casas construídas, tendo sido entregues entre 600 e 800 casas, mas temos já preparadas, em termos de terrenos e de projetos, cerca de 11.000 casas. Precisamos de investidores que queiram fazer rotação dos seus fundos. Todos esses terrenos estão já legalizados e preparados para que se comece a construir.

Quem são os atuais investidores?
Neste momento trabalhamos mais com a banca local, com algumas restrições naturalmente. Mas o nosso interesse é encontrar grandes investidores internacionais, grandes fundos, para que possam, eventualmente, ajudar a alavancar. Mesmo no microcrédito, que é uma área muito interessante nesta altura, e nós precisamos de uma alavancagem financeira. A área de construção também, não obstante Angola estar a viver um momento não muito agradável, mas acredito que em breve iremos ultrapassar essa situação. Nesta altura pode-se investir, não na perspetiva de investir e retirar os lucros o mais depressa possível, mas antes numa perspetiva de médio-longo prazo, dessa forma acho que a altura é esta. O Kwanza tem neste momento algum valor, valor interno, a nível externo é que está um bocadinho degradado – se falarmos de Kwanzas para comprar dólares está um bocado complicado, mas Kwanzas para investimentos internos a altura é boa.

Já têm alguns fundos em perspetiva? E ao nível da Lusofonia, há algum interesse?
Estão a ser estabelecidos contactos. Sabemos que muitos investidores vão para Angola, querem tentar e não são direcionados e vão para lá sem saber por onde começar, em quem apostar em termos de investimento e nós estamos aqui, criámos uma plataforma que acredito que seja segura, só pelo facto de estar ligada a um fundo como é o do Cofre de Previdência da Polícia Nacional, que pode dar a necessária segurança para o que o investidor também se possa sentir seguro. Temos conhecimento de que há fundos bons a nível internacional, com liquidez suficiente, e é nosso objetivo que esses fundos se interessem por Angola.

Falou do objetivo de criar fontes de receita, como é que isso pode ser concretizado?
Através dos investimentos. Em tempos, tivemos um projeto de um centro logístico, que acredito será o maior de Angola e daquela região, que começou mal, mas estamos a corrigir todas as situações que surgiram. É um investimento muito interessante: é um centro logístico que prevê outlets, escritórios, todas as áreas que o investidor precise para que se possa sentir suficientemente apoiado para fazer o seu investimento em Angola. É um centro logístico que promete porque a experiência que tivemos foi positiva. Queremos investidores, queremos escoar grande parte da produção que haja cá e que não tenha escoamento, há fábricas na Europa que pararam de fabricar porque não têm escoamento, fábricas que foram à falência porque não têm mercado e em Angola há mercado, não só angolano como da própria região. A nossa perspetiva é potenciar aquele centro logístico para que possa escoar tanto para Angola como para a própria região de África. Precisamos é de dinheiro, de facto, para trabalhar, uma vez que há a necessidade de quase tudo, a demanda é muito grande. Precisamos de fábricas, de produtos já acabados, de quase tudo o que se possa imaginar. Quando venho à Europa e vejo fábricas com produção por escoar … se pudéssemos criar um canal direto seria uma solução. Mas os mecanismos podem ser criados desde que haja interesse e nós andamos à procura desse interesse.

Começou no Cofre em 2005. Quais eram os objetivos quando começou?
Sim, comecei em 2005 como Coordenador na Comissão de Gestão. Os objetivos foram alcançados e até atingimos objetivos que estavam fora daquilo que eram as nossas perspetivas. Não obstante termos sido um tanto ou quanto “prejudicados” por falta de liquidez porque algumas das nossas quotas não nos chegaram às mãos, mas conseguimos de forma muito rápida trabalhar com os bancos e superar essa lacuna. Para quem conheceu o Cofre em 2005, e porque nessa altura quase que não existia, estava na falência absoluta uma vez que sofreu os efeitos da guerra, de 30 anos, da troca de moeda, da inflação, havendo na altura uma gestão conservadora pelo que o resultado tinha de ser este. Na altura, herdado do tempo colonial, havia três edifícios, e um bairro residencial de 20 casas. Hoje temos oito edifícios construídos, adquirimos outros dois, três bairros residenciais, e o projeto do Grupo C: houve uma viragem muito grande. Em termos de números, ainda sem inflação, encontramos um Cofre com ativos totais de cerca de 80 milhões de dólares, enquanto hoje temos mais de 700 milhões, mas estamos a falar apenas do valor atual. Se estivermos a falar de um valor futuro falamos de um Cofre com mais de mil milhões, com todo o património existente. Agora estou no meu último mandato e vou procurar concentrar-me um pouco mais na formação de pessoal para que possa criar uma estrutura que me dê a segurança de quando eu sair possa continuar a desenvolver.

Quando acaba o mandato?
Iniciei em agosto e são mandatos de quatro anos. Estou no terceiro mandato e o estatuto não deixa voltar a candidatar-me a não ser que os associados assim o entendam.

Têm apoios financeiros do Estado?
Até agora não, mas já somos reconhecidos como uma instituição de utilidade pública, que é um grande ganho, e acredito que a partir do próximo ano possamos ser apoiados pelo Estado. Mas o apoio poderá ser concretizado não apenas através de uma quota financeira eventual, mas também através de um apoio eventual como uma garantia soberana. Se houver necessidade acredito que tenhamos esse apoio.

Ao nível da lusofonia, houve contacto com entidades semelhantes?
Não, mas já tivemos contacto com o Cofre de Previdência da Polícia de Espanha, há cerca de três meses. Cá, tive um contacto muito rápido mas que não se desenvolveu ainda, mas daqui a pouco tempo talvez possa voltar para vir “beber” mais alguma experiência. Esse intercâmbio é importante para que possamos ir aprendendo uns com os outros. Estamos abertos para, em breve, encetar contactos com os cofres de Portugal.

Em Angola, o Cofre funciona em todo o país?
Sim, em todo o país. Há muito trabalho a ser feito, com poucos recursos. Isto tem estado a impedir nalguma medida a nossa ação, o nosso crescimento e desenvolvimento. Os projetos existem, a grande dificuldade é alavancar tudo isto, precisamos dos tais fundos, que podem trabalhar com os bancos que nos conhecem. Neste momento temos algumas delegações já construídas, como Namibe e Bié. Mas temos representações nas províncias todas, umas em instalações próprias e outras não. A intenção é, de facto, estarmos representados a nível nacional. Mas há um facto que não posso deixar de sublinhar, que é termos terrenos em quase todas as províncias, com 30, 40 hectares, preparados para receber obras de grande envergadura, e nalgumas são 50 hectares. Temos também os associados prontos para compra de casa, através dos seus salários. Precisamos de montar um crédito à habitação através dos bancos, precisamos que um fundo possa garantir este investimento nesta perspetiva.

Os associados são todos polícias?
Polícias e civis que trabalham na polícia.

Portanto, resumindo o que disse há pouco, o investidor terá boas perspetivas se investir a médio-longo prazo.
Tem que se deixar de ver Angola numa perspetiva de curtíssimo prazo e parte dos investidores que para lá vão têm essa perspetiva. Eu acho que não é uma boa perspetiva, mas sim de média-longo prazo. Angola é de facto um país onde se pode trabalhar e ganhar. Ganha-se bastante porque há consumo. Angola tem um poder aquisitivo bastante razoável. Acho que o que conta num país é a população, e Angola tem mais de 20 milhões de habitantes, e o poder aquisitivo, que também tem o que permite a alavancagem de negócios. A grande vantagem é que Angola é um país abençoado em termos de recursos naturais, petróleo, diamantes, boa terra para agricultura, água… Em termos legais, as coisas começam a mudar. A própria legislação na área do investimento, há uma nova lei que facilita a vida ao investidor. Por isso acredito que se as pessoas estiverem interessadas há grandes oportunidades de negócio em Angola.

Acredita que um subsistema como o que expôs possa ter futuro?
O sistema macro é o Estado, que funciona e tem responsabilidades sociais. Mas por baixo disso podemos criar subsistemas que funcionem. Por isso mesmo é que dizemos que queremos criar uma nova visão de Previdência: criar um subsistema que funcione. O polícia ao ter a garantia de uma casa, ao ter o seu empréstimo, ao ter um espaço onde possa ir comprar a preços bonificados, controlados, a mobília para casa, os seus bens essenciais e ter garantido que se deixar este mundo a mulher possa ser integrada imediatamente (e já o fizemos), um seguro de saúde, de vida, vai dar-lhe mais conforto e mais motivação. Nesta senda, criámos um prémio que premeia o melhor polícia nas várias áreas de especialidade. São formas que encontrámos de elevar o nível cultural do polícia. Se isto for funcional e for apoiado teremos à partida a evitar grande convulsões sociais. Mas temos de perceber a forma como o angolano gosta de estar, o angolano trabalha para o futuro, mas também para o presente e gosta de uma boa festa, de comer, beber e de juntar a família. O modelo que estamos a montar prevê uma interação permanente com o associado. Ele está a descontar para o futuro, mas pode começar a beneficiar dele agora, através de quê? Através de um empréstimo bonificado, de uma casa, de um colégio para o filho, de uma universidade (e estamos à procura de parceiros). Este é o modelo que defendemos.

 



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