Luanda -  No início da minha carreira profissional fui escolhido para fazer uma especialização no estrangeiro. O grupo de jornalistas seleccionado foi recebido por dirigentes do MPLA para a área da Informação e entre eles estava Fernando Costa Andrade Ndunduma. Ele disse coisas que na época podiam ser consideradas polémicas, mas avisou que o fazia por respeito aos jovens que partiam numa missão de qualificação profissional e falou naqueles termos porque “nunca tive medo das palavras”.


Fonte: Jornal de Angola


ImageEsse momento ficou gravado na minha memória para sempre. E quando iniciei as minhas funções de director do Jornal de Angola a primeira coisa que fiz foi convidar Ndunduma a colaborar com uma coluna semanal. Eu aprendi que os grandes jornais só são de facto grandes se tiverem grandes jornalistas e grandes colaboradores. E um jornalista só é grande se não tiver medo das palavras.


Ontem de manhã fui confrontado com a morte de Fernando Costa Andrade Ndunduma. O país perdeu um grande jornalista, um poeta inspirado, um grande artista plástico, um político que participou, desde a primeira hora, no combate exaltante pela libertação de Angola da dominação colonial. Há alguns meses suspendeu a sua colaboração por razões de saúde. Pediu-me que não o divulgasse. Recentemente voltei a desafiá-lo a retomar a escrita. Ele disse que sim. Mas a morte impediu que a sua escrita poderosa regressasse às colunas do Jornal de Angola.


Este jornal foi dirigido por ele com grande fervor. Era o tempo de revolução e da luta pela Independência. Foi o primeiro grande director depois da mudança do título, de “Província de Angola” para “Jornal de Angola”. Na hora em que perdemos para sempre a sua preciosa colaboração, é tempo de recordar o intelectual angolense que na Casa dos Estudantes do Império, com Carlos Ervedosa, lançou e dirigiu os famosos “Cadernos de Literatura” que revelaram figuras como Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da Cruz ou José Craveirinha, Noémia de Sousa, Alda do Espírito Santo e tantos outros artistas da palavra que mostraram ao mundo que embora usando a língua portuguesa, os povos das colónias portuguesas tinham uma cultura própria que se revelava nas suas riquíssimas literaturas.

 

Hoje recordo Fernando Costa Andrade poeta de combate, que fez da poesia uma arma e “poesia com armas”. É tempo de recordar o revolucionário que se exilou, o artista inspirado, o erudito do umbundu, o jornalista honrado, o cronista apreciado. Fernando da Costa Andrade teve uma trajectória de vida exemplar nas artes, na cultura e na política. O homem do Lépi nunca esqueceu o solo sagrado onde nasceu e por ele sacrificou a vida e a liberdade.
O jornalismo angolano está de luto. Perdemos um dos melhores de todos nós. Pode ser que nesta fase em que valores que norteiam o jornalismo e os jornalistas são ignorados, poucos se dêem conta dessa imensa perda para a classe e para o país. Mas os jornalistas que sabem viver entre as fronteiras da honra e da dignidade vão prestar-lhe uma sentida homenagem. Como o faço hoje, aqui, nesta hora de luto e dor.


Fernando Costa Andrade Ndunduma foi eleito deputado à Assembleia Nacional nas eleições de 1992 e nas eleições de Setembro de 2008, nas listas da organização a que sempre pertenceu, desde a sua juventude, o MPLA. Também neste campo Angola perdeu um dos seus mais dignos parlamentares. Os seus pares seguramente que concordam com esta afirmação, mesmo que pertençam aos partidos da oposição. Porque Ndunduma soube sempre cultivar a tolerância e o respeito. Mesmo para com aqueles que arrastaram o país para autênticas tragédias. Nesses momentos ele mostrou a tudo e a todos que nunca teve medo das palavras.


Morreu Fernando Costa Andrade Ndunduma, o primeiro grande director do Jornal de Angola. Morreu o jornalista que nunca teve medo das palavras.

 



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