Lisboa - Faz constar, ele próprio, mas num coro em que também entram familiares próximos e amigos, que deixará o Governo numa remodelação do mesmo, prevista para depois do congresso do MPLA. A justificação é a de que atingiu um estado de fadiga que já não lhe permite prestar a devida atenção a todas as obrigações do cargo ministerial, a que acrescem as da sua vida privada.


Fonte: AM



Tem a fama, justa, de ser muito dinâmico (chamam-lhe Buldozer), tanto no exercício do actual cargo governativo (ministro das Obras Públicas), como em todos os outros cargos públicos, anteriores. O volume de obras públicas aumentou vertiginosamente nos últimos anos; mas a sua pressão directa, sob a forma de visitas surpresa, nunca deixou de ser necessária para garantir prazos, níveis de qualidade, etc – o que o obrigou a redobrar o seu dinamismo.



Ao mesmo tempo, aconteceu que a carteira dos seus negócios privados, envolvendo parceiros nacionais, portugueses, brasileiros e outros, nunca deixou de aumentar – exigindo também dele tempo de que não dispõe – a não ser, como diz, que os dias tivessem 40 horas. É a mulher e uma filha, formada em Economia, que lhe servem de “muleta”.

 

Dos seus negócios privados fazem parte 12 hotéis dispersos pelo país, grandes fazendas (a Cabuta é uma delas), bancos (Keve e Sol), uma companhia de aviação dispondo de uma frota de 14 aeronaves, Air Services, que esteve recentemente em vias de iniciar voos entre S. Paulo e Luanda, etc.



No estrangeiro, é em Portugal que tem mais negócios, incluindo, pelo simbolismo, um antigo restaurante na zona pombalina de Lisboa. É muito popular pelo atributo de dinamismo que lhe é geralmente reconhecido, mas também pela sua simplicidade e inclinação considerada inata para a filantropia. O apego que revela pela sua terra natal, Calulo, também entra a seu crédito. O renascimento da aprazível vila é em grande parte devido à sua boa vontade; até lhe coube pôr de pé o antigo clube da terra, Recreativo do Libolo, actualmente em fase de ascensão no panorama desportivo do país. Também ajuda os naturais do Calulo radicados em Portugal a organizar as suas confraternizações anuais, às quais comparece ou manda representante.

 

A vontade de sair do Governpo é considerada em meios que não lhe são particularmente afectos como um artifício destinado a justificar da maneira que mais lhe convém uma decisão que parece já tomada por José Eduardo dos Santos (JES) – mas eventualmente por outras razões mais. O ministro das Obras Públicas é um dos casos mais elucidativos de um governante muito rico (4 casas na zona de Luanda), cujo exercício do cargo se cruza com negócios privados de monta.



JES, na “cruzada” moralizadora em que aparenta ter-se lançado, precisa de projectar internacionalmente uma imagem nova do país; a substituição do ministro das Obras Públicas e de outros governantes nas suas condições, vem a calhar. Diz-se que goza da amizade de JES, que assim lhe retribui a lealdade e a prontidão que lhe reconhece como qualidades pessoais. Foi em razão disso que esteve quase a fazer dele PM.


A realidade de Angola demonstra que o sucesso nos negócios privados é inseparável de poder e influência política – própria ou a rogo. Só o General João de Matos é exemplo que alguém que caminha pelo seu próprio pé. O futuro ex-ministro das Obras Públicas está salvaguardado nesse aspecto: além de um invejável círculo de amizades políticas, também se fez eleger deputado do MPLA, ainda que como suplente.



DEBATE NAS REDES SOCIAIS:




DEBATE NO ANÓNIMATO: