Benguela - Não é qualquer pessoa que pode falar com propriedade da trajectória de vida do general Kundi Paihama.

Fonte: Jornal de Angola

Memórias do último doce guerreiro

O meu depoimento refere-se especialmente aos cerca de seis anos em que ele esteve como responsável máximo da província de Benguela, ou seja, de 1981 a 1986, sendo, nos últimos dois anos, o presidente do órgão que era designado por Conselho Militar da Sétima Região. O nosso CMR tinha o seu comando na Vila do Waku-Kungo e incluía, na sua jurisdição, a província do Kwanza-Sul.

 

Na verdade, era um período de vigência de um Estado marcial não declarado, em resposta ao agravamento drástico da situação político-militar em Angola. Basicamente, Paihama, um homem do Sul, orador nato e com domínio da maior parte das línguas nacionais, chegava a Benguela enviado pelo MPLA, para evitar a instalação do caos no seio da população, assustada com a crescente influência da Unita e a ameaça latente de secessão do Sul do território angolano, com base no critério tribal.

 

Tive a graça de, temporariamente, ter estado entre os que trabalhavam directamente com ele, na missão de impedir que os batalhões e colunas regionais da Unita, fortemente armados, tomassem a província de Benguela e concretizassem um plano secreto de divisão de Angola ao estilo da Coreia e do Vietname, ou seja, uma Angola do Norte e uma Angola do Sul, delimitados a partir dos carris do Caminho de Ferro de Benguela.

 

O primeiro contratempo para o novo comissário aconteceu justamente quando a Unita atacou, pela primeira vez, a sede de um município na província de Benguela, com um contingente cujo modus-operandi nos fez rapidamente concluir que a dinâmica da guerra tinha mudado perigosamente. A Unita tinha iniciado uma ofensiva para destruir toda a infra-estrura da província de Benguela e isso veio acontecer mais tarde.

 

No Bocoio actuou uma força bem armada e equipada, formada por efectivos de um batalhão semi-regular com especialistas em explosivos e comandos, complementada por duas colunas regionais de guerrilheiros, uma delas tinha o poético nome de “Coluna Raios-do-Sol” e a outra “Gorila das Anharas”. Mais tarde, descobrimos que o mesmo efectivo de uma coluna regional mudava de nome constantemente, como táctica da Unita para iludir de que tinha um grande exército na região.

 

O ataque da Unita contra o Bocoio foi comandado por um brigadeiro. Investiram pela madrugada com um inusitado poder de fogo e rapidamente dominaram a força local constituída por efectivos da ODP (Organização de Defesa Popular) e da Segurança do Estado, comandados pelo tenente Rangel e pelo nosso chefe de sector, o camarada Raul Hoka. O Comissário Municipal era o camarada Lourenço Goncalves, hoje economista e funcionário do Governo Provincial de Benguela.

 

Kundi Paihama ordenou uma resposta rápida e, por volta das 10 da manhã, tínhamos retomado a sede municipal do Bocoio, onde constatámos que, durante a sua permanência no local, a tropa da Unita não tinha atacado directamente a população e inclusivamente tinha feito um comício, tentando conquistar-lhe a simpatia. No comício, o chefe do ataque tinha dito que a guerra agora era outra.

 

Após a Frente Frustração do Povo contra a qual lutávamos, a Unita tinha criado, mais a Norte a “Frente Esperança Negra”, para progredir em direcção à capital do país, após o ataque à cidade do Sumbe. A partir daquela data, a ordem de Paihama era no sentido de haver sempre uma resposta imediata aos ataques da Unita, com todos os meios ao nosso alcance, levando mantimentos e medicamentos, transmitindo segurança e apoio moral.

 

Iam sempre equipas de radio e TV para filmar qualquer atrocidade da Unita e passá-las depois nos programas de contra-propaganda que existiam. O nosso comissário chegou a uma conclusão assustadora: não tinha tropas suficientes para reverter a situação. Foi assim que tomou a histórica decisão da criação de uma força de contra-guerrilha, para tentar reverter a situação.

 

Foram então criadas as lendárias Onças da Montanha, inicialmente chefiadas pelo veterano comandante “Cantiflas”, que foi substituído pelo falecido brigadeiro Mandinho, na altura com a patente de sub-tenente. Instalou-os em Bimbas, um dos flancos de penetração que a Unita tinha na localidade e passou a alimentar os seus homens a partir da fábrica de tecidos Africa Têxtil, cujo director, Manuel Henriques, era um dos homens do Paihama.

 

Para Kundi Paihama, todo o jovem em Benguela tinha de ser tropa, a bem ou a mal. Inicialmente, ele pretendia mandar-me para os comandos. Foi nesta altura que saí da Angop, onde estava a trabalhar com o Nazaré Van-Dunem, e voltei a ingressar nas FAPLA, por decisão do próprio Paihama, do Eduardo Octávio e do então primeiro-tenente Vidal Pascoal “Vingança”, com quem fiquei a trabalhar na área de informação e analise.

 

Após uma formação em contra-inteligência com os assessores cubanos, na Baia Azul, éramos nós quem analisava a situação operativa e garantia um fluxo de informações para o mando superior e para o comando da região. Com eles elaborávamos os planos das operações militares, nas quais participava sempre um dos oficiais da nossa área. Foi nessa condição que batemos toda a região centro de Angola, a pé, de carro ou de helicóptero.

 

Coincidentemente, durante este tempo de Kundi Paihama em Benguela, aconteceram muitas tragedias, que afectaram profundamente a psique de uma parte da população. Umas resultaram da alteração da situação operativa, como consequência da pressão da Unita, devido à introdução no teatro de forças melhor preparadas, e outras aconteceram por ocorrência de erros de comando ou indiscritível indisciplina de alguns chefes políticos e militares.

 

Perdemos muitos camaradas nossos em ataques, emboscadas, atentados bombistas e até dezenas de jovens durante uma manobra, no final de um curso de comandos. Certa noite escura, quando fazíamos uma incursão com uma companhia da Brigada 98, chefiada pelo segundo-tenente Cara Podre, nas áreas da Catanha, a antiga Região 71 da Unita, tentando resgatar os cidadãos checos raptados na fábrica de Celulose do Alto-Catumbela, um soldado accionou uma mina a escassos metros de mim.


"Vivemos momentos dramáticos, pensávamos estar dentro de uma emboscada e alguns camaradas, sob pressão psicológica, iniciaram um tiroteio de armas ligeiras. O chefe político da missão era o camarada Carlos Martinó Cordeiro, que até há pouco tempo esteve como secretario de Estado das Pescas. Tínhamos deixado o camarada Paihama na Chicuma, onde estava o Posto de Comando Principal.

 

Quando amanheceu, os chefes decidiram evacuar o ferido com a perna decepada e o camarada Martinó incumbiu-me de chefiar a missão com uma escolta e sete camiões. Cruzámos com camiões carregados de pessoal a seguirem para a zona de onde tínhamos partido. Quando chegámos a Chicuma, dirigi o meu camião para o chamado “Palácio da Comuna”.

 

Mal parámos, deparei-me com o camarada Paihama, a andar de um lado para o outro, por cima de um passeio alto, feito com garrafas sobrepostas e rebocado com alvenaria. Reparei que ele tinha as duas cartucheiras cruzadas no peito, como era seu hábito, sinal de que iria sair e estava com a sua escolta completa.

 

A super-makarov que lhe fora oferecida por Fidel Castro balouçava-lhe na coxa da perna direita e ele estava bastante furioso quando me abordou: “Que se passou Mule-Mule, vocês estão lá a comerem. ou que?” Expliquei o sucedido e mandou-me deixar o ferido no posto médico e regressar de imediato para a Catanha. Apesar do receio de minas, levámos pouco tempo a atingir o grosso das tropas do Cara Podre.

 

Já estavam em acção as Onças da Montanha, quando fomos sobrevoados em círculos por helicópteros “Allouette”, um deles pilotado pelo falecido comandante Pires “Pico”. Era o Kundi Paihama. É este homem irreverente e destemido que conheci e admirei durante muito tempo.

O recurso a Péricles para entender Paihama

Para falar do finado general Kundi Paihama, não tenho outro remédio, senão recorrer à célebre constatação de Péricles, segundo a qual, para podermos entender o papel dos homens na Historia, temos de entender o contexto em que os mesmos agiram. Tentar entender os contornos do passado, usando as lentes dos dias de hoje, é um equívoco que muitos cometem.

 

Assim, recuo ao início dos anos 1980, quando apertei a mão ao recém-chegado comissario provincial de Benguela, antes de uma partida de futebol de salão que jogámos no Palácio do Povo. Como cerimónia de boas-vindas, formámos uma equipa mista para jogar contra a super-treinada formação do novo comissario, onde pontificavam os seus guardas e oficiais, como o Bazuka, o Cachimbo, o Fiote, o Pedro Sekunangela, o barrigudo do meu conterrâneo Manuel e outros, todos eles bem encorpados, com excepção do Fiote, assim chamado por ser de Cabinda.

 

Paihama era um inveterado desportista e indeclinável amante do futebol. Desde cedo, tive uma empatia por aquela figura carismática, naquele dia vestida com um fato de treino, enquanto os outros jogavam de calções de cetim. Eu estava no centro do campo, pisando a bola, quando ele, olhando o meu metro e 94 de alto abaixo, chamou-me por um nome estranho:

 

- “O Mule-Mule, tu sabes mesmo jogar futebol? Aqui não vais passar”. Era ele o principal defesa da equipa do Palácio e todos sabiam que ele jogava duro. Naquela altura, eu tinha performances de um atleta bem treinado, tinha velocidade e um remate forte. Mal soou o apito para o inicio do jogo, recebi a bola, flecti ligeiramente para o lado direito e chutei muito forte para a baliza.

 

A bola embateu na trave com estrondo e o nosso comissario gritou: “Olhem, o Mule-Mule afinal joga mesmo!”. Pronto, ali fiquei mesmo com a alcunha, Mule-Mule. Durante o jogo, todos passaram a chamar-me assim, era Mule-Mule para aqui, Mule-Mule para lá. Era um nome baseado numa onomatopeia, na sua língua materna, para indicar alguém com um andar lento e cadenciado. Mais tarde, quando comecei a andar com ele nas operações militares, com o uniforme das FAPLA, continuei, para ele, a ser o Mule-Mule.

 

Kundi Paihama foi um excelente estratega no seu tempo e um exímio condutor de homens. A sua visão da guerra que grassava então o chão do nosso pais tinha chegado ao seu ponto máximo de confrontação. A concepção doutrinária da estrutura das FAPLA não se encontrava adequada ao tipo de guerra de guerrilha protagonizada pela Unita.

 

Nós tínhamos, em Benguela, duas brigadas de infantaria ligeira, a BIL 98, estacionada na sede municipal do Cubal, e a BIL 166, na cidade do Balombo. Paihama criou o Centro de Instrução do Kasseque e foi um dos impulsionadores da adopção da “guerra de quadrícula” para conter o avanço da guerrilha da Unita.

Incompreensão

Kundi Paihama foi muito incompreendido, por causa da formação da tropa de elite “Oncas da Montanha”, constituída por jovens oriundos do Cunene, com quem estive em varias operações em Benguela e no Kwanza Sul. Kundi Paihama é que foi buscá-los ao Cunene. Eram valentes e graças à sua aguerrida actuação a província de Benguela conseguiu sobreviver na mão do governo. Depois surgiram algumas réplicas desta unidade.

 

A primeira baixa em combate do verdadeiro Batalhão Onças da Montanha foi um soldado alegre e muito jovem, tinha a alcunha de “Candongueiro”. Foi feito um velório no Centro de Instrução do Kasseque, no qual participou o camarada Paihama, que se posicionou no meio de uma grande roda, que era habitual nos kwanhamas dos “Onças”, antes de entrarem em combate: todos os soldados abraçavam-se com as AKAM em bandoleira às costas.

 

No centro da roda, ficava um soldado agachado num dos joelhos e era ele quem iniciava os cânticos guerreiros dos kwanhamas, exaltando os seus chefes, entre eles Mandume e o próprio Paihama. Quando pararam de cantar, o comandante Kundi Paihama tinha os olhos marejados, no seu rosto duro com uma barba rala. Num timbre forte, disse:

 

“Eu sou responsável por cada um de vocês, fui eu que fui buscar-vos dos vossos pais e mães, por ordem do camarada Presidente, para virem combater longe da terra dos vossos ancestrais. Angola é una e indivisível, vou levar para o Cunene a nossa primeira baixa e outros camaradas tombarão, mas temos de cumprir a nossa missão.

 

 

 



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