Estes debates, promovidos, em grande maioria, pela comunicação social são sugestivos de que, em África, a sociedade civil está fortemente empenhada na busca de soluções para os problemas que enfermam o continente. Jornalistas, escritores, políticos e uma passerelle sem fim de especialistas, deixam expressas as suas opiniões sobre o assunto, quase todas no sentido da promoção da tolerância e da vida em harmonia entre os africanos - com todos os «independentemente» que aqui se podem colocar.

Há sinais evidentes de que a África se quer levantar do pesado tombo que sofreu, embora, se calhar ainda em proporção maior, hajam igualmente sinais de que o continente se queira manter assim, como está, deitado, a espera que os ocidentais se compadeçam com a queda que levou. Essa vontade de mudança, que a sociedade civil africana defende, contrasta com o renascimento das teses afro-pessimistas, aquela mania que alguns estudiosos têm de traçar um quadro negro para o futuro do continente berço. Na sequência da crise de xenofobia na África Sul, importantes veículos da imprensa mundial têm publicado artigos de especialistas, muitos dos quais africanos, bastante favoráveis à essa tendência afro-pessimista. Já se lê, por exemplo, que os africanos viviam melhor no tempo colonial e que, para muitos negros na África do Sul, o apartheid, apesar de toda a sua carga segregacionista, oferecia mais dignidade que o regime actual.

Não se pode dizer algo mais absurdo que isso. Quem nunca viveu uma privação da liberdade não pode, pois, entender o verdadeiro significado dessa liberdade. Muitos adeptos das correntes afro-pessimistas viveram sempre no conforto dos seus lares, muito bem protegidos pelas barreiras ideológicas erguidas pelos regimes dos respectivos Estados ocidentais, todos eles criados à custa das pilhagens e de todo o tipo de sevícias a que os africanos foram submetidos ao longo de muitos séculos.

O afro-pessimismo não existiria, pois, se os seus adeptos parassem para pensar, antes de o exprimirem publicamente. E nem sequer levariam muito tempo. Bastaria analisar como seria a vida no continente se houvesse uma inversão no curso da história. Como viveriam, hoje, os africanos se não tivesse havido o tráfico de escravos, se a Conferência de Berlim não tivesse ditada a partilha do continente – e o saque dos seus recursos – e se o Muro de Berlim não tivesse, também, dividido os africanos por grupos ideológicos, responsáveis pelas piores guerras que o continente viveu? E, já agora, é bom que se pense também, como seria a África se os ocidentais não mandassem para aqui os seus armamentos e todo o resto da produção das suas indústrias da morte. Claro, como não convém, aos analistas ocidentais não interessa admitir que o subdesenvolvimento africano, que eles tanto criticam, foi em grande medida causado pelas suas políticas egoístas e, verdade seja dita, racistas.

Quem são, e onde se formaram, os dirigentes africanos corruptos que embelezam a capa de publicações como a Times? Quem os ajudou a alcançar o poder? Há, de facto, muita coisa por se fazer no continente. Mais vai levar tempo para ser feita, afinal o continente berço é ainda recente. O Gana, a primeira independência africana, só tem 51 anos de liberdade e não pode, por isso, competir, em termos de desenvolvimento, com Estados seculares, que lhe submeteram, aliás, ao jugo colonial.

Nós, os africanos, não devemos ser pessimistas, vamos chegar lá, aos poucos, corrigindo aqui, melhorando ali, e acertando acolá. Só precisamos que este Mundo, e os seus poderosos, dêem, de facto, uma oportunidade ao continente negro.

Fonte: A Capital



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