Luanda - A transição política em Angola terminou formalmente em 2017 com a saída de cena de José Eduardo dos Santos e a investidura de João Lourenço como Presidente da República.

Fonte: Facebook

Com João Lourenço, vieram as promessas de um novo estilo de governação, mas passados dois anos de mandato o país está longe de observar mudanças na acção governativa que representem uma melhoria na actividade económica com reflexo na vida das empresas e famílias.


Lembro-me quando morreu Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola. Organizámos um velório na empresa. No meio da comoção, houve um colega que pediu a palavra e disse: “Perdemos o nosso Presidente. Temos que criar um novo Presidente”. Penso que os presidentes de qualquer coisa, organização ou País, são sempre um produto colectivo, nunca algo já feito, acabado.


Com o Presidente João Lourenço, houve a mesma predisposição de apoiar, presumo eu. Por essa razão, alguns problemas na governação actual parecem estar mais ligados à descoordenação das acções do Executivo e à incompetência individual do que às boas intenções do Presidente. Prova disso são as remodelações governamentais que tem sido forçado a fazer.


Para a dimensão do compromisso e da caminhada do novo poder, seriam necessárias pessoas dotadas de determinadas características. Em Angola isso não é fácil, como escrevi há dias, porque a classe política é fraca. Muitos ministros aparentam não estar preparados para governar, transportam um discurso militante e repetitivo ultrapassado, e pergunto-me se algum dia souberam o que significa dirigir uma empresa e pessoas.


COMUNICAÇÃO DESORIENTADA
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Face a tanto que há hoje por fazer, a função-equipa e função-coordenação governamental são essenciais. Mas pelo que se ouve, a própria comunicação do Estado parece ter perdido ânimo.


Ao contrário do que sucedeu em 2018, nenhuma sondagem assinalou a passagem do segundo ano de mandato presidencial e o novo regime já está a recorrer a assessores externos.


Há um ano, o regime exultou com uma pesquisa de opinião da Consul Teste-Axis Research, que dava a estrondosa percentagem de 93%(!) dos cidadãos eleitores a avaliarem positivamente o primeiro ano de mandato presidencial.


Como está isso hoje? Aumentou a popularidade? Em que medida? Para mostrar transparência e demonstrar que o Governo não teme dificuldades, era importante medir a popularidade do Presidente no segundo ano de mandato. O “timing” era propício, já que se agravou a recessão económica e despontou uma grave crise social. Nada, contudo, foi feito, e a oportunidade foi perdida, numa falha de comunicação gravíssima.


O Executivo sabe que as sondagens em Angola são perigosas e geram sempre desconfiança. Primeiro, porque não são regulares, segundo, porque violam os princípios éticos. Mas sem estudos de opinião é difícil hoje comunicar bem. Serão novamente assessores brasileiros a realizar esses estudos, quando até já temos em Angola uma associação de comunicólogos?


CONSULTORES EXTERNOS
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A comunicação com o povo é importante, isso ninguém parece negar. Mas depois do primeiro choque com a realidade pura e dura do país, os responsáveis pela comunicação do Estado parecem estar agora a perder terreno, regressando às teorias da conspiração do passado, aos perfis falsos nas redes sociais e à atitude reactiva.
Alguns deles passam mais tempo a brincar no Facebook e no Twitter do que a trabalhar para melhorarem os mecanismos de comunicação do Estado. Basta ver as horas em que postam os seus comentários nessas plataformas...


Se a mensagem puramente propagandística de que há “mais abertura” e “mais liberdade” já cansa e transformou a comunicação do Estado num discurso exposto à falsidade e à hipocrisia, a contratação de consultores externos pagos a peso de ouro e geradores de corrupção, se nos recordarmos das experiências do passado, prática aliás criticada no início do mandato pelos actuais governantes, vem apenas confirmar que algo vai mal no reino da governação.


ESTRATÉGIA SUICIDÁRIA
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Mas, tudo isso acontece porquê? Porque desde o início do mandato presidencial, o Executivo começou a aplicar uma estratégia de comunicação arrojada, que se diz ter sido aprovada pela direcção do MPLA, mas cujos principais traços é hoje possível desenredar.


Essa estratégia consiste, resumidamente, em fazer grandes e alargadas cedências, numa primeira fase, aos círculos da oposição angolana, incluindo os grupos mais radicais, bem como aos velhos adversários de Angola no exterior, granjeando com isso simpatias internas e externas. Numa segunda fase, mais perto das eleições, ajustar a estratégia ao pensamento original do MPLA.


Segundo os promotores dessa estratégia, o Governo ganharia com isso, porque mostraria que a sua política de mais abertura à oposição, à crítica, ao contraditório e à revindicação social comporta benefícios, a começar por quebrar o “isolamento” de Angola no mundo, e por outro lado ajudaria a criar um melhor ambiente de investimento e negócios em Angola.


Considero esta estratégia, além de arrojada, suicidária. Aparentemente bem-intencionada, mas não sei se apoiada em alguma escola teórica, a não ser na da má consciência do nosso passado, em Angola ela confronta-se já com alguns efeitos perversos: um, a “purga dos marimbondos” no interior do MPLA, entendida como vinganças pessoais por ser selectiva e desrespeitar o princípio constitucional da igualdade, que arrasa qualquer simpatia; outro, a destruição da estrutura económica deixada pelo anterior regime, que gera desemprego; e, por fim, as reservas da oposição e de alguns meios internacionais, preocupados com a incerteza no futuro.
Ao contrário dos benefícios alvitrados, esta linha ideológica está a minar a base de apoio popular e eleitoral tradicional do MPLA – algo sempre procurado, mas nunca conseguido pelos seus adversários. Além disso, por corroer os vínculos de solidariedade existentes neste partido de implantação nacional, tende a espalhar o grau de insatisfação.


Já não é segredo para ninguém que a “purga dos marimbondos” está a degenerar na mais grave crise no MPLA desde as “revoltas” do período anterior à independência ao “fraccionismo” de 1977, com os “marimbondos” a acusarem os “abutres” de terem cometido actos tão ou mais graves do que eles, sem serem incomodados, num briga fratricida que reedita taras antigas, nomeadamente, o roubo e gestão de dinheiros e o abuso do poder, sem santos nem soluções pelo meio.
Mas, ainda assim, é irónico notar que os defensores dessa estratégia continuem convencidos de que ela voltará a garantir uma grande vitória do MPLA nas próximas eleições, facto já questionado pelos evidentes e justificados receios com as eleições autárquicas, marcadas para o próximo ano, nas quais estão a investir fortemente as correntes regionalistas e separatistas.


OPOSIÇÃO COM HABILIDADE
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Do lado da oposição, essa estratégia sobrevaloriza as fraquezas da oposição e minimiza as suas capacidades de resposta. Sobrevaloriza as fraquezas da UNITA, por exemplo, ao continuar a propagar, erradamente, como em 2017, que a UNITA dá sistemáticos “tiros nos pés” e que, se as eleições fossem hoje, seria derrotada. Minimiza as suas capacidades de resposta, ao julgar que a UNITA e Chivukuvuku andam a dormir na forma.


De um modo hábil, a UNITA tem aproveitado as “deixas” do grande adversário político. Fingindo entrar no logro, está a jogar o jogo do MPLA deixando a roda rolar. Se o MPLA quer jogar o contraditório, a UNITA entra no contraditório, mas quanto a questões de fundo vai escondendo o seu verdadeiro “contraditório”. Apenas no melhor momento, como ocorreu durante o julgamento de Augusto Tomás, em que Raúl Danda recuperou o contraditório dos “cabindas”, o grande contraditório da UNITA vem à tona.


O maior partido da oposição até incita o Governo a prosseguir na sua estratégia arriscada. Na recente réplica ao discurso do Presidente sobre o estado da Nação, Samakuva, matreiramente, incentivou o Presidente João Lourenço a continuar a destruir a estrutura económica deixada pelo seu antecessor. Samakuva percebe o desastre que isso está a provocar no MPLA, os danos que causa à economia, às empresas e às famílias, enquanto a base económica da UNITA, que mostra gastos enormes com a presente campanha eleitoral para a eleição do líder, se mantém incólume.


A menos que o MPLA, por hipótese, procure ardentemente caminhar para outras formas de poder, incluindo a passagem para a oposição, o efeito dessa estratégia do partido apenas pode ser mais desastroso do que o sucedido em 2017, levando à perda de mais mandatos no Parlamento.


Em 2017, recordemos, quando se dizia que a UNITA perderia a posição de segunda força política para a CASA-CE, o MPLA e os próprios serviços de inteligência foram surpreendidos pela acção mobilizadora do "Galo Negro", que, mostrando-se eficaz e desligada de qualquer prática partidária tradicional e usando na campanha eleitoral as redes de comunicação trazidas da guerra, e aparentemente não desactivadas, reforçou a presença na AN.


Sabe-se agora, por revelações feitas por um jornalista ligado ao “Galo Negro”, que o general João Baptista Rodrigues Vindes, ex-chefe dos serviços de inteligência da UNITA formado em Marrocos, França e Reino Unido, foi desde há muito tempo o “braço direito” de Isaías Samakuva e coordenou a logística eleitoral da UNITA em todo o país.


O CÉU É O LIMITE
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Para além da oposição, esta estratégia política e de comunicação do MPLA vai favorecer as igrejas e os sectores radicais da sociedade civil.


Para eles, esta é também a oportunidade há muito esperada de explorar o desmoronamento da estrutura que sempre suportou o MPLA, e que deixará de existir com o efectivo combate à corrupção ao nivel do Estado. Sem mais amarras, podem agora programar o caminho de ascensão aos céus do poder político.


Contribui para isso o facto de muitos dirigentes do partido terem há muito abandonado a sua antiga crença marxista e se resignado ao poder do mercado do lucro e das religiões, apesar de não pretenderem deixar de aparecer publicamente como os últimos comunistas à face da terra, dispostos ainda, quixotescamente, a combater a exploração do homem pelo homem e criar o homem novo...


A questão que se coloca agora é saber se o MPLA caminha para a sua própria destruição.


(*) Jornalista, Sociólogo e Gestor de Media

 



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