Luanda - Circulam por aí certas opiniões que defendem que Angola precisa de um regime ditatorial, para poder levar a cabo a tarefa do desenvolvimento sócio-económico. Dizem essas vozes que “isso de democracia impede a condução dos projectos de desenvolvimento do Governo”.

Fonte: Club-k.net

Essa linha de pensamento é letal para o futuro de Angola. Porquê?


Pela simples razão de que nós, angolanos, já tivemos a experiência dolorosa da ditadura. Foram 500 anos de regime esclavagista e semi-esclavagista (contrato). A seguir tivemos 44 anos de um regime que nunca se definiu concretamente, desde as cartilhas do marxismo-leninismo mal assimiladas e desadaptadas do Estado pós-colonial, até ao multipartidarismo baseado na exclusão do outro dentro da máquina política nacional, mesmo com a curta experiência de um GURN com sabor a espuma de sabão.

Nos últimos 14 anos da ditadura colonial, o regime abriu as portas a uma maior inclusão dos autóctones no sistema educativo (um dos melhores da África Austral), o que permitiu uma mais eficiente distribuição da riqueza por via do emprego e da ocupação de postos de oficiais intermédios nas forças armadas. Nesses últimos 14 anos da ditadura colonial, Angola tornou-se um dos maiores produtores e exportadores mundiais de açúcar, café e outros produtos da terra. Montavam-se viaturas aqui, fabricavam-se bicicletas e outros produtos metálicos, plásticos e tecidos, tínhamos uma boa rede de transportes públicos e estradas para esses meios circularem. Havia saúde pública universal. Mas não havia liberdade.

A formação dos movimentos de libertação teve como causa principal a falta de liberdade política, da qual resultava a não participação na política angolana dos filhos da terra. Quem mandava era o colono. Quem tivesse pretensões a opor-se ao regime fascista português era preso, deportado, ou até morto.

É aqui que surge a pergunta para os defensores da ditadura pós-colonial, como única via para resolver os problemas do povo: então, se já havia desenvolvimento sob o colonialismo, se já havia uma esperança de futuro económico para o angolano, porque é que fomos para o maquis? Não foi por causa da liberdade política de decidir sobre o futuro do país, sobre a melhoria das condições de vida do povo e sobretudo, de poder falar, criticar o que estava mal e propor ao Governo formas de participação local no desenvolvimento?

Mas o país conheceu um longo período de governação autóctone (dos filhos da terra) em que aquilo que estava plasmado nos manifestos dos movimentos de libertação não foi cumprido, principalmente, a liberdade política e a participação local no desenvolvimento. Tivemos outra espécie de ditadura política.

E é aqui que se faz a segunda pergunta aos defensores de uma nova ditadura, como única via para resolver os problemas do povo: se já tivemos essa experiência ditatorial e não temos o tão almejado desenvolvimento, pelo contrário, estamos a viver um problema gravíssimo de pobreza humana e sub-desenvolvimento económico, com extrema insegurança alimentar das populações, haverá ainda necessidade de mais outra experiência monolítica, centralizada, para se conseguir dar a volta por cima? Não estarão esses que defendem nova ditadura a pregar uma falsa profecia política, sem pés nem cabeça, quando estamos a 50 anos para além da ditadura colonial?

Também se ouvem vozes que defendem que qualquer outro poder que se instalar, num cenário de saída do MPLA, terá como complemento gestionário, encher os bolsos, tal como fizeram os que levaram o país à falência. Dizem: “Ah, esses também estão à espera da oportunidade deles!” Mas então o homo sapiens não será capaz de criar mecanismos públicos de prevenção do peculato, de modo a que, quem quer que esteja a governar não possa meter a mão no erário impunemente?

E há outras vozes que defendem acerrimamente que a saída do MPLA do poder é um cenário muito prematuro, pois pode despoletar uma instabilidade política e social sem precedentes. Mas, porque carga de água é que estas opiniões apenas são debitadas em círculos restritos, fazem parte das fofocas e não se as leva ao debate sério, multipartidário, na Assembleia Nacional, que é o jango de todos nós. É que, julgo eu, este chorrilho de manifestações opinativas devem estar a sair de qualquer cartilha de manipulação da opinião pública, para gerar o medo de mudança política.

A principal causa da guerra civil foi a exclusão do adversário político angolano e a sua conotação com o INIMIGO A ABATER. O semba Tribalismo, de David Zé, lançado nos primórdios da Independência nacional é o exemplo mais ilustrativo dessa exclusão. Eram outros tempos e era a outra a conjuntura mundial, na verdade. Mas hoje, ainda persiste o mesmo erro de paralaxe, ou distorção da realidade. E qual é essa realidade? É muito simplesmente um país com várias etnias e culturas, geografias e interesses diferentes. O erro de paralaxe não vê esta diversidade dentro da unidade geo-linguística herdada do colonialismo.

Distorce-a. Divide e separa, de modos que uns são vistos na posição vertical (quem manda) e os outros vistos inclinados (se alcançarem o poder vão desestabilizar o país). Esta herança da luta de libertação e da guerra civil permanece latente no fazer político do poder instaurado.

O exemplo de Cabo Verde é sintomático de que o que traz grave instabilidade é a exclusão do outro, e não a alternância política. O que provoca a instabilidade e o desejo de secessão em Cabinda e nas Lundas é precisamente a falta de abertura e descentralização político-administrativa que é causadora da má gestão do petróleo e dos diamantes e não o contrário. Acredito que um outro partido a governar Angola só causará instabilidade se as forças de defesa e segurança (sob tutela do MPLA) despoletarem um golpe de Estado. Esse cenário pós-MPLA é bem fácil de imaginar quando vemos, à entrada dos quartéis, outdoors com a imagem do presidente do MPLA e da República, com o slogan: “Comandante-em-chefe, ordene!” Ordenar o quê? Estamos em guerra contra qual país?

O país precisa de um novo sistema de atendimento do público aos balcões da Administração e de audição permanente da juventude para reforçar a democracia, a reconciliação nacional e a estabilidade. Precisa, urgente, de debater na Assembleia Nacional, um cenário de Governo inclusivo em que entrem todas as cabeças bem-pensantes do país, independentemente da cor partidária. A experiência governativa pós-colonial já provou que ditadura e endeusamento da liderança só podem significar negação dos fundamentos da luta de libertação, negação do desenvolvimento nacional e instabilidade.

 



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