Luanda - Não tenho qualquer dúvida, em afirmar que 2020, tem sido um ano estupidamente mau, tal argumento é sustentado pela forma “vulcânica” como temos vindo impotentemente assistir, à partida de muitos dos nossos melhores amigos. Por conseguinte, ontem quando interagia com um amigo no chamado território comunicacional alternativo, no caso as redes sociais pelo canal, apanhei um choque ao receber a notícia do passamento físico do nacionalista angolano, Moisés Kamabaya.

Fonte: Club-k.net

A primeira reação foi a de saber , se se tratava do mestre Kamabaya,(...) para minha angustia, à resposta do meu interlocutor foi desesperadamente afirmativa(...)Fiquei sem chão, porque havia falado com o velho no dia em que teve a crise, e transmitia boa disposição, esperança e sobretudo muita crença num porvir melhor.

 

Conheci pessoalmente o mais velho Kamabaya em 2017, numa atividade promovida pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), na Universidade Católica de Angola, na verdade já conhecia algumas das suas obras, mas o condão de interagir pessoalmente com ele, foi justamente naquele local. Tão logo surgiu à primeira oportunidade, fiz-me apresentar ao Mestre e manifestei o interesse em conversar com ele, que de imediato fez o favor de anuir à solicitação, conversamos alguns bons minutos e de seguida deu-me o seu contacto telefónico e consolidamos naturalmente amizade.

 

O segundo encontro aconteceu, uns meses mais tarde curiosamente no mesmo local, UCAN, desta vez com a descoincidência em termos de motivo, ou seja, o motivo presidente, deveu-se à honra que ele nos deu com a sua presença, na assistência da primeira edição do programa mensal do Centro de Estudos Africanos da Universidade Católica de Angola, denominado Encontros com a História.

 

Era perfeitamente visível o regalo no olhar do velho Kamabaya, que se mostrou disponível em participar como orador numa das edições do referido programa, pelo que de imediato formalizamos o convite ao Mestre.

 

Tive o privilégio de o entrevistar, em sua casa em termos de notas altas da entrevista, foram a de conhecer a génese da sua família, desde logo importa dar nota, que o nacionalista Moisés Kamabaya, nasceu na Província de Malanje no ano de 1937 ,o seu pai era madeireiro em Kissole, foi por esta via que obteve alcunha de Kamabaya, cujo prefixo ka significa aquele que tem, por conseguinte o sufixo Mabaya, significa madeira.

 

Era oriundo de uma família católica, não fosse o seu irmão mais velho Félix Kamabaya, que foi um distinto seminarista dando cartas por onde passou, sobretudo em Portugal, onde esteve de 1948 à 1953, não se tendo adaptado ao clima europeu, não conseguiu permanecer até o final do seu desejo inicial que era da se ordenado a Padre, com ele partiram o atual Cardeal Alexandre do Nascimento, o Joaquim Pinto de Andrade e o Vicente Rafael José.

 

Moisés depois de sair de Malanje, teve como destino Luanda, com objetivo de dar sequência aos estudos na companhia do seu amigo e colega o Reverendo Manuel Neto, ambos se hospedaram em casa do Nacionalista Adriano Sebastião, que foi segundo o M.K “o primeiro embaixador de Angola no pós-independência.”

 

Na aludida entrevista, Moisés Kamabaya, afirmou que o nacionalista “Adriano Sebastião e o reverendo Joaquim Pinto de Andrade, em Janeiro de 1960, estiveram reunidos com um nacionalista muito inteligente, que havia sido estudante de teologia e filosofia, veio à fundar uma organização secreta chamada MINA, desta mesma organização faziam igualmente parte Manuel Pedro Pacavira e o Fernando Coelho da Cruz, ambos eram igualmente membros clandestinos da organização, contou-nos que estes, ao se aperceberam que o Agostinho Neto, depois todo percurso que teve como antigo preso político, já se encontrava em Luanda em Dezembro de 1959, convidaram-no para uma reunião em janeiro de 1960, para fazer parte de uma reunião que decorreu na rua da Brigada no Rangel.

 

Naquela entrevista Kamabaya, adiantou ainda, que na reunião do Rangel fez-se igualmente presente, o seminarista José Bernardo Quiosa, cujo local foi em casa do senhor Manuel Ramos, aí foram dados os primeiros passos para criação do MPLA, ao tomar a palavra Agostinho Neto, agradeceu o convite, dizendo “peço que tenham muita cautela devido às prisões que se estão a ocorrer por aí, houve no dia 29 de Março de 1959, uma onda de prisões em massa, do grupo dos 50, que depois foram desterrados, mas em todo caso estou satisfeito pelo vosso convite, acho que este nome de MINA, não é mau, mas já temos um nome que é proveniente de uma organização secreta e já é conhecida em Portugal, que nos podem ajudar porque não temos meios para levar a cabo uma ação destas, temos que ter apoios, sugiro que esta organização se passe a chamar a partir de hoje MPLA, ou seja, Movimento Popular de Libertação de Angola, é assim que Agostinho Neto, aqui em Luanda, materializou a primeira etapa do MPLA”.

 

Outra questão nevrálgica que coloquei ao velho, foi a de saber porquê que abandonou o MPLA para ir para FNLA?

 

Eu não tive opção política, fui um cofundador do MPLA, estas mensagem que você está ver aqui, diz alguma coisa? Nós é que enviávamos às mensagens ao MPLA, lá fora porque aqui dentro não havia MPLA nenhum, o que havia e já encontrei, foi o Club Atlético, por esta via conheci o Lopo do Nascimento, Albina Assis no Santa Cecília(...) Era tudo MPLA, não havia outra organização, vou para FNLA, porque tive desavenças com indivíduos em São Nicolau, o que se passou foi o seguinte: quando fui a São Nicolau, já eu estava na Universidade, e lá encontrei o filho de um meu grande amigo, o Reverendo Job Baltazar Diogo, que foi um dos indivíduos que conheci, por intermédio do meu professor, Luís João Sebastião Micolo, que o meu irmão mais velho, o Félix Kamabaya, conheceu também no Quéssua, ele traduziu a Bíblia de Português para Kimbundu, eu fazia a tradução das suas traduções para Inglês, para os ministérios das missões de Nova York.


Portanto quando fui preso, encontrei pessoas que nunca esperei encontrei pessoas que nunca esperava encontrar, por serem na altura muito jovens, tenho hoje 82 anos , nasci no dia 10 de junho de 1937. Quem eu encontrei na cadeia, Bornito de Sousa Baltazar Diogo, e o seu irmão Baltazar Diogo, hoje general. Quando me viram disseram logo, ouvimos dizer que o tio Kamabaya, está cá preso, o tio precisa de ter uma camisola para que não te massacrem, aqui arranjam pretextos par o fazerem. Portanto a primeira camisola que tive em são Nicolau, foi Bornito de Souza Baltar Diogo, que tirou das suas camisolas de prisoneiro e deu-me, eles eram menores, me conheciam, eu não os conhecia bem, mas sabia que eram filhos do Reverendo Job Baltazar Diogo.


Moisés Kamabaya, foi um nacionalista convicto, autor de vários livros sobre Angola e África, foi preso nas cadeias de São Nicolau, militante do MPLA, que por razões de desavenças politicas, acabou por renunciar à sua militância mudando para FNLA, em campainha do seu amigo de sempre Rosário Neto, depois foi viver para Estados Unidos onde fez grande parte da sua vida , desde a formação à nível da graduação e pós graduação, até a constituição da família e a docência, foi igualmente presidente do COMIRA, que resultou nos anos 80, na sua reintegração ao MPLA, e por conseguinte, ao pais por via da politica de clemência, onde se pontificavam nomes como Paulo Tuba, Johny Pinock Eduardo , Hendrick Vall Neto(...).

 

Moisés Kamabaya, foi igualmente Deputado pela bancada parlamentar do MPLA, fez parte da equipa de lóbis para o reconhecimento da Administração Clinton, ao governo angolano, cultor profundo da língua nacional kimbundu. Por tudo que fizeste meu velho, não tenho qualquer dúvidas em afirmar que foste seguramente um bom patriota, o teu exemplo na dedicação da pesquisa e investigação cientifica ficará seguramente marcado nos anás da história de angola.


Adeus meu velho! 
Por Cláudio Fortuna.



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