Luanda - O dia 25 de Maio é comemorado em toda África e por africanos espalhados ao redor do mundo como DIA DE ÁFRICA. Esta data é comemorada em homenagem a Organização de Unidade Africana (OUA). Esta que foi a primeira organização intergovernamental em África. Pelo seu papel em prol das independências e unidade em África, a União Africana (UA) instituiu o 25 de Maio como dia de África.

Fonte: Club-k.net


África sempre sofreu com a cobiça dos seus recursos por parte de potências externas. Atualmente vemos um continente refém no âmbito económico das grandes potências mundiais, mormente os EUA, Rússia, China, Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica. No célebre discurso do 1.o Presidente de Angola, Agostinho Neto, proferido em 1978, na Cimeira da OUA, em Cartum, este afirmou que ``África é um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço ́ ́.


Já está na hora dos africanos levantarem-se e lutarem para o engrandecimento do continente. E para que haja êxito nessa luta, é necessário maior união e cooperação entre os países africanos. É necessário que haja maior investimento nas indústrias locais de transformação de matérias-primas. África é muito abençoada em termos de recursos naturais, mas infelizmente, tais recursos são vendidos para os estrangeiros que os transformam e revendem para África esses produtos já transformados. A crise dos combustíveis que assolou Angola há algumas semanas atrás, é um grande exemplo disso.


Quando eu digo ÁFRICA PARA OS AFRICANOS, me refiro aquela ideia de que a resolução dos problemas que afligem o nosso continente, devem ser resolvidos pelos africanos, devemos olhar para soluções internas e não externas. É inadmissível que um Estado soberano, dependa de ajudas externas para alocar verbas para o orçamento de Estado. Já dizia Thomas Sankara: ``devemos deixar de lado essas ajudas e substituí-las pela nossa grande produção. Devemos tratar de produzir mais (...), porque quem dá de comer, também dita a sua vontade ́ ́. E falando em alimentação, África dispõe de enorme potencial agrícola, mas infelizmente a maior parte dos produtos alimentares consumidos no continente, são provenientes do estrangeiro. É necessário uma forte aposta na agricultura, pois que ela é a base para o desenvolvimento de qualquer país. E nisso, a cooperação entre os países africanos é fundamental. Ao invés de se ir buscar apoios externos constantemente, pode-se encontrar soluções internas. Existem países africanos bem encaminhados na produção agrícola, nesse sentido deve haver trocas de experiência.


O colonialismo deixou enormes sequelas para os africanos e infelizmente, ainda são bastante visíveis tais sequelas no continente berço. Uma dessas grandes sequelas, prende-se com o sentimento de inferioridade que ainda é bem patente no seio dos africanos. Há a tendência de olhar tudo aquilo que vem da Europa ou dos EUA como melhor e mais vantajoso em detrimento daquilo que é africano, mesmo que na prática, muitas vezes aquilo que vem do ocidente ser na realidade prejudicial para o continente.


Já ficou provado a vários níveis que os recursos humanos africanos, são dos melhores a nível mundial. São constantes as histórias de africanos que se destacam nas melhores universidades ocidentais. Infelizmente, os nossos dirigentes preferem apostar em quadros estrangeiros, principalmente nas áreas da saúde e educação, em detrimento dos quadros africanos. Isso tem provocado a chamada fuga de quadros. Muitos africanos formados, preferem emigrar para a Europa ou para os EUA, em detrimento de darem o seu contributo para o desenvolvimento de África. Apesar de que como se disse há bem pouco tempo, os nossos dirigentes terem a tendência de marginalizar os quadros africanos, é fulcral o contributo desses para a edificação de uma África melhor.

Porque SE NÓS NÃO LUTARMOS POR UMA ÁFRICA MELHOR, QUEM O FARÁ? Imaginemos por exemplo se Nkruman, Lumumba, Agostinho Neto e outros fossem viver para fora e não lutassem para termos uma África livre do jugo colonial, que continente teríamos hoje?


Angola por exemplo, depara-se com grandes necessidades de médicos e enfermeiros. Ao invés de estar constantemente a ir buscar médicos cubanos e asiáticos, porque não estabelecer uma parceria com a RDC? É sabido que neste país, existem muitos bons quadros no sector da saúde, tanto que muitos angolanos atravessam a fronteira para irem se tratar lá.


Devemos parar com as importações de modelos económicos, políticos e sociais estrangeiros e criarmos nossos próprios modelos que se adequam com a nossa realidade. Nós temos capacidade de criar modelos próprios. A questão da democracia é um exemplo vivo. Os modelos ocidentais nem sempre funcionam em África. O Ruanda por exemplo, vive um paradoxo, onde o Presidente Paul Kagame está há quase duas décadas no poder, mas o país vive um clima de prosperidade económica e desenvolvimento social, para não falar clima de unidade nacional.

Recorde-se que o Ruanda viveu décadas de conflitos interétnicos. Então, esse modelo de gestão devia ser estudado pelos africanos, porque a democracia nem sempre resolve todos os problemas, pelo contrário, nalguns casos chega a criá-los. Para mim, não me interessa quanto tempo um líder vai permanecer no poder, o mais importante é que melhore a qualidade de vida da população.


A ZONA DE LIVRE COMÉRCIO EM ÁFRICA, foi assinada por 44 países em março de 2018 na cimeira extraordinária da UA realizada no Ruanda. Esta zona tem como objetivo a eliminação das taxas aduaneiras entre os Estados signatários, para facilitar

as trocas comerciais entre os mesmos. E como já disse antes, os africanos precisam de promover cada vez mais a cooperação e as trocas comerciais intra-africana. Lógico que nem todos os países africanos se encontram preparados para aderirem a essa zona, mas já é um passo importante para o desenvolvimento colectivo do continente. Infelizmente ainda é comum verificar-se que os produtos importados têm mais relevância no mercado africano em detrimento da produção local. Mas já temos vários produtos africanos de grande qualidade. E para que essas trocas comercias ganham uma expressão relevante, é necessário a aposta na construção e melhoria de várias infraestruturas, como estradas, pontes, portos, caminhos-de-ferros, para facilitar a circulação de pessoas e bens dentro do continente.


Há também a ideia da criação do passaporte africano, que na prática também irá facilitar a circulação de pessoas dentro do continente. Já há acordos entre vários países no que diz respeito a isenção de vistos de turismo. A Etiópia por exemplo, decretou a isenção de vistos para todos os africanos que lá desejarem ir.


Portanto, essas medidas são a priori muito boas, tal como tantas outras iniciativas já anteriormente anunciadas, como o NEPAD por exemplo. Mas só teoria não diz nada. É importante que haja vontade política para que tais iniciativa saiam do papel.


África tem um potencial enorme e isso assusta as potências estrangeiras, por isso criam condições desfavoráveis para a inviabilização do desenvolvimento do nosso continente. Os africanos devem apostar mais em África. Infelizmente é comum verificar que africanos quando se tornam ricos, decidem ir esbanjar a sua riqueza na Europa, aumentando ainda mais os recursos financeiros daquele continente, ao invés de investirem e apostarem mais em África. Deve-se criar uma simbiose entre a vitalidade da juventude e a sabedoria dos mais velhos. Todos juntos, podemos criar um África melhor. É possível.

ULISSES ANTÓNIO, Licenciado em Relações Internacionais.



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