Luanda - No passado dia 12 de Dezembro recebi a triste notícia do falecimento de um dos grandes ícones da música e cultura de Angola. Calou-se a voz de José Kafala. Mas a sua obra e influências ficarão para sempre entre nós e para as gerações vindouras. Nesta página, gostaria de dar um breve testemunho sobre a sua influência na minha vida e sobre alguns dos valores que eu ajudo a proliferar e defender.

Fonte: Club-k.net

Procurando ter a gratidão como uma filosofia de vida, sempre que mentalmente revejo a lista de indivíduos a quem devo alguma coisa pelo que hoje sou, fico impressionado, não só pelo grande número de pessoas que tenho na minha lista, mas também pelos detalhes que emergem das minhas memórias e que consolidam a minha crença de que nesta vida, os nossos sucessos dependem muito da nossa predisposição e humildade em aceitar que sem as outras pessoas, as que nos rodeiam e aquelas com as quais nos cruzamos um dia, não somos absolutamente nada. Somos zero.


Nos finais dos anos 90, obtive o meu diploma em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade Técnica de Lisboa. Quem conhece o valor dessa instituição académica, sabe qual é o nível de exigência, rigor e empenho necessários para nela se ter algum êxito como estudante. Durante os meus anos de IST, tive momentos de alegria, satisfação, amargura e também frustrações. Um dos momentos de grande satisfação que tive, foi o facto de numa prova de eletrónica eu ter tido a nota mais alta da turma: 17/20. Para mim constituiu um sucesso enorme. Apesar de aquela ter sido para mim uma das provas mais fáceis, foi com algum espanto e admiração que meus colegas e professores encararam o meu resultado, por várias razões, objetivas e subjetivas. Como era regra na altura, notas acima de 16 valores tinham de ser “defendidas” numa prova oral conduzida por dois professores da disciplina. No dia da prova oral, fui bastante descontraído e depois de um pouco menos de meia hora de perguntas e respostas que fomos convertendo numa conversa amena a volta do tema, no final o professor regente da disciplina, olhando-me fixamente nos olhos disse “Tu percebes mesmo de eletrónica e acho que merecias um 20”. Para tal eu tinha que inscrever-me para a prova de melhoria de nota e talvez até conseguisse a nota máxima. Mas decidi não fazer a prova de melhoria pois já tinha planeado com outros colegas usar os dias seguintes para concluir um trabalho de grupo em computação gráfica em que também almejávamos um excelente resultado. Por isso, fiquei muito satisfeito com o meu 17 da cadeira de eletrónica. Em minha opinião, a grande admiração dos professores deveu-se também ao facto de eu ter feito o ensino secundário em Angola e em princípio não haveria condições em Angola para que institucionalmente fosse possível providenciar os conceitos teóricos e práticos necessários para a abrangência e detalhe que eu havia demonstrado na prova. Contudo, isso não me surpreendeu porque cerca de uma década antes, quando terminava o meu curso médio em Luanda no Instituto Makarenko, também vivi um episódio semelhante com o meu projeto de fim de curso.


No Makarenko, tive a sorte de ter tido um professor que deixou os estudantes escolherem o tema do projeto final de curso. Eu imediatamente escolhi como tema de estudo um Instrumento Musical Eletrónico com memória digital. Foi uma escolha bastante arriscada pelos desafios teóricos e práticos inerentes ao projeto e as limitações que tinhamos na altura em aceder a bibliografia e componentes eletrónicos necessários. Após cerca de seis meses de trabalho e investigação, o projeto ficou concluído com muito esforço. O mesmo foi montado com peças e componentes que obtive, na maior parte, das lixeiras de fotocopiadoras e impressoras da Sistec. O meu instrumento musical eletrónico impressionou o júri e lembro-me que na altura houve um debate entre os professores que discutiam a nota, entre dar-me 20 ou não. No final ficamos pelo 18.5 porque houve o argumento de que 20 seria uma nota inédita para aquela disciplina e um dos professores apegou- se ao facto de eu não ter contemplado o estudo de um regulador de tensão na fonte de alimentação a pilhas, (Really?!). Ainda tentei argumentar a incongruência, mas estava cansado por ter tido vários dias mal dormidos e ainda tinha pela frente um exame de Análise Matemática a preocupar-me. Contudo, valeu a nota que alguns anos mais tarde, ainda despertou a atenção de uma companhia petrolífera que andava a rebuscar as instituições de ensino a procura de talentos para integrar um ambicioso projeto de formação no exterior do país para seus futuros quadros. E assim fui parar ao IST em Lisboa. Mais tarde, depois de ter concluído o curso e período de estágio, acabei sendo integrado na indústria petrolífera onde estou até hoje. E onde entra o José Kafala nessa história?


Em 1983, viajei pela primeira vez de Benguela para Luanda, numa missão dada por um dos meus irmãos mais velhos. Tinha de acompanhar a minha cunhada que precisava de viajar com a filha bebé. A minha cunhada era parente dos Kafala e acabamos ficando hospedados em casa deles no bairro Mártires de Kifangondo. Tenho lindas memórias daqueles meus primeiros dias em Luanda e foram marcantes os momentos que passei com o José. Eu dormia no quarto dele, tivemos conversas interessantes e no final do dia ele tocava a sua guitarra. Foi com ele que aprendi os meus primeiros acordes de guitarra. O Dó, Fá e Sol, que o José me mostrou como podia tocar várias músicas usando apenas esses três acordes. Durante uma das nossas conversas, ele perguntou-me o que eu queria ser quando fosse crescido. Falei-lhe da minha paixão pela música e pelo meu interesse pelo som dos órgãos eletrónicos. Falei-lhe de um órgão que tínhamos no liceu de Benguela que de vez em quando eu ia lá tocar, mas o órgão estava avariado e não encontrávamos técnicos que o pudessem reparar. O José falou-me de como os sons eram gerados, por vibração das cordas da guitarra e também através de osciladores de circuitos eletrónicos. Eu disse-lhe que eu gostaria de estudar eletrónica, mas que em Benguela não havia professores para tal. Para grande surpresa minha, o José disse-me que eu não precisava de professor para estudar eletrónica. Eu só precisava de saber ler e escrever, e dedicar-me a fundo. E tendo a 8a classe feita, já tinha todos os elementos básicos que precisava. Apesar de na altura eu não ter percebido muito da explicação, ele foi muito paciente comigo. Mostrou-me como ele estava a aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais seguindo um curso a distância do CIAC (uma instituição de ensino a distância a partir de Portugal). Ele fazia os pagamentos do curso e recebia o material de Portugal através dos correios, mostrou-me os manuais que tinha, explicou-me como o curso funcionava e a gama de outras opções oferecidas, incluindo o curso de Eletrónica, Rádio e TV. Depois ele deu-me a brochura de uma outra escola que se chamava Occidental Schools e disse-me que o curso dessa escola era mais moderno do que o curso do CIAC e por isso sugeriu que eu me inscrevesse na Occidental Schools. Passei vários dias lendo as brochuras e sonhando com todo aquele mundo da eletrónica. Quando chegou o dia de voltar à Benguela, o José ofereceu-me o único exemplar que possuía da brochura da Occidental Schools. Lembro-me que tinha na capa azul uma nave espacial. E mais uma vez disse-me que eu não precisava de professor e que tinha de acreditar nas minhas capacidades.


De volta à Benguela, inscrevi-me no curso da Occidental Schools. Lembro- me que muitos dos meus amigos apelidaram-me de “O Cientista”, porque passava muitas horas a estudar e durante as nossas conversas, sem querer eu falava de assuntos que para muitos pareciam ser muito complexos. Apesar de na altura em Angola vivermos num tempo de guerra e muitas carências, os correios funcionavam lindamente. Consegui ir pagando os materiais, li e estudei muito, montei o meu pequeno

laboratório de eletrónica e acabei o meu curso básico cerca de 3 anos mais tarde. Tudo isso foi feito em paralelo com outras atividades, escolares e laborais, pois comecei a trabalhar quando tinha ainda 14 anos de idade. Com a Occidental Schools, obtive o meu primeiro diploma e o mais importante de todos. Mais importante que o diploma de engenheiro ou de mestrado que obtive anos mais tarde. E finalmente pude concluir que o José Kafala tinha toda razão, pois não precisei de professor. Bastou a minha dedicação e muita leitura.


O meu diploma de Eletrónica Básica representou, e ainda representa, esforço, perseverança e crença na minha força interior. Fez-me também acreditar que entre mim e o conhecimento não existem barreiras. Ter um professor ou uma boa instituição de ensino é de facto importante, mas não é de todo indispensável, desde que haja vontade de ler, investigar, experimentar, cometer erros e aprender com eles. Quem me conhece sabe que estes são hoje os pilares dos valores que defendo. Ninguém nasce feito e todos podemos sim ser alguém através da leitura e prática. Hoje existem vários estudos científicos do ramo da neurociência que comprovam os processos de aprendizagem que corroboram essa afirmação. Tal como diz um dos meus manos mais velhos, de facto o conhecimento não tem dono.


Acho que se não fosse aquele encontro na casa dos Kafala, no bairro Mártires de Kifangondo, talvez eu não teria feito o curso de eletrónica básica, talvez eu não teria montado o meu laboratório que, apesar de muito rudimentar, me permitiu fazer muitas experiências e conhecer a fundo os fundamentos da eletrónica. De certeza que eu não teria aprofundado a minha paixão pela música e pela engenharia de som. Certamente que não teria a nota que tive no meu projeto final de curso do Makarenko com o meu Instrumento Musical Eletrónico. Certamente que não teria despertado a atenção daquela empresa petrolífera que me enviou a Portugal para o IST, e onde conheci a minha namorada que se tornou minha esposa. De certeza que não estaria onde estou hoje.


“Lamento imenso não ter tido a possibilidade de dizer-te pessoalmente. Da última vez que estive com o mano Moisés, num programa da TPA, recordei-lhe disso e ele disse-me que te falaria também. Espero que o tenha feito. Obrigado mano Zeca. Onde quer que tu estejas, eu e a família teremos para sempre o brilho da tua inspiração.”


Jorge Assis
Artista, emprestado a engenharia e ao serviço da indústria petrolífera.



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