Alemanha - Passaram-se 15 anos desde a realização na Alemanha, do 1. Encontro de Quadros Angolanos na Diáspora. Na verdade foi num dia como hoje (6 de Março de 2004), que uma franja de quadros angolanos residentes naquele país da Europa ocidental, desafiou preconceitos e estigmas, entre eles anti-patriotismo, traição á pátria, suas origens e outros mais, de que eram acusados, reunindo na vila de Bad Honnef, próximo de Bona, a antiga capital alemã, cerca de 148 quadros e convidados para discutirem o regresso á terra que os viu partir há décadas. Para marcar este evento e data, o Club-K conversou com o então Coordenador da Comissão Organizadora daquele evento, Orlando Ferraz, no sentido de partilhar as motivações, perspectivas e talvez ansiedades de há 15 anos.

Fonte: Club-k.net


Club-K: Como é do nosso conhecimento, o senhor coordenou todas as actividades que culminaram com a institucionalização da Associação de Quadros angolanos na Diáspora na Alemanha, que lembranças guarda desse desafio?

Orlando Ferraz(OF): Muitas, muitas e boas lembranças... deixe-me antes dizer que em todo esse processo fui coadjuvado pelo meu colega e amigo o Dr. Luansi, que também é por coincidência, formado em Ciência Política e foi uma peça central em todo esse processo. Isso para não falar de outros camaradas como os Engenheiros José Silva, o Bruno Niengueso, Dr. Maximino Carlos e outros, que foram efectivamente uma grande valia para que tudo desse certo. Deixe-me lembrar que que a diáspora angolana na Alemanha foi e continua sendo muito multifeceitada, pois por cá, embora num outro contexto politico nacional e internacional, passaram nacionalistas como, Lúcio Lara, Samuel Abrigada e outros, e no pois independência um bom número de estudantes angolanos, que assumiram e outros assumem ainda hoje, importantes responsabilidades sócio-políticas no país.


CK: Mas voltemos a questão da organização, apoios, financiamentos para a realização 1. Congresso de Quadros, visto sabermos não ser nada fácil fazer deslocar tanta gente...
OF: ... Já lá iria chegar, como ia dizendo, tivemos uma equipa forte e diligente que permitiu que tivéssemos êxito principalmente nas três grandes actividades de vulto que organizamos e participamos, estou a referir-me primeiramente ao encontro de Quadros de 06 de Março de 2004 e a criação posterior da associação de quadros, isso em Outubro do mesmo ano, bem como a nossa participação em Novembro ao encontro de Luanda, respectivamente. Ora e como bem o mencionaste, não se movimenta para um ou dois dias de suas casas chefes de famílias, trabalhadores, estudantes fazendo viagens de até 700 Km em comboio, autocarros e viaturas pessoais, alguns inclusive vindos do estrangeiro como da República Checa, Bélgica, Holanda para não falar das individualidades angolanas e alemães, sem que houvesse primeiro um motivo sério e convincente; uma logística ou um serviço protocolar bem coordenados e funcionais á altura do evento. E foi o que aconteceu, a estratégia foi montada e consistiu na criação de sub-comissões para estas e outras áreas de apoio aos coordenadores, e funcionou. Não só funcionou perfeitamente mas os resultados foram bem visíveis e transparentes.


CK: Em que consistiu o segredo para o êxito?
OF: Não houve segredo nenhum, apenas houve uma vontade genuína e séria bem como a convicção de que, o assunto era de interesse comum e isso fez com que se montasse uma estratégia consubstanciada na criação de um staff onde os “cavalos de batalha” foram colocados nos devidos lugares e áreas de influência respectiva.

CK: Como assim ...?
OF: Um grupo encarregou-se do trabalho com a embaixada, outro com a TAAG, eu e o meu adjunto “atacamos” as instituíções alemães com as quais estávamos muito bem familiarizados até ao nivel de chefias máximas, como foram os casos do MNE, a Cooperação Internacional Alemã(hoje GIZ, na altura GTZ), fundações e outras ONG ́s. Passe a publicidade mas devo ser honesto e citar a Western Union e o canal pioneiro do jornalismo Online em Angola a AngoNotíticas. Permita-me esclarecer aos leitores, quando se fala de Western Union pensa-se logo no dinheiro, não foi o caso, eles apoiaram-nos na publicidade, impressão de material como convites e etc, tudo isso constou do Relatório final de contas apresentado em Berlim durante um encontro de balanço final, relatório este por mim apresentado, nas vestes de coordenador da comissão organizadora. Foi um trabalho aturado mas cumprido na integra, o processo de reembolso dos valores utilizados nos transportes inclusive alguns por via aérea, foi tão transparente que no final não tivemos quaisquer reclamações.


CK: Em termos de resultados práticos, o que foi que este evento alcançou?
OF: Olhe, os debates nos diferentes painéis criados, foram muito concorridos e participativos. Todos estavam ansiosos em dar o seu contributo e todas as contribuições foram naturalmente compiladas num relatório final único, do qual destaco primeiramente a defesa de um melhor entrosamento entre o governo, agências de fomento do intercâmbio estudantil, universidades, centros de investigação científica, imprensa, etc. Outros aspecto que mereceu atenção especial dos participantes foi o lançamento de bases sólidas para um novo e melhor entendimento entre os sectores atrás mencionados com o objectivo de uma melhor coordenação de esforços em matéria de reintegração dos quadros no mercado de trabalho em Angola. Como deve ser lógico, nem todos congressistas estavam interessados num regresso ao país e muito menos naquela altura, o que é compreensível. Assim sendo, um aspecto importante e que constou das conclusões finais do congresso, foi a viabilização ou a busca de alternativas atraentes de aproveitamento dos quadros tanto no mercado de trabalho em Angola como na diáspora, por exemplo em organismos e instituições internacionais, visto que muitos tinham e têm dupla nacionalidade.


CK: Depois dos encontros na Alemanha, também participaram do Encontro de quadros de Luanda...
OF: Efectivamente, mas antes tivemos em Lisboa partilhando nossa experiência com os nossos correligionários de Portugal em iniciativa do género. Isso foi um pouco antes do encontro de Luanda. O encontro de Portugal, por razões óbvias, a ex- potência colonizadora e um autentico incubador de quadros angolanos, foi um evento maior e salvo-erro o Governo enviara inclusive o então Ministro da Reinserção Social, João Kussumua como seu representante ao acto. O partido no poder tirou portanto bom proveito unindo o útil ao agradável, fezendo-se representar inclusive por um director ligado a política de gestão de quadros.


CK: Já que representou os quadros angolanos na Alemanha ao encontro de Luanda, o que é que de concreto esse evento trouxe para os quadros na diáspora alemã?
OF: Bom, para ser mais preciso fui apenas um dos 7 representantes da Alemanha, que foi uma das maiores delegações da Europa Ocidental. Por conseguinte, devo dizer-lhe e acredito que, tanto a iniciativa como os objectivos da organização do encontro de Luanda, corresponderam as expectativas. Porquê? A aderência foi ampla, o programa nos diferentes painéis em que participamos corresponderam as expectativas dos participantes.

Até certo ponto nos foi mostrado o país real conforme ele era. Viajamos pelo interior por via aérea e terrestre. Eu preferi Malanje, a terra de meus progenitores, outros preferiram também o regresso á suas origens como Kuando Kubango, Cabinda, Zaire, Uíge, Benguela, Huambo, etc. Agora, verdade seja dita, o projecto ou a iniciativa não foi sustentável do ponto de vista pragmático porque faltou o órgão que, logo após o final do evento servisse de elo de ligação com as diferentes iniciativas que depois se foram realizando em tudo quanto era canto que albergavam estudantes, sejam eles bolseiros do estado ou não e mesmo quadros já formados e que pretendiam regressar.


CK: Mas sabemos que muitos acabaram mesmo por regressar e se fixarem em Angola...
OF: Sem dúvidas e eu sou um deles. No caso concreto da Alemanha dentre aqueles que estiveram na “linha da frente”, diriam assim, ou seja dos participantes aos encontros de quadros na Alemanha, pelo menos segundo informações em minha posse, note que eu estou desligado da AFD-e.V. desde 2005, estarão em Angola pelo menos 25 quadros superiores do meu tempo, sejam superiores, médios e ou equiparados, destacando-se os Doutores Luansi, António Maximino, Kumpensa e sua esposa, Isabel Ihlenfeld, os engenheiros Niengueso, Walter Pedro e outros. Alguns de nós ingressamos em várias instituições do estado como Ministérios, outros no sector empresarial público-privado, outros tornaram-se empreendedores, enfim abriram-se portas que deveriam continuar abertas para outros também. Por isso digo que a iniciativa pecou apenas por insustentabilidade. Por outra, a política de gestão e aproveitamento de quadros não pôde ser partidarizada, mas sim aberta, acessível para todos angolanos competentes e capazes, independentemente de sua côr partidária, crença religiosa ou etnia. Se continuarmos a valorizar apenas os que têm cartão do partido no poder, vamos continuar a falhar em muitas frentes, como tem sido o caso. Conforme o lema do encontro de quadros realizado em Novembro 2004 em Luanda: “todos por uma Angola melhor”, eu complemento dizendo “... e uma Angola melhor para todos”.


CK: Ja que estamos a falar de um melhor aproveitamento de quadros, já agora tomou conhecimento da intenção do governo angolano em enviar anualmente 300 licenciados para as melhores universidades internacionais ou do mundo?

OF: De facto tive acesso ao decreto 67/19, de 22 de Fevereiro e devo dizer que a medida é nobre. Entretanto não devemos colocar a carroça no lugar do boi. O problema de Angola não é a falta de quadros qualificados, mas sim a falta de um melhor e condigno enquadramento dos mesmos, com salários que não invejem o estrangeiro ou o expatriado. Quando queremos quadros de excelência científica, técnico-profissional como os que se pretende agora com este decreto, não os teremos nunca, enquanto não se fazerem investimentos sérios na educação e saúde básicas como verdadeiros pilares para o desenvolvimento social e económico de qualquer país sério, onde a meritocracia e não a filiação partidária fale de facto mais alto. Todo esforço que não respeite este paradigma, jamais terá éxito.


CK: O lema do vosso Congresso de há 15 anos foi precisamente este...
Afirmativo, é que o modelo chinês é mesmo só para a China: economia de mercado em sistema monopartidário. Angola não pôde cometer esse erro porque temos uma realidade sócio-cultural e mesmo política diferente. Só contando com o concurso de quadros e cérebros vestidos de côres partidárias não vamos á lado nenhum, senão ao abismo. A aposta deve começar com a implementação de medidas, propostas, estudos há muito já existentes, do nosso sistema geral de ensino, começando pelo ensino pré- primário, primário e secundário. Não precisamos estudos caríssimos de viabilidade pois os problemas há muito tempo estão diagnosticados e temos em Angola técnicos e peritos competentes em Ciências de Educação diversificada para não falar de sindicatos, de cujas propostas simplesmente são ignoradas. É aqui onde devemos investir forte e logo as ditas elites virão como que automaticamente.


CK: Fala da qualidade do ensino com muita paixão...
OF: (risos)... e não só mas também com muita nostalgia de um passado já longínquo mas também recente. Primeiro porque também bebi do bom ensino colonial e pós colonial até 1979/80. Segundo desde os meus 17 anos de idade leccionei como professor no ensino primário e guardo ricas recordações da escola rainha Ginga, aí ao Cassenda em Luanda, e levava muito a sério minhas responsabilidades. Tive alunos que hoje são homens bem formados e reconhecem a qualidade do nosso ensino básico de até aos anos 80'. Depois disso veio a bagunça e tudo começou a deteriorizar-se. Claro aí está, alguns vão dizer que isso deveu-se a guerra, não concordo.

CK: Resumindo, é contra esta iniciativa governamental?
OF: Não é por aí, mas sou apologista de um forte ensino básico para assegurarmos de forma sustentável o amanhã, ou seja o superior. Isso envolve aulas de informática básica já no ensino básico, línguas, rigor no ensino e aprendizagem da língua portuguesa como base para melhor assimilação da estrutura gramatical, morfológica e fonética de outras línguas. Olhe, meu amigo, faça o seguinte: seleccione 300 universitários hoje numa das muitas universidades aí existentes. Faça um ditado de apenas 100 palavras comuns e já verá o resultado. Vivi isso in locu em Angola e fiquei estupefacto. Não há dúvidas que hajam bons professores no mercado, mas em muitos casos a falta de motivação e de incentivos, constituem sério impedimento para a excelência. Enquanto todos lutam para leccionar em faculdades, devíamos promover e tornar mais atrativo o ensino básico e o secundário através de incentivos salariais, prémios aos professores mais aplicados, etc. A Europa não se desenvolveu só de universidades, mas sobretudo da formação técnico-profissional médio e depois vieram as universidades. Por ser apaixonado e estar comprometido com o ensino básico de excelência, se hoje voltasse a leccionar em Angola, minha aposta primária seria principalmente á este nível e complementarmente, no ensino superior, por onde já passei e constatei lesões pedagógico-conceituais graves.

 



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