Luanda - O socialismo científico baseia-se na ideologia monolítica, centralizada, homogénea, compacta e hegemônica, sem concorrência e sem alternância político-partidária. Os cérebros dotados de inteligências finas quer académicos, quer políticos, ficam integrados numa estrutura política monolito, regida por um mecanismo de «disciplina partidária», que regula o comportamento dos integrantes e restringe a liberdade de pensamento dos membros da sociedade.

Fonte: Club-k.net

Neste sistema centralizador, o espaço de atuação é limitado dentro de um eixo rotativo, sem concorrência de ideias e sem alternância político-partidária. As elites ficam sujeitas a um sistema de dependência e de tráfico de influências, que comprime o espaço de realização individual e colectiva; corrompe a consciência humana; inibe a iniciativa; impede a inovação; e condiciona a vida das pessoas. É importante notar que, a disciplina partidária, acima referida, não só inibe a iniciativa das pessoas, mas, sobretudo condiciona o exercício das liberdades e dos direitos individuais, que constituem os factores dinâmicos de inspiração e de realização de vontades.


Os cérebros e as elites de uma sociedade só se transformam em sinergias inovadoras se estiver num espaço amplo de concorrência e de alternância do poder político-partidário. Pois que, as mudanças político-partidárias trazem consigo não só novas equipas de actores, mas sim, novos conceitos; novos ideários; novos ambientes sociais; novos modelos de trabalho; novos comportamentos; e novas metas estratégicas. Um meio social aberto tem o potencial de atrair os cérebros, e de concedê-los um espaço largo de acção, no sentido de desenvolver livremente os seus conhecimentos, sem ficar afunilados num eixo fechado.


Noutras palavras, a pluralidade conceptual é o cerne da democracia, que constitui um instrumento potente para a transformação qualitativa das sociedades modernas. Pois que, uma sociedade governada por mesmo grupo de pessoas e da mesma estrutura partidária, que assenta no mesmo conceito ideológico, não é capaz de proporcionar um meio social apropriado para que os quadros competentes, com ideias novas, possam desenvolver livremente os seus conhecimentos. A virtude da democracia consiste na criação de um espaço amplo de concorrência, em que haja disputas de ideias, com concorrentes potentes, capazes de fazer uma leitura realista do país, e alterar o status quo.


Em virtude disso, um político hábil, como Abel Epalanga Chivukuvuku, com capacidade enorme de liderança, de realização, de inspiração de vontades, e de estruturação orgânica, se for integrado na estrutura governamental do MPLA, será um autêntico desperdício de valores. Porque, o sistema em si, do partido-estado, não será capaz de se abrir e proporcionar-lhe um espaço livre e adequado para desenvolver as suas capacidades e transformá-las num instrumento de mudança efectiva e sustentável. Além disso, a visão conceptual do Abel Epalanga Chivukuvuku é muito diferente do MPLA e do João Lourenço, formado na Rússia, numa escola socialista, de cariz monolítica.


Nesta senda, o exemplo mais concreto é do Dr. Carlos Marcolino Moco, um político de grande envergadura, que teve ousadia de fazer face ao regime do antigo Presidente José Eduardo dos Santos. Mas, na lógica de integração, Dr. Marcolino Moco se encontra no círculo fechado da SONANGOL, como simples conselheiro do Conselho da Administração, sem poderes nenhuns de decisão. O seu protagonismo político, que era enormíssimo, acaba de se diluir gradualmente.


Importa realçar que, já tivemos a experiência do GURN, em que os quadros políticos de outros partidos políticos, como da UNITA, não tiveram espaços adequados para desenvolver devidamente as suas actividades. Muitos dos quais ficaram corrompidos, distraídos e abandonados a sua sorte, sem dignidade nenhuma. No fundo, o que aconteceu foi um exercício traiçoeiro, de má fé, que resultou na partidarização do Estado Angolano.


Logo, a tese da integração do Abel Epalanga Chivukuvukuku na estrutura do Governo do Presidente João Lourenço visa essencialmente afastá-lo definitivamente da arena política angolana. Para mim, isso foi uma surpresa muito grande ouvi-lo da boca de um grande analista e sociólogo, como Paulo Ganga, uma personalidade digna e respeitável. Porém, ao dizer isso, porque ele sabe como as coisas estão sendo desenhadas dentro do sistema.


Não obstante, convém saber que, a política é o jogo que exige muita prudência, muita coragem, muita imaginação, muita persistência e muita astúcia para que possa lidar com situações complicadas e complexas. Pois, o poder político, de matriz socialista, é matreiro, dificilmente faz um jogo transparente e justo, em que haja concorrentes iguais e potentes. Por isso, recorre-se sempre a destruição de adversários políticos fortes, utilizando os Aparelhos do Estado, sem respeitar a Constituição e as Leis.


Portanto, se Abel Epalanga Chivukuvuku não estiver atento e cair na armadilha do «ramo de oliveira» acabará por ser destruído e afastado definitivamente da arena política angolana. Por outro lado, transparece nitidamente que, Presidente João Lourenço esteja na lógica de por um lado, fechar o sistema, consolidar o partido-estado e introduzir gradualmente o Modelo Chinês, assente na hegemonia partidária. Por outro lado, liberalizar alguns sectores da economia com fim de apenas atrair os investimentos ocidentais.


Quer dizer, o caminho para diante será muito difícil para a oposição real. É bem provável que haverá manobras de seduzir as elites da oposição para estarem distraídas com algumas benesses, de ordem material, como instrumento do suborno e de trafico de influências. Este procedimento (de dividir e reinar) astuto corresponde à política colonial portuguesa que consistia na assimilação das elites negras a fim de isolar as comunidades indígenas, e oprimi-las severamente.


Na minha meditação demorada, percebi que Dr. Paulo Ganga chamava atenção ao Presidente João Lourenço para fazer uso da estratégia de neutralizar a oposição, usando os mecanismos do trafíco de influências, que consistirá na acomodação dos potenciais quadros da oposição. Esta estratégia não encoraja a promoção e a ampliação do espaço democrático, com maior protagonismo das elites intelectuais da oposição. Pelo
contrário, visa esvaziar a Oposição através da política de integração dos seus melhores quadros na estrutura do poder estabelecido, corrompê-los, isolá-los e neutralizá-los totalmente.


Seja qual for, duvido bastante se as personalidades visadas, na pessoa de Abel Epalanga Chivukuvuku, de Alcides Sakala Simões e de Jardo Muékalia poderão ser tentadas em cair nesta armadilha, veladamente exposta por um «think tank» da sociedade angolana, através do Dr. Paulo Ganga, na TVZIMBO. Aliás, o Poder tem feito muitas interferências e chantagens veladas aos Partidos na Oposição, impondo-lhes a nomeação ou o afastamento dos quadros dirigentes no exercício dos cargos de destaque no seio dos seus Partidos ou na Assembleia Nacional.


Enfim, esta postura, de abuso do poder, não é aceitável num Estado Democrático de Direito, no qual exige à legalidade; a transparência dos processos políticos; a igualdade dos Partidos perante a Constituição e a lei; a concorrência leal; a dignidade da pessoa humana; e o uso devido da coisa pública. Tudo isso indica claramente que o regime actual está na mesma lógica do passado, do autoritarismo, da prepotência e da hegemonia política e partidária.

Luanda, 09 de Abril de 2019.



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