Luanda - Manobras perigosas, embora veladas, estão em curso na Federação Angolana de Andebol (FAAND) para o favorecimento descarado de uma chamada lista de continuidade. Ou seja, um títere escolhido a dedo pelo presidente cessante, Pedro Godinho, vai substituí-lo formalmente. Mas, no fundo, quem deverá continuar a mandar na instituição é o homem que acaba de cumprir duas décadas na Direcção da federação, primeiro como vice-presidente de depois como presidente, cargo que já ocupa há longevos 12 anos.

*Carlos André
Fonte: Club-k.net

Aparentemente, mas só aparentemente mesmo, o plano de manutenção do poder é pacífico. Porém, uma viagem pelos meandros da trama deixa claro que há muito está desenhada a estratégia para a “tomada do poder pela força das armas”. A metáfora parece exagerada. Mas tem razão de ser, na medida em que, em surdina, Pedro Godinho mexeu os cordelinhos todos para colocar no seu lugar um vice-presidente da sua mais inteira confiança. O presidente cessante está a fingir-se de morto, mas sub-repticiamente usa o seu capital de relacionamento institucional com diversas associações provinciais e clubes para fazer eleger o seu títere, no caso José Venâncio, a quem ele alcandorou à condição de presidente em exercício, precisamente para lhe dar visibilidade. E fê-lo sem nenhum documento formal, como indica a ausência dessa informação em todos os comunicados oficiais da FAAND publicados desde Janeiro último.


De acordo com o que foi detalhado ao Club-K, o plano, urdido de forma minuciosa e ardilosa, tem várias etapas e foi-se adaptando em função das circunstâncias. Primeiro, houve uma imposição de lista única, cinicamente também chamada de consenso. Esta, contudo, foi rechaçada porque alguém dentro do actual elenco directo discordou e disse querer candidatar-se de forma isolada, no que contou com apoios consideráveis dentro do elenco. Por isso, apesar de todos os esforços de passarem na comunicação social a mensagem segundo a qual há apenas uma lista concorrente às eleições da FAAND, Pedro Godinho e seus seguidores na actual Direcção não foram bem-sucedidos nessa empreitada, porque o Mundo já sabe há mais de um aspirante ao “cadeirão”.


Ao que foi relatado ao nosso site, o plano foi reformulado e uma etapa caracterizada pelos da “continuidade” como sendo fundamental é “ter na mão” o presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Vítor “Tó” Araújo, que estava ligeiramente distanciado da Direcção devido a alguns desaguisados relacionados com a gestão da federação. O presidente cessante de Direcção da FAAND já conseguiu o que queria, acenando Vítor Araújo com a continuidade no cargo que ocupa(va). E este aceitou sem pestanejar seguir à frente do órgão que dirige na “lista de continuidade” que vai concorrer para o mandato federativo 2020-2024.


Mas a peça-chave do puzzle é outra. Trata-se da imposição de José Cardoso de Lima na liderança da Comissão Eleitoral, secundado por Domingos Pascoal, que foi presidente da Comissão Eleitoral das eleições da Associação Presidencial de Luanda, as quais foram parar às barras do Tribunal e a Direcção eleita não tomou posse sábado passado, 8 de Agosto, como estava inicialmente programado. Segundo relatos que nos chegaram, em várias reuniões de Direcção, Pedro Godinho terá manifestado abertamente isso mesmo para quem o quis ouvir, tratando o dirigente do Clube Desportivo 1.º de Agosto como “nosso”. Por outras palavras, alguém que favoreça a sua marioneta, travestida de candidato à presidência da FAAND.


A indicação de José Cardoso de Lima, que será lançada pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral, este já devidamente industriado por Pedro Godinho, visa assegurar a vitória no pleito pela “força das armas”. Não fosse assim, basta olhar pelo retrovisor e o que veremos é que nas três vitórias de Pedro Godinho desde 2008 o presidente da Comissão Eleitoral foi... José Cardoso de Lima. Sempre ele!


A última das quais, em 2012, houve tremenda barraca, com o concorrente Bráulio Brito a queixar-se de fraude deslavada e vergonhosa. A insistência em José Cardoso de Lima tem muito que se lhe diga, embora a actual Direcção da FAAND queira fazer dele profissional de comissões eleitorais... Esquecem-se de um pressuposto básico das Democracias, segundo o qual o poder perpétuo cria vícios insanáveis. De resto, não é sem razão que em regra os mandatados presidenciais são limitados a três. E José Cardoso de Lima já fez três mandatos como presidente da Comissão Eleitoral, designadamente nos pleitos de 2008, 2012 e 2016, coincidentemente todos ganhos por... Pedro Godinho. Mais: a sociedade desportiva angolana tem outras (muitas) pessoas capazes de desempenhar essa função que lhe querem aparentar tão difícil como a de um astronauta!


Da idoneidade de José Cardoso de Lima não estamos em condições de aferir, embora não nos esquecemos que quando foi presidente da Comissão Eleitoral do basquetebol em 2016, na disputa entre Paulo Madeira e Hélder Cruz “Maneda” também deu “barraca”. Mas vamos ao que interessa. Mesmo que José Cardoso de Lima tenha feito licenciatura, mestrado e doutoramento em pleitos eleitorais de andebol – é o que parece! –, à partida não tem condições de presidir o órgão. Pela simples e altamente ponderável razão de que, enquanto funcionário sénior do Clube Desportivo 1.º de Agosto, é parte interessada no processo. Afinal, o clube militar também vota nas eleições da FAAND.


Mas como a sede de poder, entretanto, é enorme, “Tó” Araújo, incitado pelas suas hostes, vai tentar impor José Cardoso de Lima como presidente e, para tanto, vai mover céus e montanhas. Se o cenário não estiver de feição para a “Lista de Continuidade”, José Venâncio (o presidente de exercício de Direcção) vai entrar em cena, já que esta é a peça fundamente da trama que vem sendo tecida há sensivelmente um ano para o assalto ao poder pela “força das armas”. Este é um filme já visto noutros carnavais, o mesmo que dizer noutras eleições. Como se diz é um déjà vu, o galicismo a que usuários de outros idiomas recorrem para descrever reação psicológica da transmissão de ideia de que já se viveu uma determinada ocorrência.

P.S.: Outros pormenores do plano de tomada de poder por parte da dita lista de continuidade serão desvendados em próximas ocasiões.

 



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