Luanda - Realmente só Deus sabe ou o destino poderia explicar como ainda estamos em vida. Digo estamos porque, nesse fatídico dia, morreram, mais precisamente nesta noite do dia 08 de Novembro, dezenas de camaradas nossos a medida que iamos atravessando o corredor da morte. E até hoje continuamos a reivindicar, no bom sentido, um cafezito com o General para lembrarmos esse dia em que só Deus nos pode ter poupado da morte. O Mangope (COMANDO DE VERDADE) ali na foto foi sim um grande herói. Eu ia afrente do General, ou seja, atrás de mim, estavam dois companheiros e atrás dos seguranças do General estavam o Sérgio da Costa Campos e mais uns meus colegas.

Fonte: Club-k.net

 MOMENTOS VIVIDOS ENTRE A VIDA E A MORTE - Felix Miranda

Isso aconteceu justamente nas proximidades da 5ª Esquadra, a noite do dia 08, quando abandonavamos a Delegação Provincial da UNITA próximo do Largo Serpa Pinto e onde eu tinha instalada a Rádio FM-VORGAN LUANDA. Andamos toda a noite debaixo de tiros e granadas, superamos barreiras de jovens armados com AKM. Chegados na linha férrea, exaustos e incrédulos de termos ali chegado em vida, pensando que o perigo tinha ficado para trás, o General Gato, enquanto esperavamos o resto da coluna que andava dispersa devido os ataques, vira-se para mim e diz: “Óh Félix. Afinal aquilo que temos visto nos filmes é verdade, tantos tiros, granadas e estamos vivos, nem feridos. E eu sem pestanejar respondo_ Não Mais Velho! Ainda não chegamos. Não tardou, o resto da coluna que tinha ficado em debandada chegou com o, na altura nosso para-Médico de nome Assis que dava conta da dispersão dos restantes. Deixamos a Linha Férrea e mergulhamos para o interior do Kazenga, era um verdadeiro Congo Pequeno. Dava a impressão de em cada casa haver uma arma. Os tiros vinham de todos os lados.


Do outro lado da estrada para Viana, mais precisamente na BCA do Grafanil, havia montada uma emboscada, talvez com 10 metralhadoras PKM e Lança Roquetes que cortaram-nos a via. Os tiros e as bombas se não batiam nos corpos (humanos), descascavam os embondeiros. Muitos comandos e alguns civis ali tombaram, outros que conseguiram passar por milagre, muitos deles foram feridos. Fomos salvos por uns comandos que nos agarraram impedindo continuarmos a marcha. Foi assim que ao darmos alguns passos atrás, naquele alvoroço entre penumbra ou meia luz de entre os becos e casebres, sentimos o General a gritar, um Anti-motim curvado com a pistola na mão numa janela e o Mangope que acabava de alvejar o atirador e o cano da arma a fumegar, amparava ainda o General. Seu companheiro tinha sido atingido fatalmente. Foi então que o meu colega jornalista Sérgio da Costa Campos agora em Portugal, com quem trabalhava, instintivamente rasga a sua camisola de propaganda do Gen. Savimbi, e veda a mão do General ensanguentada.


O General levado às costas, fomos forçados a recuar e a tomar as montanhas passando pelas imediações do Futungo para apanhar a Quinta onde o General Bigen tinha a Logistica da Campanha da UNITA e onde igualmente se travaram rudes e mortíferos combates, com queimas de tanques, blindados, etc. Só chegamos na Quinta de manhã. Ali o General recebeu os primeiros curativos. E nós continuamos a retirada via Fazenda do General Pedalé e saltamos sob enormes riscos o rio Zenza para chegar ao Caxito onde nos aguardava o General Numa nas Torres Quilengues, bem perto de Caxito. e quando o MPLA anunciava ter decapitado toda a Direcção da UNITA, eu lancei ‘no Caxito’ para a VORGAN a Mensagem da Esperança, através de um Rádio das Tele-comunicações, garantindo a toda Angola e ao Mundo que grande parte da Direcção da UNITA tinha escapado, inclusive o General Ben-Ben que depois nos encontrou pelo caminho e contou-nos da peripécia em que tinha deixado seu irmão Salupeto Pena. Simulei que estavamos em Cabo Ledo (o que era impensável), quando efectivamente estavamos no Caxito e pelo meio deixavamos plantados cadáveres e feridos que não conseguimos socorrer.


FOI SIM ESSA UMA ODISSEIA. E O FILME QUE O GENERAL GATO PENSAVA ESTAVAMOS A PROTAGONIZAR SEM MORTOS E FERIDOS, NÃO ESTAVA NO FIM, ERA APENAS UM DOCUMENTÁRIO. HOJE, GRAÇAS A DEUS ESTAMOS VIVOS, MUITOS OUTROS NÃO TIVERAM ESTA SORTE E ATÉ HOJE REIVINDICAMOS O NOSSO CAFEZITO AO GENERAL PARA NOS LEMBRARMOS DAQUELE DIA E SUBSEQUENTES.

AQUELE ABRAÇO DE UM DOS SOBREVIVENTES, EM NOME DOS DEMAIS

Félix MIRANDA

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