Lisboa - O dilema africano é agora entre nacionalismo e tribalismo e as questões essenciais prendem-se a temas como a hierarquia de lealdades entre identidades nacionais e tribais.

Fonte: Jornal Economico

O principal problema político da África subsaariana é o da constituição e consolidação do Estado soberano; isto porque a formação institucional da África moderna foi muito determinada pelo pós-guerra e pelos interesses dos então poderes coloniais.

 

A ideologia consagrada na Carta das Nações Unidas depois da Segunda Grande Guerra desencorajava as relações imperiais ou coloniais e a Guerra Fria que então começava levava Washington a apoiar a descolonização para evitar que Moscovo capitalizasse politicamente junto dos movimentos independentistas.

 

Esta estratégia norte-americana, juntamente com a base essencialmente económica da colonização europeia, levou a que o Reino Unido e a França anunciassem “ventos de mudança” e promovessem as independências africanas.

 

Outros poderes europeus seguiram o mesmo caminho. Portugal foi a excepção, por considerar os então territórios ultramarinos parte integrante da nação e essenciais para a independência nacional.

A nova vaga nacionalista

O paradigma do conflito ideológico está a mudar. Terminadas as economias socialistas, o principal dualismo já não é entre liberais (económicos) e socialistas (económicos, também), mas entre identitários e globalistas.

 

O factor identitário – com o proteccionismo económico e a restauração do conceito de fronteira – tem sido determinante para a emergência dos nacionalismos na União Europeia. Na China de Xi Jiping, na Rússia de Putin, na Turquia de Erdogan ou nos Estados Unidos de Trump, o nacionalismo também se tem vindo a impor ao globalismo reinante desde o fim da Guerra Fria, com repercussões na política interna, migratória, económica e comercial.

 

A África não é imune a esta evolução. As confrontações xenófobas na África do Sul e as reacções de países como a Nigéria e a Zâmbia, cujos nacionais foram alvo de agressão, vieram chamar a atenção para a ambiguidade das “identidades” e confirmar a morte anunciada do pan-africanismo.

 

O dilema africano é agora entre nacionalismo e tribalismo e as questões essenciais prendem-se como a hierarquia de lealdades entre identidades nacionais e tribais.

 

Onde houve uma aceleração do processo de integração nacional – como em Angola, em que a guerra civil forçou a urbanização e a movimentação dos combatentes promoveu a mistura interétnica –, o problema da unidade nacional é mais simples. O mesmo não acontece onde há fragmentação cultural e etno-partidária – como na África do Sul e na RDC, onde as identidades raciais ou tribais subsistem ou na Nigéria, onde a religião é um factor de divisão.

 

A África subsaariana tem grandes potencialidades: reservas de água e boas terras agrícolas, recursos energéticos, abundância e variedade de minerais estratégicos. Além disso, tem expectativas de crescimento demográfico e urbanístico, logo, de potencial crescimento dos mercados.

 

Mas a segurança é prévia a todos estes cenários e expectativas e a estabilidade política continua a ser condição sine qua non para o desenvolvimento económico.

O caso da África Lusófona

Em Angola, Moçambique e na Guiné Bissau, a luta pela conquista do Estado fez-se pela insurreição e pela guerrilha. A guerra da independência gerou vanguardas e lideranças locais, centralizadoras do poder, que vieram depois a ocupar a chefia dos novos Estados. Estas vanguardas tiveram de travar longas guerras civis para se manterem no poder antes de negociarem a paz com as oposições, subalternizando factores tribais e secessionistas. A natureza insular de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe também acelerou a integração e a unidade.

 

É uma vantagem comparativa sobre outros Estados africanos que receberam a independência como concessão do poder colonial. Neste momento de eleições em Moçambique e na Guiné Bissau e de transição em Angola – onde, apesar dos problemas económico-sociais, há unidade e identidade nacionais – é importante conservar e valorizar esta singularidade “lusófona” e continuar a promover a construção e consolidação do Estado.

 

* Historiador, Doutor em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa



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