Lisboa - Foi José Eduardo dos Santos que convenceu a direcção soviética de que a estabilidade de Agostinho Neto era melhor para a URSS do que a confusão que seria inevitável se Nito Alves tivesse êxito.


Fonte: OBSERVADOR

Normalmente, quando se fala do 27 de Maio de 1977 na história de Angola, dois nomes surgem no centro da luta pelo poder no Movimento Popular: Agostinho Neto, então Presidente da República, e Nito Alves, dirige da oposição radical no seio do MPLA. Porém, é preciso prestar atenção à figura de José Eduardo dos Santos, então ministro dos Negócios Estrangeiros daquela antiga colónia portuguesa, nesses acontecimentos.

 

Parece não haver dúvidas de que os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 foram o corolário sangrento da luta entre fracções políticas dentro do MPLA, uma prática historicamente normal no seio de movimentos e partidos marxistas-leninistas. Mas há ainda muitos episódios que esperam o seu esclarecimento cabal, o que só se tornará possível com o acesso a arquivos angolanos, soviéticos e cubanos.

 

Um desses episódios é o do papel da União Soviética na luta política no seio do MPLA. Alguns dirigentes angolanos acusaram a cúpula do Partido Comunista da União Soviética de ter apoiado o “golpe” de Nito Alves com vista a derrubar Agostinho Neto, por considerar que este se estava a afastar do “marxismo-lenismo”, ou seja, da “linha soviética”.

 

Uma das fundamentações dessa tese é o facto de Nito Alves ter representado o MPLA no XXV Congresso do Partido Comunista da URSS, que se realizou entre 24 de Fevereiro e 5 de março de 1976. Mas esse facto ainda não é prova do apoio do Kremlin ao revolucionário angolano. Recordamos, porém, que ele foi nomeado pelo movimento angolano para o representar no fórum máximo dos comunistas soviéticos e não por estes.

 

Por outro lado, segundo alguns investigadores, nomeadamente Alexey Jarov, veterano soviético da guerra civil em Angola, Nito Alves poderia ter utilizado a sua visita a Moscovo para sondar a direcção soviética sobre ­a sua acção e teria ficado convencido do seu apoio. Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov escrevem mesmo que “na Secção Internacional do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética simpatizavam com Alves e olhavam com desconfiança para Neto e Carreira devido à demasiada iniciativa própria”. Sublinhe-se também que, do ponto de vista ideológico, as ideias de Nito Alves como a aceleração do processo revolucionário em Angola estavam mais próximas dos ideólogos soviéticos do que as de Agostinho Neto.

 

Porém, como é sabido, os soviéticos não foram em apoio dos “nitistas”, deixando aos cubanos a salvação do regime de Agostinho Neto.

 

Isto pareceu dever-se, entre outros factores, à febril actividade de José Eduardo Santos, então ministro angolano dos Negócios Estrangeiros. Segundo Alexey Jarov, foi esse dirigente angolano que convenceu a direcção soviética de que a estabilidade de Neto era melhor para a URSS do que a confusão que seria inevitável se Alves tivesse êxito.

 

Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov apoiam esta posição, sublinhando que “ajudou o facto de o ministro [JES], na sua juventude, ter recebido a sua instrução de engenheiro de petróleos na capital da República Socialista Soviética do Azerbaijão”. Além disso, ele teve um curso intensivo anual de preparação militar num dos institutos da URSS, tendo obtido a especialidade de oficial de comunicações.

 

José Eduardo dos Santos ficou sob a mira dos serviços secretos soviéticos após o seu regresso da URSS. O agente Boris Putilin recorda vários contactos com o futuro Presidente de Angola: “Em Fevereiro de 1974, eu cheguei ao Congo (Brazzavile). Trabalhava ai como primeiro secretário da embaixada: a direcção fundamental do trabalho eram os contactos com o MPLA.

 

Nos primeiros tempos, eu aí contactava, fundamentalmente, com o segundo homem no movimento: Lúcio Lara. Ele era o representante do MPLA…

 

Agostinho Neto apareceu (em Brazzavile) no início de 1975. Em 1974, José Eduardo dos Santos tornou-se o dirigente oficial da representação de Angola em Brazzavile. E visto que ele era o representante oficial, eu mantinha relações com Lúcio Lara e José Eduardo dos Santos. Este, nessa altura, estava casado com uma russa, já tinha nascido a filha. Por isso, ele, de quando em quando, vinha visitar-me”.

 

Outro encontro teve lugar num dia histórico para Angola: “A direcção soviética enviou à cerimónia oficial de 11 de Novembro de proclamação da independência do Estado de Angola uma delegação dirigida por Afanasseko, embaixador soviético em Brazzavile, eu também fazia parte. Da delegação faziam parte também embaixadores dos países socialistas no Congo. Chegámos a Luanda e no aeródromo não havia ninguém. O nosso avião Antonov-12 (sob a bandeira da Aeroflot) aterrou. Baixaram-se as escadas. Saí e vi perante mim, a cerca de dez-quinze passos, um soldado angolano com uma espingarda americana, pendurada por um fio. Os olhos do soldado estavam vazios. Ele segurava a mão no gatilho e apontava para a minha barriga. Não se sabia quem mandava no aeródromo. Além disso, eu não podia correr até ao sentinela, porque ela abriria fogo e, a dez metros, furava-me todo. Nos seus olhos não havia qualquer sentido e penso que ele não sabia português. Fui salvo pelo chefe da segurança do aeroporto, um angolano que me conhecia perfeitamente. Ele correu 150 metros aos gritos: “Boris!”. Isso ajudou-me. Depois fomos levados para o hotel. Nessa altura estava lá ao já falecidos Alexei Ivanovitch Dubenko e Igor Uvarov”.

 

“Às 11 horas da manhã”, continua o agente soviético, “chegámos do hotel à sala do município para a cerimónia. Ele foi iniciada pelo nosso embaixador no Congo, que enviou saudações da direcção soviética. Ele falava da varanda, debaixo da qual tinha lugar um comício na praça. José Eduardo dos Santos foi o tradutor de russo para português. Então, ele era ministro dos Negócios Estrangeiros”.


Os estudiosos russos consideram que a carreira de José Eduardo dos Santos deu um grande salto precisamente depois da derrota dos “nitistas”.

 

“A partir desse momento, a carreira política do MNE de Angola sofreu um brusco crescimento. As relações com a URSS concentraram-se completamente nele. Os fornecimentos daí: fosse de tanques, bustos de Lenine ou outros objectos necessários para a estabilidade do Estado e para o papel dirigente do partido” – consideram Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov, acrescentando que a actividade de JES no 27 de Maio de 1977 contribuiu em grande parte para ele se tornar o herdeiro de Agostinho Neto.

 



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