Lobito - Há seis meses que os mais de 100 funcionários dos dois centros de hemodiálise da província de Benguela estão sem receber salários, devido às dificuldades financeiras do Instituto Angolano do Rim (IAR). 

Fonte: Angop
Segundo a coordenadora da área administrativa e financeira do Centro de Hemodiálise do município do Lobito, Deisy Lutucuta, os trabalhadores da instituição, incluindo os da clínica homóloga no Hospital Municipal de Benguela, ainda não receberam os salários referentes aos meses de Outubro de 2018 a Março de 2019.

Para Deisy Lutucuta, as dificuldades financeiras a nível dos dois centros de hemodiálise da província de Benguela começaram em 2015 e continuam a agravar-se, na sequência das dívidas avultadas do Ministério da Saúde ao Instituto Angolano do Rim.

Destacou que, a partir dessa altura, os salários começaram a ser pagos com atrasos constantes e que os problemas financeiros têm estado a condicionar o pagamento aos fornecedores de material gastável, não obstante os esforços do sector da Saúde em garantir algum abastecimento ao IAR.

A responsável diz, no entanto, ter conhecimento de que essa dívida deverá estar a ser tratada junto do Ministério das Finanças, esperando que o problema seja resolvido o mais rapidamente possível, para o bem dos funcionários e dos pacientes.

Apesar das dificuldades sociais por que passam os funcionários, Deisy Lutucuta afasta, para já, a possibilidade de paralisação dos serviços, mas reforçou o apelo às autoridades competentes, nomeadamente os Ministérios da Saúde e das Finanças, isto porque a situação dos trabalhadores piora a cada dia que passa.

“Continuamos aqui pelos pacientes. Não é fácil fechar e deixar vidas humanas em risco”, acentuou, considerando que, se o Ministério da Saúde atrasa com os pagamentos, o Instituto Angolano do Rim fica de “mãos atadas” e são os profissionais de hemodiálise quem sofre com isso.

Já Laurinda Chipepe, responsável de Enfermagem do Centro de Hemodiálise do Lobito, descreve a actual situação dos trabalhadores como bastante complicada e explica que eles só mantêm os serviços de consulta e diálise, para não perigar a vida dos doentes de insuficiência renal crónica, entre os quais crianças.

“Se estivéssemos a trabalhar numa fábrica de sapatos, já ninguém estaria aqui. Mas, como enfermeiros, temos um juramento por cumprir”, realçou, garantindo ainda que, embora difícil, a unidade de hemodiálise do Lobito está a funcionar.

Desespero toma conta dos trabalhadores

O enfermeiro Dandu Pereira manifestou insatisfação por não haver uma previsão para os salários serem pagos e relatou casos de alguns colegas vivendo com ajuda das famílias, dadas as dificuldades que os aflige durante estes seis meses.

Com o marido desempregado, a analista clínica Isabel Eliseu contou, com indisfarçável tristeza, estar a passar por muitas dificuldades, desde que os salários começaram a atrasar. “Tenho quatro filhos que estudam e vivo numa casa arrendada e, constantemente, o senhorio ameaça fazer despejo”.

Desesperada, Isabel adianta que, muitas vezes, ela e seus filhos chegam mesmo a passar fome em casa, pois a família passou a ter dificuldades para comprar comida.

A paciente Adelina Augusto, 40 anos de idade, faz diálise no Lobito há quatro anos, um tratamento que lhe tem devolvido a esperança de viver. Comovida com a difícil situação dos trabalhadores, reconhece que há um sentimento de insegurança nos doentes, já que os enfermeiros estão a trabalhar sem ânimo.

Ao que a Angop apurou, trata-se de 140 funcionários distribuídos entre as duas clínicas de hemodiálise da província. Destes, 63 estão no Lobito e 77 em Benguela, entre médicos, enfermeiros, pessoal administrativo e auxiliares de limpeza.

As duas unidades tuteladas pelo Instituto Angolano do Rim, com o apoio do Ministério da Saúde, assistem em média mais de 130 pacientes com insuficiência renal, incluindo crianças dos 10 aos 14 anos.

O atraso no pagamento de salários motivara os funcionários dos centros de hemodiálise dos municípios de Benguela e do Lobito a paralisar as suas actividades de 13 a 15 de Novembro de 2017. O regresso aos trabalhos só foi possível após um acordo com a direcção do Instituto Angolano do Rim.

Hemodiálise é um procedimento através do qual uma máquina limpa e filtra o sangue, ou seja, faz parte do trabalho que o rim doente não pode fazer. O procedimento liberta o corpo dos resíduos prejudiciais à saúde, como o excesso de sal e de líquidos. Também controla a pressão arterial e ajuda o corpo a manter o equilíbrio de substâncias como sódio, potássio, uréia e creatinina.

As sessões de hemodiálise são realizadas geralmente em clínicas especializadas ou hospitais.



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