Luanda - I. Na quinta-feira Luísa Rogério, secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angola, SJA, passou cerca de 4 horas na Direcção Nacional de Investigação Criminal, onde foi chamada para responder a uma queixa da deputada Welvitchia dos Santos Pêgo, ‹‹Tchizé››.


Fonte: SA

Um caso extraordinário

Deve dizer-se, em abono da verdade, que Luísa Rogério não ficou quatro horas ininterruptas a responder a perguntas do investigador Maurício. Circunstâncias várias, nomeadamente repetidos cortes de energia, que sempre interrompiam o registo escrito do depoimento, e perguntas inúmeras vezes repetidas com o provável propósito de detectar contradições, fizeram com que Luísa Rogério tivesse permanecido todo esse tempo em instalações que a maior parte dos cidadãos comuns gostam apenas de ver pela televisão ou em imagens de jornal.


Só o tempo que Luísa Rogério permaneceu na DNIC já se percebe que se está diante de um caso ‹‹ex-traordinário››. Não há memória de que algum outro jornalista - e aqui nesta casa já há gente tarimbada ‹‹neste ofício›› - tenha sido exposto a tão prolongado interrogatório.


Vários jornalistas já foram intimados a ir à DNIC responder a queixas apresentadas pelo Cardeal, pelo primeiro-ministro, pela primeira-dama, mas ninguém, absolutamente ninguém, passou por uma jornada tão extenuante quanto a Luísa Rogério.


O que faz deste processo um caso extraordinário não é a natureza da acusação – a trivial calúnia, difamação e afins - mas quem desencadeia a queixa e por que o faz.


Tchizé dos Santos Pêgo, uma personalidade justificada ou injustificadamente mediatizada, não gostou (ou pelo menos não achou graça nenhuma) da observação de Luísa Rogério segundo a qual a indicação da filha do Presidente da República para integrar a Comissão de Gestão da TPA representava um conflito de interesses. Foi isto que Luísa Rogério - e muitas outras pessoas - interpretaram do despacho do ministro Manuel Rabelais, cujo despacho em momento algum se refere a Tchizé dos Santos como mera consultora ou colabora da referida comissão.


Apesar do desagrado inicial de Tchizé às pertinentes observações da secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos nada fazia prever que o caso fosse a lado algum, quanto mais não seja pelas evidências de que não só não se estava em presença de crime algum como também de que o despacho do ministro da Comunicação Social punha a, na altura deputada, a jogar simultaneamente em dois ‹‹teams›› incompatíveis. Por isso, a opinião pública angolana nunca acreditou que um procurador qualquer deste país perdesse tempo em dar provimento a uma queixa que não tinha pernas nem cabeça.


Quase 5 meses depois, Luísa Ro-gério e toda a opinião pública angolana são surpreendidas. Afinal, alguém achou que há, sim senhora, razões para ponderar sobre a queixa de Tchizé.


E quem assim decidiu entende que tal exercício não passa apenas por ouvir a secretaria-geral do SJA. Passa, também, por ouvir o director do Novo Jornal, Victor Silva, e a jornalista Ana Margoso, do mesmo título, por haverem dado notícia do qui pro quo de Tchizé dos Santos.


II.  Conhecendo-se como se conhece a natureza da queixosa, uma coisa está garantida: não vai faltar trabalho à justiça e nem assunto aos jornalistas.


Pena é que, com muito mais por investigar neste país, a Procura-doria Geral da República se tenha entregue a um caso, desencadeado por quem reclama o estatuto de jornalista, exerce funções de peso num órgão de comunicação social pública, tinha, à data do despacho de nomeação do ministro da Comunicação Social, um assento no Parlamento, mas que à primeira contrariedade reagiu como alguém que viu a honra atingida. Será que a PGR considerou essas incompatibi-idades?


III.  O caso de Tchizé dos Santos levanta, também, outras questões relativamente à gestão da justiça neste país. Que dirão aqueles que muito antes de Tchizé dos Santos ser o que é tinham apresentado queixa na justiça?


Quem responde pela espera, e pelos prejuízos a que milhões de cidadãos deste país estão expostos por causa dos atrasos da justiça? A Nação angolana está agora perante uma evidência de perda de tempo com um caso que não só deveria ter morrido antes de ter nascido, como mostra às pessoas que verdadeiramente aguardam pela justiça que neste país há filhos de primeira e filhos de segunda. E já sorte ser filho de segunda. A generalidade dos angolanos nem filhos de quarta são considerados.


IV.  Birras e caprichos e birras pessoais cada um tem direito de os ter. Mas a ninguém assiste o direito de os impor a outros. Infelizmente, porém, tudo indica que nos próximos dias as atenções da opinião pública angolana não se concentrarão exclusivamente sobre assuntos verdadeiramente importantes – como são os debates em torno da futura Constituição do país.


Tchizé dos Santos envolve o país num assunto sem a menor importância. E com isso se perde tempo e dinheiro.

 

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