Luanda - Em conversa ontem com um amigo Namibiano, que acabou “preso” cá por conta do fechamento do espaço aéreo e consequente restrições dos voos internacionais e, não só, dizia ele que: “para mim que nunca presenciou nunca nenhuma situação real de guerra, esse Estado de Emergência se parece com uma guerra. Estamos a viver como se estivéssemos em guerra”. Pelo que, prontamente respondi: “A guerra não se parece nada com isso, podes crer”.

Fonte: Club-k.net

As palavras proferidas quatrocentos anos atrás pelo Padre António Vieira continuam com uma validade tremenda: “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro.”


Estas palavras descrevem na perfeição, o principal culpado – mesmo que muitos digam o contrário – pelo facto de termos o país que temos. A guerra é o principal culpado por estarmos na cauda do mundo, na periferia do desenvolvimento e do bem-estar. A guerra come pessoas, o recurso mais valioso de um país, destrói as infraestruturas, que permitem o desenvolvimento de um país e, tem o forte potencial de corromper todo um sistema de valores de uma sociedade. Isso é bem evidente aqui na nossa terra, não é por acaso que andamos na luta para o resgate dos valores cívico – morais. A guerra é má, terrível e hedionda.


Sou de uma geração que viveu intensamente os momentos cruciais das nossas três repúblicas (de 1975 até 91, de 91 – 2010 e, daí até hoje), mas à mim pessoalmente, o que mais marcou foi o momento da assinatura dos Acordos de Bicesse. A icónica fotografia do aperto de mão entre o presidente José Eduardo dos Santos e o Dr. Savimbi com Cavaco Silva ao centro, a registar o momento para a posteridade atravessou o mundo. Era para mim e, se calhar para muitos outros o fim da possibilidade de vir a morrer na frente de combate. Os jovens da época, não tinham hipóteses nenhumas. Fez 18 anos, tropa.


Pela violência que o conflito havia atingido na época, muitos acabavam consentindo o sacrifício máximo, ficavam no campo de batalha, perdiam a vida. Quem fosse para a tropa já sabia o que lhe esperava. Daí o motivo pelo qual saudei vivamente aquele momento. Significava para mim que nunca teria que passar por aquele horror e para quem já tivesse passado, que nunca mais se voltaria a repetir.


Foi com profunda dor e tristeza que assisti a reinstalação do conflito em 92. Numa corrida contra o tempo, a comunidade internacional foi incapaz de impedir que os angolanos tivessem que suportar tamanho fardo por mais dez longos e difíceis anos.


A minha geração assistiu a geração anterior a ser chacinada pela guerra na década de 80, depois, na década de 90 até 2002, foi ela própria vítima da mesma guerra, só que desta vez, à uma escala épica. Dizem os entendidos na matéria, que destrui-se mais o país e morreu muito mais gente pela guerra, de 92 até 2002 do que se tinha feito de 75 -91. Em um dos momentos críticos da guerra, os soldados recebem missões “impossíveis”, mas têm de cumpri-las. São ordens. Primeiro cumpre, depois reclama, diz a doutrina. Mas isso tem um lado perverso, consentimos tanto sacrifício em nome de quem e de quê? Isso fica para a reflexão. Erich Hartman disse: "A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam..."


Felizmente para nós, em 2002 acabou o calvário. A 4 de Abril veio a tão esperada boa nova, a paz chegou. Só que temos notado que de algum tempo para cá, principalmente por ocasião do 23 de Março, tem havido um certo exacerbar de ânimos entre alguns dos nossos kotas, por quem nutrimos muito respeito, consideração e estima, por terem conduzido a luta (para independência e para a paz definitiva), por isso mesmo, nossos heróis. Esses kotas melhor do que ninguém sabem o valor da paz e o quanto ela nos custou! Temos a meu ver aqui um handicap. Falhamos na transição da guerra para paz. Era preciso haver um “exorcismo nacional” para curarmos os nossos males, para “espantarmos os nossos fantasmas”.


No pós conflito, muitos países que passaram pelo mesmo que nós criaram Comissões de Verdade e Reconciliação Nacional (CVRN). Na verdade, essas comissões foram verdadeiras sessões de “cura e terapia nacional.”


Uma comissão da verdade ou comissão da verdade e reconciliação é uma comissão encarregue de descobrir e revelar irregularidades passadas por um governo (ou, dependendo das circunstâncias, também de actores não estatais), na esperança de resolver conflitos resultantes de um passado sangrento. Podem ter outros nomes, mas ocasionalmente podem ser criados por estados que emergem de períodos de agitação interna, guerra civil ou ditadura.


Fiz uma busca rápida e espantei-me ao ver o resultado. 45 países já tiveram na sua história a criação comissões deste tipo, nomeadamente a África do Sul, Alemanha, Argélia, Argentina, Bangladesh, Bolívia, Brasil, Canadá, Chade, Chile, Colômbia, Congo (República Democrática), Coréia do Sul, El Salvador, Equador, Fiji, Filipinas, Gâmbia, Gana, Guatemala, Haiti, Honduras, Ilhas Salomão, Jugoslávia (República Federal da), Libéria, Marrocos, Maurício, Nepal, Nigéria, Nova Zelândia, Panamá, Paraguai, Peru, Polônia, Quênia, República Tcheca, Ruanda, Serra Leoa, Sri Lanka, Timor-Leste (Timor Leste), Togo, Tunísia, Ucrânia, Uganda e Uruguai.


Apesar das críticas que se levantam hoje, a África do Sul deve muito da sua “estabilidade” ao trabalho desenvolvido pela CVRN. A Rainbow Nation não seria a mesma se o país não tivesse passado por este processo. Um dos resultado imediatos foi a posterior produção do texto constitucional Sul-africano.


A Constituição Sul-africana é reconhecida como uma das mais progressistas do mundo e, começa assim: "Nós, o povo da África do Sul, reconhecemos as injustiças do nosso passado; honramos aqueles que sofreram por justiça e liberdade na nossa terra; respeitamos aqueles que trabalharam para construir e desenvolver o nosso país; e acreditamos que a África do Sul pertence a todos os que vivem nela, unidos na nossa diversidade ".

Estas palavras são de uma beleza tal, indiscritível!! É a pura consagração dos direitos humanos, a pedra angular da democracia e dos direitos de todos os sul-africanos.
Mas as constituições não devem ser só palavras, textos mortos. Eles ganham vida quando se transformam em acções do Estado para com o cidadão (para punir, mas também para premiar). A nossa CRA entre outras coisas, protege nossa liberdade e nossa dignidade; promove igualdade, tolerância, comportamento responsável e respeito pela vida humana e apoia todos os outros valores.


Quis o destino que este ano comemorássemos o Dia da Paz quase que em retiro e recolhimento. Temos por isso, tempo de sobra para meditarmos.


Dezoito anos depois ainda carregamos este fardo da guerra: não conseguimos implementar políticas de desenvolvimento que permitam o relançamento da produção interna, o combate a pobreza e a melhoria da qualidade de vida da população. Não conseguimos ainda fazer de Angola um bom país para se viver. É ai que deve residir o nosso foco.


Sob a Constituição da República de Angola o destino da comunidade angolana torna-se um só, e não já dividido entre histórias do Sul ou do Norte, do Campo ou da Cidade, do Interior ou do Litoral, do Rico ou do Pobre, do Branco ou do Preto. Angola pertence à todos os que vivem nela, unidos na nossa diversidade. Por isso, o homem angolano na sua plenitude, na sua unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade deve estar no centro de toda e qualquer actuação daqueles que estão na posição de tomar decisões que afectam à todos nós. Viva Angola, criemos condições para que aquilo que se passou por cá, nunca mais volte a acontecer, que nenhum angolano volte um dia a passar por aquele horror novamente, que nunca mais se volte a repetir. Mas sobretudo, tenham no vosso coração e recitem todos os dias as seguintes palavras: NÓS OS POVOS DE ANGOLA, CIENTES DO MAL QUE NOS CAUSAMOS À NÓS MESMOS, JURAMOS SOLENEMENTE, NUNCA MAIS A GUERRA NA NOSSA TERRA.

 



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