Luanda - O reinício das aulas em tempo da Covid é um busílis que precisa ser analisado e gerido com muita sensibilidade e não deve ser manietado por interesses pessoais de ninguém, pelo facto de estarem em jogo a saúde e a vida de muitas pessoas e por fim, todas famílias angolanas. Mas na verdade há opiniões contrárias: uma do MED e outras da sociedade (composta por organizações políticas, civis, religiosas e não só). Mas vamos abrir um parêntesis sobre a educação do homem, partindo das palavras do PR João Lourenço durante o empossamento do novo secretário de estado no sector da educação e outros dirigentes: "O futuro de Angola não está no petróleo ou no diamante, o futuro de Angola está na formação do homem." Fim de citação.

Fonte: Club-k.net

Os pronunciamentos do PR neste dia sobre a educação atingiram em cheio a comunidade académica, especialmente as instituições superiores. Pelo menos a mim enquanto professor me envergonhei por ter uma quota-parte nisso. Mas o que o PR deve saber e pôr em mente é que a universidade não existe para ensinar a ler e escrever, tão-pouco para ensinar a se comportar como agente social. Em termos de valores sociais, a universidade está desprovida de responsabilidades sobre os cidadãos que forma, tudo também porque ninguém chega como criança numa faculdade (idade mínima 18 anos em Angola). Assim, se um licenciado não lê, não escreve correctamente e não sabe ser nem estar, a culpa é da família, da sociedade e do ensino de base, lá mesmo desde a primária. Nem mesmo seria o professor do I Ciclo a se preocupar a ensinar o aluno a escrever o seu nome conforme acontece no nosso sistema. Cabe referir que a formação superior é virada para a produção técnica ou científica (output) e não exclusivamente para a recepção de informações (input).


Devemos sim, condenar universitários que não produzem, que não criam, que não analisam, já que todos licenciados, mestres e doutores se intitulam ter escrito monografias de sua autoria. O próprio sistema fuzilou o interesse pela leitura, com escolas sem bibliotecas, alunos recorrendo a plágios, cábulas e outras fraudes académias sem ser punidos muitas vezes, onde que o esforço pessoal ficou quase inexistente, pois os estudantes até superiores se tornaram muito reféns do conhecimento que lhes é transmitido pelo professor e muitos deles nunca se esforçam para buscar novos conhecimentos aonde quer que estejam. E se o sistema incentivasse os alunos através das condições que são criadas, teria muita exequibilidade a expressão que o PR pronunciou: “Todo cidadão angolano tem esse direito, mas não basta ter esse direito, é preciso que trabalhe no sentido de se qualificar para poder atingir o nível superior". Infelizmente, maior parte deles não trabalham para se qualificar. Os que o fazem, encontram inúmeras barreiras, tais como a falta de condições, os empecilhos na hora do estágio/prática profissional, a inacessibilidade de fontes, entre outros. Até mesmo que tenham qualidades nunca são reconhecidos a não ser que alinhem a ideologia política do partido no poder.


A história do governo angolano em apostar no homem através da educação não é nova. A Constituição de Angola de 1975 já falava no seu artigo 13º de uma educação virada para o homem (povo); e ao longo dos anos que se seguiram o Presidente Neto foi sempre se referindo à educação como melhor caminho para se alcançar o desenvolvimento, onde vários discursos foram promovidos até hoje, tendo inclusive criado uma mega campanha de alfabetização e não só; o discurso foi recuperado pelo sucessor, e depois o sucessor do sucessor, mas até hoje continuamos na pioria. Por isso, sem alguma prática, as palavras soltas nunca serão mestre da verdade, por mais que tenham cunho jurídico.


Já retomando a nossa abordagem, o MED diz estar engajado na criação de condições de higiene e biossegurança para que as aulas retomem, sendo isso antes de mais uma vergonha para um executivo que não conseguiu criar condições mínimas nas escolas em 45 anos de governação. Todo esse tempo pensavam que os alunos bebiam água da onde? Pensavam que os professores lavavam mãos aonde? Construíram-se e inauguraram-se escolas até nas aldeias, mas muitas sem casas de banho, e se as tinham eram inoperantes. Para não falarmos de carteiras, que por vezes movimentavam-se de outras escolas e depois da inauguração eram devolvidas e a nova escola continua um chão sem assentos. Não vos cria vergonha isso hoje?


A pandemia é um mal muito grande, mas neste aspecto veio para que os males crónicos antes invisíveis fossem visíveis e sejam atendidos em proporções iguais. Se esse vírus não fosse doença nem matasse, mas que exigisse todas as condições que está a exigir, eu rogaria que todos anos fossem de corona. Assim os mais desfavorecidos seriam ouvidos e atendidos em pé de igualdade.


Entretanto, o MED querendo que a 13 de Julho se dê início às aulas, não há oposição a isto, até sob ponto de vista epidemiológico, a situação começa a ser quase controlada (mesmo com dúvidas sobre alguns dados, tipo um caso estável e menos de 24 horas é dado por falecido) e os casos que sobem são justificáveis e claros: contactos e importações. Mas o grande problema que faz com que todos os sectores da sociedade se oponham à reabertura das escolas prende-se com as condições das nossas instituições de ensino para manter os padrões mínimos de higienização até Dezembro, sem falhar um único dia. Não podem comprar sabão para um mês e dizerem que as aulas devem arrancar! Porque com isso teremos semanas de paragem. Se antes era apenas o porte do plano de aula para o professor ter acesso à sala, em 2019 aumentou a bata como condição e em 2020 é a higienização das mãos como entrave.


Que o MED pense nisso: sabão e água para 3 dias, uma semana ou apenas um mês não significa condição criada para arrancar, uma vez que as escolas na sua maioria não têm orçamentos, as primárias estão agora impedidas de cobrar comparticipações e ninguém deve viver de esmolas para manter a sua escola funcional. Nós sabemos que neste país, as coisas só servem para serem exibidas e depois de arrancar vai se perder o controlo, caso não se criem condições que durem todo o período lectivo. Já vimos aeroportos a serem inaugurados com um avião e depois disso nunca mais receberam nem um helicóptero, assim como torneiras que só passaram água no dia da inauguração. E não deve ser o mesmo paradigma com as escolas.


Não há intenções de ser pessimista, mas os factos já vivenciados antes nos levam a certo cepticismo. Se o combustível para energia eléctrica no período nocturno, os quadros pretos, o giz e outros elementos indispensáveis para se realizar uma aula foram muitíssimas vezes um calcanhar de Aquiles, sendo que em certas vezes os professores foram obrigados a conversar só com os alunos por falta de giz, o que esperamos de garantirem água e sabão, visto que nada influenciam na boa conduta de uma aula? Obviamente teremos em algumas escolas aqueles dias em que o director dirá: "hoje trabalhem só assim". E isso vai acostumando até o desastre chegar, se eventualmente tiver para ser!


Presumo que se as condições permanentes não estiverem criadas, que não se arranquem as aulas. Há muitas formas de não se perder o ano.


É mais prudente anular o ano lectivo ora iniciado, recomeçar as matrículas/reconfirmações em finais de Julho ou princípios de Agosto num clima de moralização, sensibilização e educação sanitária para os pais e alunos/estudantes, bem como arrancar as aulas de um novo ano até 15 de Setembro. Isto porque mesmo que as aulas comecem em Julho, podem crer, as estatísticas serão diferente e todas elas terão tendências negativas e o absentismo será o maior de sempre, pois é com razão. Nenhuma escola pública suburbana ou rural deste país vai reiniciar as aulas com 100% dos seus alunos matriculados, isto é um facto previsível!


O medo, a incerteza, a insegurança instalaram-se na sociedade de modo que muitos dirigentes serão os primeiros a não mandar os seus filhos para as escolas que eles conhecem as debilidades sanitárias!


Os pais ao matricular os seus filhos deverão já se informar sobre a máscara e outras medidas de biossegurança. Muitos deles não conseguem adquirir uma bata dos seus filhos que estudam por muitos anos numa escola primária. Escola com salas sem carteiras já dispostas ordeiramente, que distanciamento se espera?


Esta modalidade de dividir turmas em grupos, ou criar semanas sim, semanas não, incidirá negativamente sobre o aproveitamento lectivo, porque cada aluno estudará apenas metade do tempo total. Não vamos improvisar, devemos educar e instruir com produtividade necessária. Antes a calma proveitosa, do que a pressa para se arrepender pelo desperdício.


Porque se se fizer uma nova matrícula, primeiro daremos oportunidade para aqueles que já estavam matriculados e no caso de existência de vagas dos que não poderão aparecer, entrarão aqueles que não puderam ter uma vaga em Janeiro. Até os que estão dentro da cerca sanitária podem se inscrever ou transferir-se para as suas zonas de residência habitual.

Ateste-se que somos um país da SADC, até o momento o único que não tem autarquias e que as aulas não começam em Setembro. Por essa altura, temos a oportunidade de adequar o nosso calendário escolar ao calendário regional da SADC.
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Por: Felisberto Ndunduma Sakutchatcha

(Cidadão, professor, escritor, investigador, orador/conferencista, activista, desenvolvedor tecnológico e fazedor de opinião).



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