Luanda - “Em nome dos sobreviventes, órfãos e viúvas dos que pereceram damos parabéns ao presidente João Lourenço. Contudo, há aqui um hiato; as questões que a comissão se predispõe a resolver chocam com os princípios prioritários. Mais do que ressarcir, ou indemnizar as vítimas, o nosso critério inicial é de abrir-se o processo do 27 de Maio. 

Fonte: JA

Quem quisesse podia ler e inteirar-se do que esteve na origem. Porque não sabemos o que é que pesou como crime aos comandantes que foram fuzilados e outros tantos desaparecidos, conforme declaração do próprio partido, MPLA. Podíamos até dizer que inverteram a situação. Cremos que a resolução dos problemas do 27 de Maio passa pela abertura do processo. Os jornalistas, os historiadores e todos interessados saberiam quando e como foram fuzilados, quem ordenou os fuzilamentos. As pessoas que podem dar esta informação toda estão aí. Nós, Fundação 27 de Maio, debatemo-nos sobre estas questões. A questão do 27 de Maio é diferente.

 

Nos nossos estatutos, temos a construção de um monumento às vítimas. Mas, antes, é preciso que os comandantes sejam exumados e enterrados com honras militares. Porque foram mortos como golpistas, sem qualquer explicação ou pedido de desculpa. Foram elevados a generais de quatro estrelas, a título póstumo, sem que tivessem sido enterrados. Os seus restos mortais onde estão? Depois há outro problema, indemnizar um morto? Quanto vale a vida?

 

Para a mobilização da população para a manifestação no Palácio, na qualidade de político, militar e coordenador do Cazenga (Congo pequeno), participei activamente.

 

A minha missão foi mobilizar o povo do bairro para participar no comício no Palácio. Para que facilitássemos as coisas, naquele dia, eu estava de oficial de permanência na Polícia Judiciária, onde é hoje o Tribunal Militar. Na entrada do Palácio, do lado da antiga Rádio Eclésia, valendo-me do meu cargo, fui aos guardas, mostrei o passe e ordenei a abertura da cancela para o povo passar. Já perto do jardim do Palácio, havia outra cancela. Foi ali onde houve tiroteio. As primeiras dezenas de indivíduos morreram ali. E talvez eu tivesse sido o culpado, porque mandei abrir a cancela para o povo seguir para o Palácio.

 

Fomos apanhados de surpresa, porque não pensámos que a manifestação iria dar no que deu. Apareceram mulheres grávidas, mulheres com crianças nas costas, deficientes físicos, apareceu tudo. Era o povo que foi manifestar-se.

 

Depois das mortes e detenções que ocorreram no fatídico dia 27 de Maio, ostentando a patente de sub-inspector da Polícia Judiciária, fui transferido para a Huíla como delegado. Em 1979, viajei para Cuba, para uma formação de 10 meses. Depois fui detectado, durante uma reunião, preso, exonerado das funções e expulso do Interior. Desterrado para o Moxico, onde permaneci cerca de dois anos. Não fui molestado fisicamente. Mas, psicologicamente, foi duro.

 

Na Calunda, estavam nove mil presos, restaram 800 pessoas. Um massacre. Perguntaram-me onde eu estava e o que fiz e etc. Respondi tudo, não fugi a nada. Então, disseram: ‘você considera-se culpado?’. Respondi, ‘sim, se é a isto que vocês chamam culpa, sou culpado’. Sabia o que estava a fazer, sabia o que estava a acontecer e estava de acordo.

 

O que nós pretendemos não é atirar culpas a quem quer que seja. O que nos interessa neste momento é que os problemas sejam resolvidos com dignidade, honra e humanismo. Estes aspectos passam precisamente pela localização dos restos mortais dos comandantes que foram fuzilados. Sabemos que, na Fortaleza S. Miguel ou Museu das Forças Armadas, estão, presumivelmente, pelo menos, os corpos de cinco dos comandantes. Os indivíduos que estiveram por detrás disto ainda estão vivos. Por isso, é que nós nos congratulamos com a criação da comissão, porque integra os organismos e pessoas que, de uma ou de outra maneira, poderão dar o seu contributo.

Portanto, não somos golpistas. Considero-me insurrecto, porque, enquanto militar, dei ordens contrárias às do Governo. Fui levado pelo contexto político, porque foi isso que determinou a minha conduta”.



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