Luanda - Luanda tem apenas 213 autocarros. Estudos apontam para a necessidades de 1800 veículos para transportar os cerca de 6 milhões de habitantes. Moradores clamam por mais autocarros.

*Daniel Jonas
Fonte: Observatório da Imprensa

A exiguidade de transportes públicos cria transtornos diários aos citadinos de Luanda que procuram locomover-se para o serviço, residência, escola, entre outros locais.

 

Luanda possui mais de seis milhões de habitantes, e maioritariamente nos arredores da cidade. Duas grandes empresas prestam serviços de transportes públicos, nomeadamente a Transportadora Colectiva Urbana de Luanda TCUL e Macon, num total de cinco empresas existentes, entre elas a SGO, TURA e AngoReal. As três últimas inoperantes.

 

Luanda tem 213 autocarros a servirem a rede de transportes colectivos urbanos, em 50 rotas, quando estudos apontam para a necessidade de 1.800 veículos desses para 105 rotas, de acordo com números apresentados pelo director do Gabinete Provincial dos Transportes Trânsito e Mobilidade Urbana.

 

Para a transportação, as operadoras cobram 50 kwanzas por pessoa em cada viagem. Os constrangimentos incidem sobretudo na lotação dos meios ao serviço de mais de seis milhões de habitantes. Insuficiências essas, socorridas pelos serviços de kandongueiros.

 

Eva Francisco, cobradora de transporte público privado, da rede Macon, afirma que “os transportes são poucos e a população actualmente depende muito dos transportes públicos para ir ao serviço, visto que os salários, não compensam. Para poderem apanhar os táxis. Não tem sido fácil o nosso dia dia. É complicado. Os autocarros ficam tão abarrotados. Muitas vezes nós não temos culpa.”

 

“Até já nos faltam respeito. Nós estamos abarrotar os autocarros. Mas é compreensível do nosso lado, porque eles também querem chegar aos locais de trabalho, e mesmo se pendurando nos autocarros. É complicado a nossa situação do dia-a-dia”, comentou a entrevistada.

 

“O meu dia-a-dia começa as quatro da manhã. Eu saio de casa às 3 ou às 3 horas e trinta minutos para o local de trabalho e 5 da manhã estar já, no terminal onde vamos começar o nosso trabalho. É um pouco distante do meu local de trabalho.”, lamentou.

 

Eva reconhece o sacrifício, mas faz tudo pelos filhos. “Eu tenho filhos já adultos. Tenho netos. Eu carrego muitas responsabilidades. Uns estão a fazer a faculdade, outros no médio e no básico. É duro também desistir desse emprego. Não posso porque os filhos devem se formar para o futuro. Eles devem estudar. Então, nós os pais temos que trabalhar, não podemos parar. É difícil, mas temos que aguentar” argumenta.

 

Prossegue dizendo que “enquanto um autocarro está aqui, o outro esta lá (no Golf2), vamos nos comunicando. Quando eu parto ele também (o colega) parte de lá. Para equilibrar a situação. Eu proponho que o governo apoie mais as empresas de transportes públicos para o bem da população.”

 

“Eu já vi um aluno a perder a primeira prova por não ter conseguido apanhar o transporte publico às 6 horas e 7 horas. Tem senhoras que reclamam muito no autocarro porque a patroa mandou-lhe voltar em casa”, conta.

 

Em 2019, segundo dados oficias fornecidos pela Associação Nova Aliança dos Taxistas ANATA, “a nível de Luanda circulam mais de 40 mil táxis, sendo 38 mil Azul e Branco”, informou Geraldo Wanga Presidente da Associação.

 

O presidente Associativo assegura que “cada veículo em serviço de táxi em Luanda, transporta diariamente entre 170 a 180 passageiros, o que dá em media diária a locomoção de cerca de 8 milhões de passageiros”, factor que Wanga considera “eficiente e de extrema importância, ao invés das grandes empresas transportadoras”, e apela ao bom senso do Executivo angolano para apoiar aos operadores desta actividade, na “profissionalização do serviço de táxi, inclusão dos mesmos na segurança social” por considerar ser “uma actividade de escravatura”, referindo se a situação banal e de sabotagem que passam por parte de quem deveria dar mais valor.

 

“Lamentamos o facto de que o táxi não é até hoje, uma actividade profissional (reconhecida). Trabalhamos mais de 14horas ao dia, e 96 horas por semana. É uma actividade de escravatura. 85% dos taxistas são jovens e vivem em casas de renda, pelo menos estariam inscritos na segurança social” porque segundo Geraldo Wanga, “a economia informal anda de carona nos nossos carros, daí que quando os taxistas param, o país paralisa, por que somos nós quem transportamos os trabalhadores de saúde, estudantes, professores e outros funcionários públicos aos seus locais de serviço”, lamenta.

 

“Luanda tem 213 autocarros a servirem a rede de transportes colectivos urbanos em 54 rotas, quando estudos apontam para a necessidade de 1.800 veículos desses para 105 rotas, de acordo com números apresentados pelo director do Gabinete Provincial dos Transportes Trânsito e Mobilidade Urbana, Amadeu Campos” refere o relatório de estudos de viabilidade.

 

Na primeira semana de Outubro, o Executivo angolano anunciou a aquisição de 202 autocarros, para o reforço das rotas de Luanda, a fim de ajudar na mobilidade dos citadinos. Passadas semanas, não se verifica a introdução de novos meios de transporte.

 

Joana António Albino, estudante de Geodemografia em Luanda, afirma que a situação dos “transportes em Angola é extremamente complicado. Vivo no Zango3 e gasto por dia entre 1500 Kwanzas. Sou desempregada, tem sido muito difícil para se deslocar tenho que me levantar muito cedo, entre 4 a 5horas, e às vezes caminho do Largo Primeiro de Maio à escola junto ao Aeroporto. Vezes há que tenho que pegar táxis em linhas curtas e gasto mais”. E apela o aumento do número de transportes para acudir a demanda: “é muita agente nos transportes públicos, pessoas há que viajam em pé dentro dos transportes, e aquela confusão de apertos há pessoas que não aguentam. Se houver possibilidade de aumentar mais transportes públicos, acho que irá ajudar a diminuir as demandas” frisa, reconhecendo também que um outro factor que provoca a escassez é o factor congestionamento no período de manhã, principalmente nas vias que ligam Viana e centro da cidade. Finalmente, apela a descentralização dos serviços.

 

Noé Eduardo, taxista desde 2008, afirma que “a vida de taxista é muito difícil. Acordamos às 4hora. Ajudamos muito a população no dia-a-dia, e o governo em geral. Imagine: fizemos por dia 12 viagens e o carro tem 30 lugares, e cobramos menos: entre 100 a 150 Kwanzas, mas encontramos as dificuldades de falta de paragem”, conta o motorista de mini-autocarro que deve pagar ao patrão 25 mil Kwanzas por dia.

 

Justino Mwenho, passageiro e trabalhador, descreve, “só passageiro. Praticamente a minha vida é essa em função da trajectória que eu faço diariamente, não existe conforto de acomodação nos transportes em Luanda. Os cobradores às vezes ofendem, não facilitam a vida dos passageiros. Há situações em que senhoras grávidas ficam em pé nos transportes. Passamos entre 40 a 75 minutos a espera de táxi. Luanda ainda em esse problema. Tem que melhorar neste aspecto´´

 

Jorge, motorista dos serviços da TCUL, informa: “é muito difícil o que enfrentamos aqui. Os próprios passageiros se tornaram obstáculos para o nosso trabalho, porque muitas vezes nos provocam risco de não cumprirmos o próprio código de estrada”. Explica ainda que “no fim do dia não saímos com nada, porque temos metas a atingir das 5hora até as 13hora. Temos que apresentar só na via entre Primeiro de Maio a Viana Kapalanga 1000 bilhetes por turno. Por isso, é impossível ficar com qualquer coisa no bolso.”

 

Jorge vai mais longe e conta que “transportes suficientes está escasso. Não existe meios disponíveis, e se existissem acho que diminuiria o risco na condução e a população também estaria um pouco calma. O que justifica o excesso de lotação é autorização para atingir o teto dos mil bilhetes”.

 

“Estes motoristas dos táxis informais têm um papel muito importante porque sem eles, nós dos serviços públicos não conseguiríamos fazer nada porque a população demais”, elogiou os colegas.

 

Para a Sara Kalunga, estudante e desempregada, com a qual o Observatório cruzou no largo Primeiro de Maio, diz estar na paragem de táxi, há mais de 30 minutos, esperando um autocarro para a Gamek, de regresso a Casa.

 

O IMEL é o único instituto de ensino médio que agrega o curso de Gestão de Transportes desde 2016. O Director da instituição, Jorge Cunha, fez saber que “espera muito dos formando que poderão terminar o curso em 2019 para dar soluções na mobilidade urbana de Luanda. Precisamos destes quadros, jovens com ideias brilhantes para o alavancar da economia, e que possam trabalhar para o Ministério dos Transportes, nos armazéns, empresas, e esperamos que o curso seja a solução para a mobilidade urbana em Luanda, que é muito complicada” explica.

 

“Temos cadeiras muito aceitáveis. Temos o Marketing de Logística, Tecnologia de Transportes, Meios e Gestão de Transportes, Planeamento e Gestão de Frotas, Sistema de Informação Geográfica entre outras. Sabemos que a situação dos transportes é muito grave, está caótico. Está terrível. Nós precisamos ser primeiro disciplinados nas filas, evitar a desorganização, precisamos sensibilizar a sociedade”, asseverou.

 

Para o Sociólogo, João Baptista Muanza, “o estado actual dos transportes públicos em Angola não é satisfatório porque existe uma situação de desequilíbrio entre os diversos meios de locomoção, seja rodoviário, ferroviário, fluvial como marítimo. Não há interligação entre os três meios. Existe uma preocupação pertinente em termo de circulação e engarrafamento, principalmente nas horas de ponta. E praticamente é impossível ser pontual. É utópico pensar que a TCUL, e a MACON possam respeitar o horário. Nunca foi possível. É uma questão de organização. Precisamos a coordenação de meios que dispomos.” (Confira o ponto de vista integral em áudio)

 

Esta é a realidade diária dos Luandenses no que a mobilidade diz respeito.

 



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