Lisboa - Martin Fayalu (na foto), e não Félix Tshisekedi, como proclamado, venceu as presidenciais na República Democrática do Congo (RDCongo), segundo os dados das estações de voto eletrónico utilizadas nas eleições, a que o Financial Times teve acesso.

Fonte: Lusa

Dados provenientes das estações de voto eletrónico utilizadas nas presidenciais da RDCongo, correspondentes a 86% dos votos escrutinados em todo o país, a que o diário britânico teve acesso, mostram que Fayalu obteve 59,4% dos votos, contra uns muito distantes 19% dos boletins escrutinados a favor de Tshisekedi e 18% dos votos recebidos por Emmanuel Shadary, o terceiro candidato mais votado, delfim do Presidente cessante, Joseph Kabila.

 

O Financial Times (FT) comparou estes dados com os resultados contabilizados manualmente pela influente Igreja Católica, que deslocou 40 mil observadores para acompanharem a votação, e concluiu que os "dois conjuntos" de votos se "correlacionam quase exatamente" e, segundo "especialistas" a que se refere, seria "quase impossível" terem sido falsificados.

 

Estes dados comparam com os resultados anunciados pela comissão eleitoral da RDCongo (CENI) no passado dia 10, que dão a vitória a Félix Tshisekedi, com 38,5% dos votos escrutinados, contra 34,7% dos votos obtido por Martin Fayalu e 23,8% dos votos escrutinados a favor de Emmanuel Shadary, numa eleição que registou uma taxa de participação de 47,6% dos eleitores registados.

 

Segundo os resultados a que o FT acedeu, Fayulu recebeu mais de 9,3 milhões de votos, mais 3 milhões do que aqueles anunciados pela CENI, e venceu em 19 das 26 províncias do país, incluindo a capital, Kinshasa, e as muito populosas províncias do norte e sul do Kivu.

 

Tshisekedi recolheu 3 milhões de votos, segundo o FT -- menos de metade dos 7.051.013 anunciados pela CENI -, enquanto Shadary obteve 2,9 milhões de votos, cerca de 1,5 milhões de votos menos do que os anunciados pela comissão eleitoral.

 

O diário sublinha que o ficheiro de dados a que teve acesso se refere a 15,7 milhões de votos de um total de 18,3 milhões de votos registados nas eleições de 30 de dezembro, "mas os votos em falta não poderiam resultar num vencedor diferente".

 

De acordo com os dados recolhidos pela Conferência Episcopal (CENCO) - que colocou em causa os resultados anunciados pela CENI imediatamente após a sua divulgação -, representando 43% da taxa de participação e correspondentes à contagem manual em 28.733 estações de voto, Fayulu obteve 62,8% dos votos dessa amostra.

 

Foram utilizadas 7.886 mesas de voto para a contagem paralela da CENCO, de acordo com informações prestadas pelo seu presidente, Marcel Utembi, ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em 11 de janeiro último, que garantem, ainda segundo o bispo de Kasangani, "uma margem de erro de 1% e uma margem de confiança de 95%".

 

O ficheiro de dados obtido pelo FT corresponde aos votos registados em 62.716 máquinas - que segundo a fonte do diário britânico foram obtidos pela CENI antes de os resultados serem apresentados -- e a sua análise permite perceber uma correlação "quase perfeita" com os dados recolhidos pela Igreja Católica. O coeficiente de correlação dos dois conjuntos de dados varia entre 0,976 a 0,991 para cada um dos três principais candidatos, sendo que 1 representa a correlação perfeita.

 

A comissão eleitoral do Congo introduziu pela primeira vez nestas eleições a utilização do voto eletrónico, com o argumento de que o sistema permitiria reduzir os custos da operação. O sistema não foi testado, e foi desde cedo colocado em causa por Martin Fayalu.

 

As máquinas imprimiram boletins de voto que foram escrutinados pelos membros da CENI, representantes dos partidos e observadores na noite das eleições, mas as votações foram também armazenadas em ficheiros eletrónicos.

 

São estes dados que podem constituir um trunfo importante a favor de Fayulu na análise do recurso que apresentou ao Tribunal Constitucional da RDCongo, que hoje começa a analisar os resultados provisórios das presidenciais de 30 de dezembro.

 

 



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