Luanda – Os sobreviventes e os órfãos do 27 de Maio de 1977, em Angola, criticaram hoje a proposta de reconciliação nacional feita pelo Presidente angolano, acusando João Lourenço de não distinguir as vítimas da guerra civil das execuções dentro do partido no poder.

Fonte: Lusa

Em comunicado, associações representativas dos sobreviventes e órfãos do 27 de Maio de 1977 (data de um alegado golpe falhado contra Agostinho Neto – primeiro Presidente do país - que levou a milhares de mortos em execuções extrajudiciais, segundo vários analistas) reclamam a entrega dos corpos das vítimas às famílias e contestam o silêncio de João Lourenço quanto a esta matéria.


Em abril, João Lourenço ordenou a criação de uma Comissão para a Reconciliação, que “não distingue as vítimas de conflitos políticos que resultaram do conflito armado, das vítimas de conflitos políticos como foi o caso de 27 de Maio de 1977”, refere o documento.


“Ao mesmo tempo, o Estado não procedeu à entrega dos corpos às famílias, para o enterro a que teriam direito, nem emitiu as certidões de óbito para que os familiares dos desaparecidos continuassem com as suas vidas”, queixam-se as três associações signatárias do comunicado, enviado à Lusa.


Entre as vítimas da direção do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) estavam opositores internos como Nito Alves, a angolana Sita Valles e o seu marido José Van-Dunem, irmão da atual ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van Dunem.


As perseguições internas dentro do MPLA contra a corrente “fracionista” terão causado a morte de milhares de quadros do partido e, para os sobreviventes e filhos das vítimas, o atual executivo deve reconhecer esse episódio da História e pedir desculpa pelo que se passou.


As palavras “reconciliação e perdão adquirem contornos diferentes para as vítimas e sobreviventes: reconciliação pressupõe a admissão de que foram cometidos crimes, a emissão de certidões de óbito e a localização e devolução dos corpos”, ou seja, “um verdadeiro processo de reconhecimento”, com “ações concretas em busca da verdade”, refere o comunicado.


“A reconciliação nacional é um processo e não um destino. Leva tempo e exige uma preparação na qual se procura envolver quantos atores sociais for possível, com a intenção de alargar a base participativa”, consideram os subscritores, pelo que o 27 de Maio “deve ser tratado em separado dos restantes conflitos, igualmente geradores de vítimas”, tendo por base “as orientações da União Africana sobre justiça transicional”.


Trata-se de um processo que “precisa de ser encarado e implementado com seriedade, mostrando ao mundo uma sociedade comprometida em construir uma nação alicerçada em bases democráticas, com confiança e tolerância, inserindo-se com credibilidade crescente na sociedade das nações”, concluem ainda os subscritores.


Em abril, segundo uma nota da Casa Civil do Presidente enviada à agência Lusa, João Lourenço anunciou a criação de uma comissão para elaborar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos no país, entre os quais a "intentona golpista do '27 de Maio' [de 1977] ou eventuais crimes cometidos por movimentos ou partidos políticos no quadro do conflito armado".


João Lourenço justificou a decisão como um "imperativo político e cívico do Estado" para "prestar condigna homenagem à memória de todos os cidadãos que tenham sido vítimas de atos de violência, resultantes dos conflitos políticos".


Convém “instituir um mecanismo para a promoção da auscultação e de um diálogo convergente, no sentido de se assegurar a paz espiritual da sociedade, face a episódios do passado na convivência nacional que possam perturbar a unidade e o sentimento de fraternidade entre os angolanos", salientou então o chefe de Estado angolano.

 

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