Lisboa - No âmbito das Relações Internacionais, em geral, e dos Estudos de Segurança, em particular, desde há muito que existe uma vasta literatura que aborda a temática da guerra, as causas e as motivações que lhes estão inerentes, e nomeadamente o envolvimento das Forças Armadas – criação, meios e acções – e o impacto político, económico e social que as mesmas reflectem no espaço nacional, regional ou continental, e global.

Fonte: Jornal Cultura

Mas quando o objecto de analise é a criação e o desenvolvimento de umas Forças Armadas de um País, como no caso que o Tenente-Coronel Luís Bernardino analisa – acrescentaria, que com oportunidade e inteligência vem apresentando e analisando –, o das Forças Armadas Angolanas (FAA), a obra, ainda que na sequência de outras duas já elaboradas e disponibilizadas, apresenta-se muito oportuna e importante, mais marcante se torna a análise desta obra.


O autor é um reconhecido investigador académico doutorado que, a par da sua actividade profissional como militar do Exército Português, e, talvez, por via disso, nos tem oferecido uma vasta obra sobre a temática da segurança e os esforços das Forças Armadas – no caso do autor, de diversos países, ainda que, na questão particular da segurança, com especial destaque para a temática da “Arquitectura de Paz e Segurança em África” – na persecução e manutenção da paz, no contributo para o desenvolvimento económico e social dos seus países e na formação do carácter dos futuros dirigentes nacionais.


Foi baseado nestes princípios, e no evoluir da sua carreira militar, que o Tenente-Coronel Luís Bernardino, após a conclusão do seu Doutoramento em Relações Internacionais, nos ofereceu, em 2013, a obra “A Posição de Angola na Arquitectura de Paz e Segurança Africana: Análise da Função Estratégica das Forças Armadas” (Coimbra: Edições Almedina, 964 páginas), onde nos recorda a evolução histórica da formação das FAA, da sua profissionalização e do preponderante papel que, na opinião do Professor Ives Gandra da Silva Martins, as FAA vêm tendo na “estabilização institucional à luz [do que o autor denomina de] trilogia do D (Defesa, Desenvolvimento e Diplomacia) ” (2013: 11).


Após este monumental importante documento, seguido na mesma linha temática, seguiu-se na língua inglesa a obra «Angola in the African Peace and Security Architecture: The strategic role of the Angolan Armed Forces» Lisboa: Mercado das Letras, já com duas edições (Maio 2017 e Março de 2019), 542 páginas; a que se segue este novo projecto «As Forças Armadas Angolanas: Contributos para a Edificação do Estado» que ora se analisa.


Ao longo da obra e das suas 800 páginas, 12 capítulos, distribuídos por 3 partes que dividem a obra, e excelentes documentos e fotos inéditos, o autor oferece-nos, com muita clareza, mais uma importante contribuição para a historiografia militar angolana, evidenciando e relevando, como refere no seu Prefácio o Ministro da Defesa de Angola, General Salviano Sequeira «Kianda», a “...valorização dos aspectos conceptuais de segurança e de desenvolvimento, bem como dos assuntos relacionados com a conflitualidade e as relações internacionais no Mundo e, em particular, em África...” (pág. 23), bem como sem esquecer, como recorda o General da FAA José Luís de Sousa, no seu Prefácio, “...estudar a transição das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola – FAPLA – a partir do maquis (...) e com o advir da junção de algumas forças guerrilheiras, tais como a UNITA, as FLEC e as FNLA, forças adversárias no passado, integradas hoje (... no) nascer das novas Forças Armadas Angolanas como processo de construção do Estado em Angola...” (pág. 27).


A obra que se analisa, As Forças Armadas Angolanas: Contributos para a Edificação do Estado, está dividida em 3 partes., sendo que a Parte I «As dinâmicas da segurança e do desenvolvimento em ambiente de conflitualidade. Uma abordagem no contexto africano» está distribuída por 3 Capítulos (pp: 53-164; a Parte II «As Forças Armadas Angolanas como elemento de potencial estratégico de Angola. Uma abordagem geoestratégica e geopolítica» – na minha opinião o núcleo principal desta obra –, dividia em 5 Capítulos (pp: 166-469), e a Parte III «Contributo das Forças Armadas Angolanas para a Segurança e Defesa Regional Africana. O Exercício Militar “Felino”», repartida por 4 Capítulo (pp: 470-569) a que não falta uma excelente, importante e profícua Bibliografia, seguida de 210 relevantes páginas de Anexos documentais entre fotos, comunicados e outros fundamentais documentos (alguns dos quais, entretanto, desclassificados).


De relevar, entrementes, alguns pontos que se considera de impacto para uma observação atenta a esta obra:

1. A temática da gestão de conflitos e conflitualidade em África (Parte I, Capítulo II, pp: 91-106) e as estratégias de segurança e apoio ao desenvolvimento em África (Parte I, Capítulo III, pp: 138-148) no âmbito da Arquitectura de Paz e Segurança Africana (APSA);


2. O potencial geoestratégico e geopolítico das FAA seja na formação da Nacionalidade (Parte II; Capítulo I, pp: 169-204), como vector de modernidade Parte II; Capítulo IV, pp: 349-364), ou para a construção da «nova» identidade e segurança angolana (Parte II; Capítulo V, pp: 367-469), sem esquecer a génese da formação das FAA (Parte II, Capítulo II);

 

3. O contributo das FAA não só para a Segurança e Defesa Regional Africana (Parte III), tanto no espaço da APSA (Parte III; Capítulos I e II, pp: 471-516), seja nas participações internacionais, no caso, exercícios militares conjuntos internacionais, como o exercício militar «Felino», onde Angola, pela primeira vez, em 2010, foi sede dos mesmos (Parte III; Capítulo IV, pp: 528-541), sem esquecer, contudo, a reflexão estratégica (Parte III; Capítulo II) e o cooperação das FAA no Centro de Estudos Estratégicos de Angola (CEEA), importante Centro de Investigação civil-militar – talvez, o mais relevante centro de investigação de Angola com impacto internacional – o que demostra a peso das FAA nas relações entre os sectores militar e civil (Parte III; Capítulo III, pp: 523-526).


Perante esta análise, considero que esta obra do professor Doutor e Tenente-Coronel Luís Bernardino traz, na linha das anteriores obras publicadas que abordam a temática das Forças Armadas Angolanas, um significativo e forte contributo para os académicos – bem como para as próprias Forças Armadas – nos seus estudos de e sobre Angola e sobre o contributo de ambos (Angola e FAA) para a segurança regional e continental – bem assim como para um melhor conhecimento sobre a Historia de Angola.

Lisboa, 07 de Outubro de 2019


1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.
2. Investigador Integrado do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL).
3. Investigador associado do CINAML (I&D da Academia Militar de Lisboa).
4. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).
5. Investigação para Pós-Doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade Agostinho Neto
a. [http://elcalmeida.net] e Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Publicado no jornal Cultura- Jornal Angolano de Artes e Letras, edição 192, de 22Out- 4Nov.2019, página 11



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