Luanda - No mes passado o secretário do sindicato, Gouveia Numa, foi ameaçado pelo director fábrica de uniformes militares, Artur Tombia por defender os interesses dos trabalhadores, momentos antes da reunião onde se previa debater a actual crise na empresa.


Fonte: AGORA


A fábrica de uniformes militares, no Cazenga, está agitada. Os trabalhadores exigem melhores condições laborais e apontam, em primeiro lugar, o fim das arbitrariedades no pagamento de salários.

 

 Por estarem expostos a produtos químicos defendem que gostariam de beber leite regularmente e serem assistidos com atenção no posto médico, cujo pessoal é acusado de fugir ao profissionalismo. O tratamento faz-se na base de analgésicos que apenas servem para aliviar as dores de cabeça. Quando recorrem a outros centros hospitalares a empresa não justifica as faltas.

 

O refeitório, que também trabalha com muitas limitações, não obstante receber abastecimento regular da Casa Militar, nem sequer tem bancos, levando os trabalhadores a sentarem-se debaixo das árvores ou mesmo no chão no momento da refeição. "Estamos a ser maltratados pela direcção que não olha para os inúmeros problemas que nos afectam", clamam os trabalhadores, agastados com o facto de nem sequer possuírem luvas e máscaras de protecção contra os químicos perigosos à saúde.

 

Outra ilegalidade apontada tem a ver com os descontos para a segurança social que são feitos há mais de 3 anos, mas os trabalhadores não têm cartão. Aliás, também não possuem nenhum documento que certifique o seu vínculo laboral. Por isso, temem inclusive o risco de serem interpelados pela polícia confundindo-os com marginais.

"Corremos esse risco porque estamos indocumentados. O desespero está generalizado porque nem sequer sabemos o paradeiro do dinheiro descontado para a segurança social", referiu um operário da linha de produção de botas, a mais arriscada secção onde estão instalados equipamentos para o tratamento da borracha que libertam vapores venenosos como enxofre, óxido de zinco e silicato de alumínio susceptíveis de provocar morte lenta.


Autoritarismo

Mais grave ainda é que a todas as arbitrariedades os trabalhadores são obrigados a ver e calar sob pena de serem despedidos. "É uma calamidade na fábrica. Ao que sabemos, o director é engenheiro químico, mas está a atropelar sistematicamente as regras elementares de segurança, colocando em risco muitas vidas", disse um operário que labuta na fábrica há 5 anos.

 

O AGORA procurou ouvir a versão do director Artur Tombia, mas este estava indisponível. Este, segundo as nossas fontes, já foi director da Textang II na altura fábrica de tecelagem de onde viria a ser exonerado por abusos similares.

 

A fábrica de fardamento, com cerca de dois mil trabalhadores, existe há 7 anos, colocada nas instalações da antiga fábrica de tecelagem e depende da Casa Militar da Presidência da República. Por este motivo, os trabalhadores julgam-se injustiçados, não admitindo os "maus-tratos" nem o facto de ganharem entre 9 a 18 mil kwanzas que, ainda, como se não bastasse, sofrem descontos "anárquicos".

 

"Trabalhamos numa fábrica cujo desempenho devia ser exemplar para o sector industrial. Os chefes de departamento não têm nenhuma autonomia, praticamente são meros espectadores que apenas vão aos gabinetes e no final do mês recebem imerecidamente o salário. Todas as decisões são tomadas unilateralmente pelo director sem qualquer contestação. Pensamos que isso não é admissível, sendo necessário pôr fim a esta dramática situação em que estamos mergulhados", notaram as nossas fontes. Na fábrica trabalham também expatriados indianos que têm sido mais privilegiados em detrimento dos angolanos.



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