Luanda - Kundi Paihama é um angolano de gema, poliglota autóctone, uma expressão do “poder popular”, intencionado por Agostinho Neto, em 1975. É também produto da estratégia de Neto de utilizar os grupos étnicos minoritários como “gendarmes” do seu regime hegemónico para combater a oposição que enfrentava no País e no seio do próprio MPLA. No final do consulado de JES, Kundi Paihama era um general no activo e ao mesmo tempo dirigente de um Partido político, ao arrepio da Constituição e a lei.

*Paulo Alves
Fonte: Club-k.net

1944-2020

A forma como Neto e o MPLA promoveram Kundi Paihama e este se firmou como dirigente político-militar é singular. Em 1976, o presidente Agostinho Neto decidiu nomear um indivíduo da etnia kwanhama para comissário provincial (governador) do Cunene. O nome de Paihama, que trabalhava como funcionário da Repartição de Registos e Notariado do município do Tômbwa, na província de Moçâmedes (hoje Namibe), foi proposto. Segundo uma fonte conhecedora da sua trajectória, Kundi Paihama informou Agostinho Neto de que não era kwanhama. É handa, natural do Kipungo, no município de Huíla. Agostinho Neto perguntou-lhe se falava a língua dos kwanhamas, ao que respondeu afirmativamente. Assim foi nomeado e empossado, mantendo-se como dirigente desde então.


Enquanto comissário provincial, nas suas deslocações ao interior do Cunene, Kundi Paihama passou a fazer-se acompanhar de um batalhão independente conhecido como “Onças da montanha”, fundado e inicialmente liderado pelos comandantes Armando José Augusto Mateus "Mandinho" (falecido em 2007, com a patente de brigadeiro), Matias (falecido), Francisco Wapota Kalambo "Canhão" (sub-comissário da Polícia Nacional) e Ernesto Hanhamuke.


Em 1981, JES deu-lhe a missão de “governar” a província de Benguela. Naquela altura, tal como hoje, “governar” uma província significava acima de tudo mantê-la sob o controlo político do Partido-estado. Paihama requisitou a transferência dos “Onças da montanha” para esta província, como uma força militar sob sua dependência. Adoptou a mesma estratégia aquando da sua transferência para outros postos. Nos anos 80, os “Onças da montanha” destacaram-se em várias operações militares, particularmente em Benguela, sempre como força controlada por um civil, Kundi Paihama, que a colocava ao “serviço da nação” e para outras “missões”.


Foi a partir dessa relação com os “Onças da montanha” que Kundi Paihama construiu uma imagem de comandante militar que na realidade nunca foi. Como soldado, serviu apenas no exército português. Porém, o MPLA também explorou a sua qualidade de handa (sub grupo kwanhama) e a sua imagem de militarista intrépido e “fiel ao Chefe” para pôr alguma ordem na casa. Nomeou- lhe nos anos 80 para o (novo) cargo de Ministro de Estado Para a Inspecção e Controlo, numa altura em que JES dava os primeiros passos na tentativa de combater “o liberalismo” e a corrupção no seio do Partido-estado.


Kundi Paihama destacou-se sempre pelo seu radicalismo e intolerância para com os seus “inimigos” de então, tendo-se tornado no único dirigente do MPLA capaz de falar com as massas do centro sul de Angola. Em 1987, frequentou um curso de oficiais. No ano seguinte, 1988, o presidente José Eduardo dos Santos ofereceu-lhe a patente de coronel das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA). Em 1991, foi promovido a major-general e, no ano seguinte, a general do Exército. Nos últimos vinte anos, Kundi Paihama continuou como general no activo, enquanto exercia cumulativamente uma função partidária, como membro do Bureau Político do MPLA, ao arrepio da Constituição e da lei.


Ao longo da sua carreira como dirigente político-partidário, o general Kundi Paihama conquistou, por mérito próprio, a reputação de um dos mais agressivos porta-vozes do MPLA na região centro-sul. Populista nato, era o único dirigente do MPLA capaz de falar com as massas do centro-sul em três línguas, com uma retórica discursiva que rivalizava apenas com Jonas Savimbi.


Em 1992, JES confiou-lhe a direcção da campanha eleitoral do MPLA nas eleições de 1992. Em 2012, passados dez anos de paz, Paihama afirmou-se como o único dirigente do MPLA a manter um discurso marcadamente belicista. Chegou mesmo a ameaçar massacres para os que se opusessem ao MPLA ou o presidente. “Vão ser varridos”, disse Kundi Paihama no comício que presidiu a 4 de Agosto, no Estádio da Ombaka, em Benguela.


A disponibilidade de Kundi Paihama para a violência política foi também explorada pelo presidente JES, em 2015, quando nomeou KP para governador do Huambo, aos 70 anos de idade, numa altura em que a UNITA estava em ascensão naquela sua antiga praça eleitoral, sob a liderança local do jovem Liberty Chyaca.


Antigo combatente da corrupção estatal nos anos 80, Kundi Paihama deixou-se engolir por ela já no século XXI, quando a oligarquia o incluiu na política de acumulação primitiva de capital. Sem experiência nem vocação para os negócios, Paihama envolveu-se em vários negócios, negociatas e conflitos de interesses, em vários ramos, designadamente jogos de azar (casinos, lotarias, etc.), pecuária, aviação e banca, o que lhe terá custado várias fraudes, processos judiciais e muitas dores de cabeça.


Numa entrevista à Rádio LAC, antes das eleições de 2017, porém, Kundi Paihama falou sobre a sua riqueza. “Tudo que tenho é do meu trabalho”, “O que é preciso é não roubar, cada um deve comer de acordo com o suor de seu rosto. Desafio a procurarem o meu dinheiro no exterior, o meu dinheiro não sai de Angola.” E acrescentou: “O meu sonho é viver nas lavras, no campo, e dedicar- me à agricultura. Isso sim, um dia que sair do governo, é o que eu farei sem dúvidas.”


Indefectível de JES, Kundi Paihama foi retirado do Bureau Político do MPLA pelo presidente João Lourenço, e tem acompanhado, com tristeza as lutas intestinas no seio da oligarquia. Os mais íntimos afirmam que o velho combatente não terá partido feliz.

 



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