Luanda - Era uma vez... aquela vez... eu e o meu amigo deputado encontrámo-nos por acaso no jango a céu aberto que é o parque de estacionamento do Belas. Não foi para lamentar, garanto-vos. Mas reagindo aos parabéns do deputado em relação ao Jissábu sobre o Povo, a Democracia e a Soberania – com a qual não concordava na maior parte porque o meu amigo deputado é mampelas e dos bons, diga-se de passagem – não resisti à tentação e desatei a lamentar. Logo eu, vejam só. Lamentei com o Deputas e lamentei feio!

 

Fonte: LAC/Club-k.net


Lamentei a bela vista que desfrutávamos parados entre edifícios imponentes. Rodeados por centenas de bólides cada um mais topo da gama. Cumprimentados por gente chique – a maior parte estrangeiros – a caminho dos cafés, do supermercado, dos ginásios dos salões de beleza. Lamentei porque lembrei-me de toda aquela gente nosso povo agora transformados em ralé que nem no Belas entram a não ser como contínuos ou seguranças. Lembrei-me daquelas donas que nem à praça conseguem ir porque de repente os preços dispararam e os kwanzas estão de tangas outra vez. Dos putos que vestem a melhor roupinha – esta em vez de esfarrapada é apenas remendada – para ir aos corredores do Belas para engordar as vistas e contemplar com inveja inocente os meninos dos ricos que se locupletam com gelados, guloseimas e brinquedos caros oferecidos pelos papás, eles talvez mais pobres que todas as crianças. O Deputado olhou pensativo o cenário que eu pintava e falou que o tempo – esse ópio dos inconformados – chegaria e que tal como os prédios e as estradas haveria guloseimas para todas as crianças... supermercados para todas as donas... dinheiro para todas as famílias.
 


Lamentei a confusão das típicas e atípicas, destípicas e katípicas que até parece canção de brincadeira dos monandengues. Perguntei como era então essa estória toda, como ficava a ética que em política também tem que haver, nem que seja de kaxêxe. Como ficava essa raiva que começa a crescer no peito das elites que se sentem traídas, fintadas, batotadas. Perguntei se era preciso criar essa raiva no peito, se não era melhor juntar todas as cabeças, todos os corações e todas as inteligências para construir o futuro de liberdade que ganhara os 82% do mampelas. O deputado, ainda mais pensativo que antes, sabulou-me que o Number One tinha querido pôr as tais katípicas para a reflexão da Sociedade. Convidou-me entretanto para uma viagem de faz de conta para as confusões em São Tomé, na Guiné-Bissau, no Zimbabwe. Quando voltámos ao nosso jango perguntou-me se gostara do que vira. Eu disse logo que não. Perguntou-me se o problema não era que quando o Presidente era de um Partido e o Primeiro Ministro de outro todos queriam mandar e ninguém se entendia. Eu disse que acreditava que sim. Então o malandro do deputas disse: “Atão! É isso que estamos a tentar evitar com as catípicas”. Vejam só!


 
Meio encabulado, meio divertido mas extremamente interessado com esta verborreia do camarada, perguntei onde é que ficava a ética na política. Aí o malandro do deputas marotou de vez: Disse que a ética na política era essa mesmo: evoluía. Não resisti: caí na gargalhada, que o deputas acompanhou com gosto. Desaparecida a confusão, ficou a confundibilidade dos argumentos bem humorados do deputas. Ao menos a pílula ficou um pouco menos amarga...
 


Lamentei outra vez. Afinal não é todos os dias que temos um deputas disposto a ouvir as nossas lamentações. Eles só é que gostam de paralamentar. Lamentei as massas. Disse que tinha medo das massas esfomeadas e frustradas que algum dia podem-se revoltar e quando isso acontecer, as elites desprotegidas serem as primeiras a serem varridas. Essas elites também pobres cuja única riqueza é produzir pensamento que nem Nguvulu nem Paralamento dão cavaco. Falei do Cazenga, do Kikolo, do Sambila, e também do meu Quifica. Falei dos que passam fome na Fubú, dos atolados nos lamaçais do Kassequel, deserdados de esperança, de futuro. Daqueles a quem até o respeito por si próprios tinha-lhes sido usurpado. Das estatísticas da vergonha: segundos onde morrem mais crianças; penúltimos dos países mais admirados no Mundo, só ganhámos o Irão; dos últimos no Índice de Desenvolvimento Humano, quando somos os papóides do petróleo em África. Lamentei tudo isso ao meu amigo deputado, e lamentei as coisas tipo são os mesmos que comem tudo e quando a barriga está cheia, passa a comida para os filhos, netos, trinetos, katrapanetos e rástapartanetos. Perguntei se não era também melhor fazer dessas riquezas um ponto de reconciliação. Dizer assim: Não interessa como cada um enriqueceu. Vamos pôr uma pedra sobre isso. Vamos só usar essas riquezas para gerar emprego, produção, produzir mais angolanidade, mais nacionalidade. E aqueles que gerirem a coisa pública não cabritem mais, quem cabritar vai kuzú sério, tipo crime de  sabotagem económica do antigamente. Os gestores da coisa pública trabalhem para o povo, pensem no povo, sofram pelo povo com o povo, para depois subirem triunfantes com o povo para o panteão dos homens libertados.
 


Aí sim. O Deputas ficou pensativo e sério de vez. Me sabulou. “Porquê não escreves isso? Até concordo contigo...”
 


Foi ao porta-bagagem do carro – um Mercedes, ora pois! – e de lá tirou um livro. Escrito por ele. Disse-me: “Toma lá. És o primeiro a tê-lo”. Abriu a lombada e escreveu: “para o meu amigo, mestre e camarada”. Vejam só! Os abusados dos deputados do mampelas. Como é possível ser ao mesmo tempo mestre e camarada? Disse-lhe de brincadeira para esconder a emoção e ele não ligou...
 


Abraçámo-nos e separámo-nos promenetendo encontrar-nos naquele ou noutro jango natural qualquer... e continuar a festa do debate. Debate de patriotas livres, emancipados e e fiéis à saga eterna da libertação de todos os homens.


 
Ah! Sim. E de todas as mulheres desta imensa e bela Angola, belas e viçosas como esta que me empresta a sua voz...

*Crónica das Sete LAC 20



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