Luanda - Se, outrora, na modernidade clássica, um europeu alegara que primeiro pensa para depois existir, em África, penso que é muito profícuo, primeiro existir para depois pensar, mesmo que se conceba “tal pensamento” como uma cultura deóntica e ignorada pelos políticos, que não se querem despir da vassalagem ou o hábito de “dormir nas esteiras dos outros”, como conceptualizou, interessantemente, J. K-Zerbo, face um contributo análogo ao propósito deste texto, que assenta no artigo «Os Grandes Desafios dos Governos Africanos para o Século XXI» de Miguel Bembe, publicado, em 2016, na Revista Mulemba da Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade Agostinho Neto. Porém, apesar do tema ser tão literal, obviamente, formula-se num contexto que África está submetida a enfrentar o que podemos chamar de “guerra invisível do século XXI” (ou do Coronavírus) e não terceira guerra equiparada a armada de 1914 à 1945, porque são fenómenos diferentes, que só se assemelham no fluxo de humanos ceifados.

Fonte: Club-k.net

Os desafios integrados nas agendas e programas africanos podem ser vistos como meios comparáveis a um rio, cujas águas correm e nunca alcançam os objectivos ou o que chamamos de foz.

Tais objectivos ou desafios são os que, embora não materializados com rigor pelos governos por razões de “fraca vontade nacional”, mediante uma análise operacional foram descritos pelo Politólogo angolano Miguel Bembe, cujo académico sustentando-se na visão da Economista Fátima Roque, e seus estudos assente na realidade angolana objectivou que para uma “transformação sustentável” no século XXI os políticos africanos devem apostar em pelo menos 4 vectores fundamentais, e do ponto de vista sócio-económico 7 linhas estratégicas inadiáveis, que em síntese, antes de apresentarmos as aspirações da agenda 2063 da União Africana, vamos mencionar para depois fomentarmos uma análise ontológica face a conjuntura pandémica do coronavírus, que assola o século XXI, o mundo, concomitantemente a África, e tais são:


– Construir um continente em paz e unido à volta de objectivos e valores comuns, o que implica promover uma democratização política [...] que permite eleger governos eficientes [...] e responsáveis perante o eleitorado (1); Garantir a justiça e [...] a capacitação/empoderamento (empowerment) dos mais desfavorecidos (2); Promover o papel da mulher em todas as actividades (3); Estabelecer a paz nacional [...], bem como desenvolver uma visão humanista da sociedade e da política (4) (Bembe, 2016).


– Conceber e aplicar uma estratégia política de desenvolvimento sustentado [...] a longo prazo (1); Consolidar e fortalecer uma economia de mercado [...] (2); Assegurar a estabilidade macro-económica [...] (3); Promover um padrão equitativo de distribuição do rendimento e da riqueza [...] (4); Promover o [...] desenvolvimento dos recursos humanos [...] e redução da dívida externa (5); Reduzir progressivamente a incidência da pobreza e fome, da miséria e exclusão social (6); Apostar na cooperação produtiva [...] para facilitar uma participação mais efectiva na economia global (7) (Bembe, 2016).


Estes 4 vectores fundamentais e 7 estratégias inadiáveis no domínio sócio- económico apresentados por Bembe são, na verdade, visões incompletamente importantes e análogas as estratégicas da UA e NEPAD (a Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano), que a meu ver não são desconhecidas pelos políticos africanos ou incapazes de revolucionarem uma organização africana, ontologicamente, unida, comprometida e capaz de fazer sentir as 7 seguintes aspirações da Agenda 2063:


– (1) Uma África próspera fundada no crescimento inclusivo e no desenvolvimento sustentável; (2) Um continente integrado, politicamente unido, guiado pelos princípios do pan-africanismo e pela visão do renascimento africano; (3) Uma África onde predomine a boa governação, os direitos do homem, a justiça e o Estado de direito; (4) Um continente em paz e segurança; (5) Uma África dotada de um património comum e uma identidade, de valores e éticas culturais fortes; (6) Um continente onde o desenvolvimento esteja centrado nas populações, apoiando-se no potencial dos povos africanos, em particular das mulheres e da juventude, e que garanta sobretudo o bem-estar das crianças; (7) Uma África que se constitua como um actor e parceiro forte, unido e influente no plano mundial (Comissão da União Africana, 2014; Miguel Bembe, 2016).


Ora, no âmbito do Primeiro Plano Decenal da Implementação para o período 2013-2023, a Agenda 2063 identificou treze (13) projectos ou fases prioritárias, para a sua materialização, todavia, embora BEMBE alega que alguns projectos avançaram, razoavelmente, em 2016, tal como o lançamento simbólico do passaporte africano; obviamente, interessa-nos dizer que o projecto de Universidade Pan-africana virtual:

desenvolvida para acelerar o desenvolvimento do capital humano, da ciência, tecnologia e inovação deveria ser o centro das atenções desafiadoras dos Líderes africanos há anos.


Análise ontológica face a conjuntura pandémica do coronavírus

Decerto, podemos considerar uma análise ontológica como uma análise política destemida com propósito de revelar um fenómeno ou realidade total. Todavia, África é um continente cujos novos Líderes é imprudente dizer que não estudaram, ou não têm noção da consciência pan-africanista, na verdade têm e sabem criar estratégias para definidas políticas, mas o grande problema é a patologia da ética da responsabilidade e prática política que se submetem a viver, causando instabilidades aparentemente insuperáveis no continente, não obstante uma cultura de dependência ocidental.


Hoje, vivemos em África, e como sempre com grandes propósitos, e se a União Africana fosse mais ambiciosa, olhando pelas experiências factuais, e ideias impulsionantes dos nacionalistas (in memória) que deixaram legados em prol da imagem potencial de África, penso que as ideias sistematizadas sobre os grandes desafios dos governos africanos já se manifestariam a bom grado.


Observamos que, desagradavelmente, o continente sofre o efeito do coronavírus, e nem sequer temos médicos potenciais e organizados pela União Africana, que me parece ser uma Organização com ideias utópicas, fraca de arquitectura filosófica assente na maneira de pensar, agir e sentir, não obstante, semanticamente, ser sarcástica quanto a palavra união pelo qual de não conseguir articular as regiões.


Neste âmbito, é importante realçar que em África há países que tentam evidenciar a consciência pan-africanista, proporcionando com orgulho uma política diferenciada, tal como: Ruanda (?), Ilhas Maurícias, Madagáscar etc, sendo que estes dois últimos na conjuntura do Coronavírus demonstram que África pode criar um paradigma de vida sem depender de externos, o que não significa que não possa haver cooperação ou diplomacia entre as Forças Transnacionais de propósito global e único, sabendo que estamos num sistema internacional em que o lema liberal “Um por todos e todos por um” sem colisões de interesses deve prevalecer como um acto mais realista do que idealista, podendo com isso salvaguardar a soberania individual de cada país.


PORTANTO, apoiando-se na visão de Bembe que observou os programas e agendas africanas e direcionou vectores fundamentais e estratégias inadiáveis para transformação progressiva de África, é lúcido dizer que a UNIÃO AFRICANA não deve deixar que os desafios da organização sejam como as águas de um rio sem foz, que só servem como meio e não alcançam o fim, e para o verdadeiro progresso dos programas e agendas para África, sugere-se, conforme contribuímos, especialmente para Angola, apostar com orgulho em toda África na “CIÊNCIA E TECNOLOGIA como um FACTOR DE PODER” ou a única estratégia que através do potencial humano proporcionar-nos-á no continente indústrias transformadoras dos recursos naturais ou farmacêuticas, não obstante uma democracia africana mais consolidada, assente na cultura e vontade africana, rupturando o hábito de se eternizar no poder, a fim de haver uma governação, fiduciariamente, mais responsabilizada, em que os africanos, ou no caso mais específico os angolanos, possam ser o fim da política, garantindo-lhes por meio de políticas públicas locais: a independência, o sono, a vida, o sonho e a saúde num continente ou país capaz e preparado para combater as crises, fenómenos ou pandemias como o CORONAVÍRUS [...].


AUTOR: Dorivaldo Manuel “Dorival”, Estudante Finalista de Ciência Política da Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Ciências Sociais (2015-2018). dorivaldo- Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
BIBLIOGRAFIA
BEMBE, Miguel Domingos (2016). «Os grandes desafios dos governos africanos param
o século XXI». Retirado de http://journals.openedition.org/mulemba/805 [30/09/2018].
COMISSÃO DA UNIÃO AFRICANA (2014). Agenda 2063: África que queremos. Retirado de https://www.uneca.org/sites/default/files/uploaded documents/CoM/com2016/agenda_2063_final_revised_first_ten_year_implementation plan_12_10_15_portuguese.pdf [25/08/2019].



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