Luanda  - A Associação Contra Crime Sexual (CCS), uma página na internet com mais 150 mil seguidores, 90% dos quais de Angola, tem sido a opção para o desabafo, pedido de socorro de centenas de jovens que sofrem abusos sexuais, disse a promotora.

Fonte: Lusa

A página foi criada por Jacqueline Baptista, uma brasileira a viver há mais de 20 anos em Lisboa, Portugal, que hoje está em Luanda para partilhar a sua experiência numa conferência, organizada pelo Instituto para a Cidadania Mosaiko, sobre o Papel dos Sistemas de Justiça no Combate ao Abuso Sexual.

 

Em declarações à agência Lusa, Jacqueline Baptista contou que criou a página na Internet para as suas amigas, mas atualmente tem mais de 150 mil seguidores, na sua maioria angolanos.

 

Segundo a ativista, com o seu trabalho, conheceu "o lado mais profundo" dos angolanos, que considerou um povo "com fome de educação emocional, com fome de querer ser melhor, ter paz, ter amor, crescer por dentro e não só por fora".

 

"E a partir daí eu dediquei-me a esta causa, estudei muito, fiz uma pesquisa imensa", disse.

 

Jacqueline Baptista frisou que começaram a seguir a página, pessoas com problemas sexuais, entre os quais situações de abuso, que passaram a ser debatidos.

 

"De repente comecei a ter mensagem também de homens, a dizer que antes de lerem a minha página não tinham noção do problema que causavam quando forçavam sexo com uma pessoa e, que desde que leram a minha página, nunca mais forçaram sexo com ninguém", contou.

 

A ativista relatou ainda que, entre as centenas de mensagens que recebeu, recorda-se de casos contados por homens angolanos, "a dizerem que já tinha [passado] três meses [desde] que não violava nenhuma criança", depois de ler a página. Dantes "violava pelo menos uma (criança) por semana".

 

"Era o apetite sexual dele, ele chegou a me dizer isso", frisou a ativista que veio a Angola falar na conferência sobre "O Acompanhamento das Vítimas de Abuso Sexual".

 

No encontro, irá abordar "as consequências do abuso sexual" e o modo como "afeta a vítima, da parte psiquiátrica médica, como o cérebro modifica depois de um estupro", explicou.

 

De acordo com Jacqueline Baptista, no princípio "foi muito duro" o trabalho filantrópico que leva a cabo, face aos depoimentos que recebia.

 

"Eu tinha homens a escrever, a dizerem-me que não queriam ter feito o que fizeram, que se arrependiam", disse, recordando o caso de um, em particular, que lhe comunicou que "se iria suicidar, porque não tinha noção do mal que fez a duas sobrinhas, uma de seis e outra de oito. Violou as duas e ia se suicidar, porque não tinha como mudar o passado e via os sintomas que eu estava a descrever na minha página, nessas crianças".

 

O contacto quase que diário, pela Internet, com as vítimas impulsionou a sua vinda a Angola para ver de perto as meninas, e para isso contou com o apoio de amigos.

 

"Vim porque os meus amigos me ajudaram a vir para cá, para conhecer as meninas, e tive o apoio de um convento que me recebeu" e "foi ali que conheci as meninas" e "foi amor à primeira vista", descreveu.

 

Jacqueline Baptista referiu que partilhou as informações que tinha com o Mosaiko, o que foi útil, porque "eles não tinham conhecimento tão profundo do problema" como ela.

 

"Porque, por exemplo, na minha página tenho dezenas de meninas e nem dez fizeram queixa do abuso sexual, o que indica que as estatísticas estão muito abaixo da realidade", disse.

 

"É uma verdadeira tragédia nacional essa desinformação, esse hábito cultural que muitas vezes é praticado por bons homens que fazem simplesmente porque todo o mundo faz", acrescentou.

 



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