A intentona fracassou e, em resposta, o Estado desencadeou uma onda de repressão que, de tão desproporcional, deixou sequelas que permanecem até hoje. Uma dessas sequelas, quanto a mim, é a dificuldade da actual direcção do MPLA – que, obviamente, nada tem a ver com a direcção daquela época – em abordar este tema, como se tolhida por um irremediável “complexo de culpa”.

Devido a esse estranho silêncio, assiste-se, ano após ano, a uma clara tentativa de revisionismo desse trágico episódio da história angolana recente. Declarações, artigos, livros são publicados, sobretudo no exterior do país, mostrando – e, muitas vezes, exagerando comprovadamente – apenas um dos lados do referido acontecimento. Até a literatura tem sido usada para o retratar (de forma parcial), curiosamente por alguns autores que dizem não gostar de “literatura política” (embora a façam, quando lhes convém).

Participam nessa autêntica “operação” (vou ignorar os “historiadores-activistas” portugueses) desde vítimas da repressão que se seguiu à tentativa de golpe de estado, 31 anos atrás, até alguns membros da actual oposição angolana que, na altura, foram perseguidos e presos a mando de Nito Alves. Não esquecer que este, como membro do Bureau Político do MPLA e ministro do Interior, chegou a ter muito poder. Sabe-se, por exemplo, que foi ele que inviabilizou um entendimento que estava a ser discutido entre a direcção do referido partido e a designada Revolta Activa. O grande nacionalista Joaquim Pinto de Andrade, falecido este ano, só não foi preso por pressão do próprio presidente Agostinho Neto.

Essa tentativa de revisão da história do 27 de Maio chega ao ponto de manipular o número de vítimas provocadas pela repressão estatal. Todos os anos, esse número aumenta, sem que sejam exibidos dados que os comprovem. Considero essa estratégia particularmente macabra e perversa. O número de vítimas – muitíssimas delas injustificadas – já foi tão grande, que não precisa de ser empolado, para dar à tragédia toda a dimensão que ela realmente teve.
Eu testemunhei de perto esses factos. Como jornalista, estive envolvido, nos meses anteriores ao 27 de Maio de 1977, na intensa luta ideológica travada no país, escrevendo regularmente os editoriais da Rádio Nacional de Angola que criticavam e denunciavam o chamado “nitismo”. Por isso, Nito Alves referiu-se a mim nas suas famosas 13 Teses como um “perigoso maoísta” (?) a abater, o que me levou, no dia da intentona, a esconder-me em casas de amigos e familiares. Tenho, pois, legitimidade para falar deste assunto.

A minha tese é que é imperioso diferenciar o 27 de Maio e o “28 de Maio”. No dia 27 de Maio de 1977, houve uma intentona – os golpistas queriam que se tratasse de uma sublevação popular, mas, como reconheceu um deles, “as massas não saíram” -, tendo Nito Alves e o seu grupo sido responsáveis pelo assassinato de alguns dos mais brilhantes dirigentes políticos da altura. No dia seguinte, o Estado desencadeou uma intensa repressão que, sendo legítima à partida, se transformou rapidamente num momento de excessos, arbitrariedades e oportunismos, de consequências muitas delas irreparáveis. O país perdeu uma plêiade de jovens talentosos que poderiam, hoje, ser muito úteis à nação, como o estão a ser aqueles que, felizmente, foram salvos da voragem que varreu Angola na altura.

Estes são, em síntese, os factos, cujas motivações, entretanto, não tenho espaço para discutir aqui. Portanto, ou todos os actores neles envolvidos, quer num lado quer no outro, os reconhecem, assumindo cada um a sua parte, ou será extremamente difícil superá-los. Enquanto isso, a mistificação continuará à solta.

Destaque “Todos os actores envolvidos no 27 e no ‘28 de Maio’ devem assumir a sua parte”

Fonte: Jornal de Angola



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