Luanda - "O hábito cultural de comer animais exóticos na China é uma bomba à espera de rebentar", avisava um estudo sobre o SARS, publicado em 2007. O Covid-19 pode ter sido essa bomba.


Fonte: Revista Sábado

"A possibilidade do ressurgimento do SARS e de outros novos vírus de origem animal ou provenientes de laboratórios e a consequente necessidade de nos prepararmos para isso não devem ser ignorados."

Assim terminava um estudo científico datado de 2007 sobre o vírus que deu origem à "síndrome respiratória aguda grave" (SARS-COV) que, com uma taxa de letalidade de cerca de 10%, matou mais de 800 pessoas no mundo inteiro.

Os quatro autores do texto explicavam que havia uma forte possibilidade de um vírus animal vir a atacar de novo a espécie humana e que os seus efeitos podiam ser devastadores, apelidando essa possiblidade como "uma bomba". No estudo em questão, os cientistas referiam que "a presença de uma grande reserva de vírus semelhantes ao SARS-CoV em certas espécies de morcegos, como os morcegos de ferradura" aliada ao hábito cultural das classes altas chinesas em comer "mamíferos exóticos" constituíam "uma bomba pronta a detonar" até que surgisse um novo vírus.

Os primeiros casos de SARS foram detetados na China em 2002. No total, 8.000 pessoas foram infetadas por este vírus. Com o novo coronavírus, o Covid-19 (também ele com epicentro na China) já morreram mais de 12 mil.

Em 2007, os especialistas avisavam que havia uma grande probabilidade de o SARS poder voltar em novas "condições de mutação, amplificação e transmissão". O SARS foi a primeira pandemia de coronavírus. Foram detetados 8.096 casos e 774 mortos em 30 países.

Mas o que leva a que tantos vírus como este apareçam na China? O estudo publicado na Clinical Microbiology refere que "o rápido crescimento económico no sul da China levou a um aumento da procura de proteína animal exótica e que o paciente zero tinha contacto comum com animais selvagens num mercado chinês.

Um artigo em vídeo da Vox explicava como a população chinesa mais enriquecida faz compras em wetmarkets (mercados onde se vendem animais), locais onde surgiram tanto o SARS como o Covid-19. Lembra o artigo que maior parte dos vírus que temos vêm de animais e que o Covid-19 terá passado de um morcego para um pangolim e daí para um humano. Mas como infetou um pangolim um humano? É que nestes mercados há dezenas de espécies de animais que convivem em jaulas sobrepostas, em que os fluidos animais passam de uns para outros.

Um menu deste mercado em Whuan mostrava preços para raposas, coelhos, cães, vacas, pavões, camelos, cobras, galinhas, porcos, entre dezenas de outras espécies, incluindo morcegos e pangolins. Estes animais começaram a ser comercializados na China depois da Grande Revolução Cultural de Mao. No período entre 1959 e 1961, terão morrido cerca de 15 milhões de pessoas devido à Grande Fome. Preocupado com um novo período de fome, em 1979, o Governo chinês temia não conseguir voltar a alimentar os seus milhões de habitantes, então abriu a atividade agrícola a grandes grupos de privados que começaram a produzir galinha, porco e vaca. Os pequenos agricultores que ficaram sem negócio decidiram então começar a criar animais selvagens, como cobras e tartarugas.

Quem consumia estes animais era a população mais pobre e ao aperceber-se de uma nova oportunidade para alimentar os seus cidadãos, o Governo chinês apoiou esta iniciativa e quintas de animais selvagens começaram a surgir. Houve inclusivamente quintas com 3.000 ursos aprisionados que eram vendidos nos mercados.

Foi num mercado como este que uma civeta (um felino asiático) terá transmitido o SARS a um ser humano. Depois disto, o governo chinês proibiu a venda de alguns animais vivos. Os vendedores arranjaram então outra forma de subsistir nos wetmarkets. Vendiam partes de animais como amuletos, por exemplo cornos de rinoceronte, garras de animais, entre outros. Estes objetos são vendidos como produtos que melhoram a capacidade física, como mezinhas que protegem contra doenças e como potenciadores da atividade sexual. Estes produtos tornaram-se particularmente populares entre a população mais endinheirada da China, refere um especialista consultado pelo Vox.

 

 



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