Lisboa - A empresária Isabel dos Santos, uma das maiores empregadoras em Angola, admitiu, em entrevista à Lusa, que muitas empresas não vão resistir à introdução do IVA no país, que acontece no momento "mais duro" da economia.

Fonte: Lusa

"O IVA [Imposto sobre o Valor Acrescentado] não apanha as empresas no seu melhor momento, também o poder de consumo diminuiu, fruto da própria desvalorização [do kwanza, mais de 50% face ao euro desde 2018], porque Angola ainda depende muito da importação, e obviamente que este impacto vai-se sentir", observou a empresária angolana, em entrevista à Lusa à margem da visita que realizou a Cabo Verde nos últimos dias.

 

Após sucessivos adiamentos, desde 01 de outubro que Angola tem em vigor uma taxa única de 14% de IVA, sucedendo-se desde então centenas de reclamações e denúncias de especulações de preços de diferentes produtos.

 

Para Isabel dos Santos, a introdução do IVA em Angola acontece "no momento mais duro da economia", num quadro em que a desvalorização do kwanza angolano já "dura há algum tempo" e quando as empresas "têm o seu balanço mais frágil".

 

"Ou seja, em alguns casos houve um terço do balanço das empresas que desapareceu [devido à desvalorização do kwanza] (...) Uma empresa que tinha um milhão de euros [equivalente em kwanzas] de 'stock' no balanço, hoje tem 300 mil euros", exemplifica, recordando que, por outro lado, "os custos são iguais".

 

"Porque continua a ter que pagar rendas, tem crédito bancário, os juros continuam altos, a 15, 16, 17%, alguns dos financiamentos estão indexados ao dólar, portanto continuam a pagar o mesmo valor em dólares, mas que significa muito mais em kwanzas", explicou.


Atualmente com atividade em Angola em áreas que vão das bebidas à distribuição, passando pelas telecomunicações ou pelos cimentos, entre outros, recorda que quando antes gastava nas suas indústrias o equivalente a 100 mil euros para importar matéria-prima, hoje tem de gastar o equivalente a 200 a 300 mil euros em kwanzas para a mesma quantidade.

 

É neste cenário que a empresária diz estar preocupada com a introdução do IVA: "Eu acho que algumas empresas não terão balanço para aguentar, acho que algumas empresas não vão conseguir resistir porque não vão conseguir colocar o produto ao preço certo".


Além disso, recorda a importância que a economia informal, da venda nos mercados e nas ruas, ainda tem peso relevante em Angola, e que "não vai ser tão afetada" pela introdução do imposto.

 

"E a economia formal vai ser mais afetada pelo IVA. Portanto, vamos ver como é que isto tudo se vai adaptar. Eu acho que é importante formalizar-se a economia, é importante fazer um esforço no sentido de haver mais empresas formais, mais negócios formais, Pequenas e Médias Empresas", apontou, dizendo que a "taxação elevada" para as empresas "desencoraja os próprios empreendedores" a legalizar os negócios informais em Angola.

 

No atual momento da economia angolana, Isabel dos Santos alerta ainda para o "elevado" desemprego, cenário que se agrava todos os dias face ao crescimento demográfico do país.

 

"Estamos a falar de um crescimento de 3% ao ano. Numa população de 30 milhões são 900 mil novas pessoas todas os anos. Ora, ao mesmo tempo que estamos a pensar em bebés e crianças, temos também que pensar que são jovens que entram para o ensino, são jovens que saem do ensino e jovens que precisam de emprego. Mas ao mesmo tempo temos uma dificuldade porque a economia está a decrescer, estamos com um crescimento negativo. Ou seja, a economia não tem capacidade de absorver e criar esta quantidade de emprego que é necessária", ressalvou. Por isso, defende que é necessário que Angola tenha uma política de emprego para a juventude.

 

"O emprego é fundamental. Eu aprendi em minha casa, com o meu esposo, que o trabalho dignifica o homem, o trabalho constrói o homem e constrói a mulher. E efetivamente os jovens têm que encontrar o seu destino e quem eles vão ser na sociedade pelo trabalho e aí ter a oportunidade de ter um primeiro emprego é chave", sublinhou.

 

Garante que como empresária e apesar do atual período de crise económica, tem investido em Angola, também na formação de jovens.


"Temos duas academias, temos uma academia que é a sede, que é uma academia de retalho, onde os jovens aprendem profissões desde padaria, como trabalhar em peixaria, a serem gestores de 'stocks', a trabalharem com coisas complexas, como a gestão informática de armazéns. Criámos uma academia que forma cerca de mil jovens ao ano, e garantimos a esses jovens o primeiro emprego. Mas isso é um esforço que não podemos fazer sozinhos, é preciso que haja outras empresas a criar estas oportunidades", concluiu.

 



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