Luanda - Em cada 11 de Novembro, principalmente depois de 1977, fora ou dentro de Angola, retiro-me, em oração. Converto-me ao budismo, à reflexão, ao isolamento, ao silêncio, para não afastar da mente, o mesmo ódio, dos algozes, que assassinaram, aos milhares (cerca de 80 mil), os meus e nossos camaradas, fisicamente, a mando de António Agostinho Neto, feito herói, exclusivo de Angola, quando “genocidamente” disse: “Não vamos perder tempo com julgamentos”. Elegeu a barbárie como filosofia de Estado, infelizmente.

Fonte: Folha8

Com esta abjecta sentença, a partir daquele fatídico dia: 27 de Maio de 1977, “mataram os homens, não as suas ideias” e com a barbárie genocida, apagaram da história de Angola a importância que uma data, como a Independência Nacional, que deveria merecer da parte de todos os filhos, paridos neste torrão.

 

Poucos, no lugar dos muitos, se orgulham e, esses poucos, para desgraça colectiva, têm endereço partidocrata. Um endereço discriminatório e que pensa ser Angola sua coutada (violou os Acordos de Alvor, rubricado com os revolucionários do Movimento das Forças Armadas de Portugal, que derrubaram o fascismo), instaurando a lei da baioneta e o império do terror e da fraude.

 

O meu retiro é um exercício e apelo a justiça.

 

Por essa razão, passo, religiosamente, defronte a sede da DISA, em Luanda, nas províncias, o mesmo exercício no exterior, nas embaixadas, convertidas desde aquela época, mais em símbolos do MPLA, do que da República, logo, ainda as vejo como masmorras, que enclausuraram centenas de camaradas inocentes, que estavam, no exterior, em formação ou a estudar, enviando-os para os campos de tortura e da morte, plantados pelo MPLA, um pouco por todo o país, numa cópia fiel a Gestapo de Adolph Hitler. Esta é a história. É a realidade. A verdade dói, mas liberta. E, como tal, basta a unidade das vítimas, todas, na busca, não de vaidades umbilicais, nem de vinganças, para se ressuscitar a esperança de se ver condenada a mortandade institucionalizada, por não prescrição, quer pelo direito pátrio, como internacional.

 

O art.º 61.º CRA (Constituição da República de Angola) é claro quando considera os crimes hediondos, como imprescritíveis e insusceptíveis de amnistia.

 

Esta é uma pista jurídica capaz de conduzir a bandeira das vítimas ao Tribunal Penal Internacional, face à farta documentação probatória e evidências de institucionalização da barbárie, pelo presidente Agostinho Neto e respectiva entourage de 1975 a 1979. Esta poderá levar o TPI a avocar o processo, dando-lhe o devido processamento penal e condenação, a exemplo do que acontece, com os ex-nazistas de Hitler.

 

Uns dirão ser esta tese o ressuscitar de fantasmas do passado; uma página escura do regime do MPLA/Estado. Não é.

 

São a constatação de a falta de nobreza política, manter sempre incubados os temas sensíveis, à flor da pele, da maioria discriminada, quando se comemora uma data, como a da Independência nacional, comemorada, por uns, quando deveria, 44 anos depois, unir os seus filhos e não os excluir, por não pertencerem ao grupo dominante. Existem razões de somente o MPLA e os seus dirigentes presidirem, exclusivamente, às comemorações de uma data, que deveria ser importante para todos autóctones? Não!

 

A pretensão não pode ser apenas lembrar datas cuja importância resulta da forma como o sistema se reconcilia com passados tenebrosos. É importante, restituir a dignidade, a história e o respeito da memória das vítimas, do maior genocídio depois da II Guerra Mundial.

 

O carimbo do mal continua a simbolizar a partidocracia dos órgãos do Estado, consagrado constitucionalmente, na primeira constituição do MPLA, imposta à República, que viveu de 1975 à 2010, sem uma constituição republicana, mas com a partidária, aprovada exclusivamente pelo comité central do MPLA e promulgada pelo presidente do MPLA, Agostinho Neto e não o Presidente da República.

 

Sei que a boçalidade, a malandragem tem muita força e uma infinita capacidade de regeneração, mas há-de chegar o dia em que as forças do bem vão triunfar e mostrar que um país na se faz com a “Lei do Chicote”, autoritarismo, militarismo, ditadura, tão pouco, as “matumbas vaidades mentais”, percorrerão impunes os corredores do poder, pese os milhares de arsenais de armas, subservientes a um partido, cujo dicionário estatutário, exclui as palavras; alternância, transparência, boa-fé, rigor, ética, honestidade e democracia.

 

São uns mandriões, poucos, quais colonialistas negros, que, infelizmente, continuam a explorar a maioria preta, mulata e branca, que temendo as baionetas da ditadura, abre uma avenida covarde de omissão, aceitação e resignação, ao invés de lutar, mesmo quando hoje, pairam, no ar, novos aromas.

 

A esperança de uma verdadeira mudança, gerou, em menos de dois anos, insatisfação, que campeia por entre os becos e carreiros dos musseques e sanzalas, alertando poder estar a chegar a hora da indignação popular, por ausência de um sentido de Estado de quem, hoje, ainda, partidocratamente, detém, o leme do país.

 

Infelizmente, a fissura criada no partido no poder, pelo presidente João Lourenço, as profundas divergências, com os empresários e sociedade civil, podem ser vistas como um estímulo, às forças da mudança.

 

A data desta independência 2019, mostra estar a faltar apenas unidade, entre os partidos da mudança, os partidos de viés social democrático, mas, também e, fundamentalmente, uma posição coerente da Igreja Católica de Angola, dos bispos e padres nacionalistas e descomplexados, pese a força da parte submissa e complexada, para tal como no tempo colonial, não ficar toda conotada, como um apêndice do poder, contra os pobres, explorados espiritualmente, face à pobreza material.

 

É preciso, também, que a Igreja Tocoísta e a Simão Kimbangu, angolanas e africanas, se orgulhem por manterem viva a chama da identidade cultural e tradicional dos autóctones, de que antes mesmo da chegada das caravelas coloniais, nós, os africanos, também, tínhamos cobertura divina e orávamos ao nosso Nzambi, santos e profetas. Tínhamos convicção religiosa. Hoje existe muita imposição e complexo da parte do poder, por essa razão se atira denegrindo todas as congregações de matriz angolana, como a Congregação de Kalupeteka, cujo líder é um preso político, condenado sem provas blindadas...

 

Os evangélicos, também, têm de optar pela sua hora, não podem continuar sempre em cima do muro. O país está carente de uma definição, do Presidente da Republica, também e principalmente.

 

Ainda assim, alguém, ingenuamente, acreditou, que neste 44.º aniversário, depois das condecorações, feitas no Palácio a várias personalidades, João Lourenço tivesse a elevação de apelar à humildade política, convidando, por exemplo, o engenheiro Ngola Kabangu, da FNLA, a presidir às cerimónias centrais do dia da Independência Nacional. Ledo engano. O ADN do MPLA não está talhado para actos de magnanimidade e noções de Estado, sem subjugação.

 

Aprisionar o Estado, não torna mais forte um partido, uma elite, um fascismo, uma ditadura, apenas adia a força da sua queda, do seu desmoronamento e do seu desaparecimento do espectro político do país. Exemplos? Para quê, eles estão à mão de semear, fundamentalmente, os antigos aliados europeus.

 

O MPLA fez pouco, faz pouquíssimo e, numa altura em que até já se vende, nos mercados, montes de massa esparguete, o desemprego atinge 1 milhão de trabalhadores, a delinquência aumenta, sendo imprevisível, vaticinar até quando as baionetas, resistirão à indignação social, pelo descalabro da economia e política.

 

Mas, chegados na esquina do vento, vimos, neste 11 de Novembro, uma revolução silenciosa interna, no MPLA, não porque foram excluídos mas por ter ascendido muita mediocridade, numa cúpula incapaz de parir mais do que a bajulação canina ao líder.

 

Está a custar ao partido no Poder, a inteligência e ponderação, para enxergar que a vida terrena não é eterna e, chega, um dia, uma hora, que a máquina da estratégia, informaticamente, discriminatória, se torna incompetente para continuar a recauchutar a fraude.

 

Pese o verniz institucional, nas acções internas e externas, o descalabro na condução do país, face à estratégia, de combate à corrupção, não tem conseguido mais do que meras promessas, a desconfiança no mercado e o temor ao dinheiro, tudo, que infelizmente, o desabona.

 

E, em função disso, viu-se, neste 11 de Novembro, ser impossível, não só, a realização das eleições autárquicas, em 2020, como a conversão do Presidente da República à democracia plena.

 

A incapacidade, nestes dois anos, em assumir os erros de 44 anos de má governação (no 11 de Novembro), aceitar a critica dos contrários, rejeitar um “Pacto de Regime”, não deixa, infelizmente, para a maioria, mas, quiçá, felizmente, para João Lourenço, outra margem, senão a de continuar a gerir o país, com mão de ferro, autoritarismo puro, semelhante a postura dos ditadores, rodeado de armas, canhões e soldados, mas falando de democracia, para impressionar os estrangeiros.

 



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